Rui Dias

Rui Dias Redator e repórter principal

Uma brisa de nostalgia em Alvalade

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Conta Jorge Valdano que na sua cidade natal, Las Parejas, havia um jogador diferente: Sulú Cirioni, homem de boa pinta que, antes de cada jogo, perdia ao espelho o tempo que os jogadores normais gastam no fim. Escreveu um dia o campeão do Mundo de 1986 e um dos maiores geradores de ideias que o futebol conheceu que, ao intervalo, Sulú cumpria um vasto ritual que terminava pondo desodorizante, prova de que não transpirara na primeira parte e de que não tinha a menor intenção de fazê-lo na segunda. Todos o aceitavam porque era um jogador impressionante, que introduzia a pausa, "uma espécie de Riquelme, com a diferença de que jogava muito mais e corria muito menos", Valdano dixit. Não há provas de que Sulú tenha existido mas o mito serve como exemplo do que o futebol mudou no último meio século.

Alan Ruiz tem a vantagem do talento. É um promotor de emoções e um criador compulsivo de futebol, tendo os elementos genéticos suficientes para se impor como e onde foi preciso. Só um inconsciente que se autodecretou invencível pode cruzar o Atlântico e apresentar-se perante realidade desconhecida com mais 10 quilos do que o peso ideal. Ao fim de quase oito meses percebeu que deve agregar senso comum ao reportório e apetrechá-lo com automatismos que lhe deem segurança. Essa é a melhor forma de se ligar às ideias do treinador e à representação do conhecido e do memorizado. Será um esforço tão necessário quanto difícil.

AR é a brisa de nostalgia de uma realidade que já lá vai; a réplica tardia e leve de quem se propõe abordar uma indústria implacável e um tempo de exigência máxima (profissionalismo levado às últimas consequências) agarrado a conceitos como talento, orgulho e paixão, orientado pelo mero prazer de expressar-se como artista. É daqueles poetas de bairro que nos transmitem todas as sensações boas de um futebol que há anos nos foge por entre os dedos e que, por ser tão belo e genuíno, tem o dever de lutar contra os ditames da vertigem, da intensidade, do choque, do sacrifício e da correria sem sentido. Para servir uma equipa estruturada como o Sporting de Jorge Jesus, tem de adaptar-se tática, física e mentalmente, embora deva resistir ao crime que seria danificar irremediavelmente o estilo preguiçoso que orienta o seu padrão criativo.

Nas últimas semanas houve sinais animadores de que essa aproximação está em marcha e a consolidar-se – como é habitual nestes casos, à confiança oferecida pelo treinador, o jogador retribui com o talento escondido. AR sente-se cómodo como segundo avançado (aquele pé esquerdo vale ainda mais golos), razão pela qual começa a reunir condições para atrever-se a inventar e a criar assombro. No habitat ideal, só precisa do prazer de jogar, ter a bola e expressar-se como sempre fez. É simples: basta repetir o que fazia nas ruas de La Plata, com a diferença de que, hoje, tem 40 mil nas bancadas e milhões espalhados pelos quatro cantos do planeta a observá-lo, prontos a aplaudir cada obra de arte que assina.

El Mago já sabe que a paciência é uma utopia, porque os adeptos desenvolvem a cultura do imediato, nem sempre lúcida e respeitosa. Neste Sporting construído para ser campeão, ao qual a vida não correu bem, foi engolido pela engrenagem da competitividade interna e pelo choque frontal com uma realidade para a qual não estava preparado. Aos 23 anos, tem muito para mostrar e condições para cicatrizar as feridas deixadas pelo primeiro impacto. Diz-nos o tempo que, em Alvalade, há mais histórias de amor eterno iniciadas a partir de conflitos parecidos. Yazalde e Acosta são protagonistas de histórias grandiosas, nas quais os primeiros passos se revelaram desfasados da lenda que construíram e dos símbolos em que se transformaram. Não excluamos a possibilidade de ser esse o destino de Alan Ruiz.

Rui Vitória deve pedir desculpa?

Rui Vitória foi acusado de ter falhado a estratégia e de ter promovido massacre impensável. Custa ver uma grande equipa como é o tricampeão em tantas dificuldades. Mas não vale a pena exagerar. Ou querem que, por ter ganho a uma equipa forte, presunçosa mas incompetente, Rui Vitória peça desculpa à federação alemã, à UEFA, ao governo da Vestefália e, pelo sim pelo não, à própria xô dona Merkel?

Lateral-esquerdo de topo europeu

Alex Telles foi contratado com boas referências, pelo que fez no Brasil mas, principalmente, pelo que confirmou ao serviço do Galatasaray e até do Inter Milão. Os primeiros tempos como jogador do FC Porto, sendo animadores, não traduziram o seu real valor. O processo até à afirmação foi evolutivo. Quando passou a concluir tudo quanto inicia, tornou-se no melhor e mais influente lateral-esquerdo da Liga.

A obra-prima de Iuri Medeiros

Iuri Medeiros assinou com o Feirense lance para a antologia dos mais extraordinários passes de que há memória: receção perfeita a uma bola vinda do céu; temporização para se virar para a grande área e lançamento a longa distância que colocou Bulus atrás do defesa e na frente do guarda-redes – o golo era inevitável. Só um passo seria excelente; os três em pouco mais de 5 segundos são uma obra-prima.

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