De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Uma fera nos arredores do golo

O ar pesado e o padrão criativo estrito desviam as atenções de um jogador que, definido a partir de uma envergadura física impressionante (1,90 m e 85 kg), alimenta o jogo de toque e progressão participada que caracteriza o Benfica de Rui Vitória - quando pretende futebol mais direto, o treinador opta por Raúl Jiménez, jogador de traços mais largos, que oferece deslocamentos mais amplos e alimenta melhor o jogo longo. Mitroglou é apenas bom exemplo de um homem comprometido à sua maneira com a causa que defende, movido por emoções difíceis de decifrar pelo rosto inexpressivo e também pela voz que, de todo, não chega ao exterior. O grego não nasceu para andar nas bocas do Mundo mas assinou em Alvalade a obra que pode torná-lo herói benfiquista da temporada 2015/16. Os 18 golos que leva na primeira época ao serviço do Benfica (15 na Liga, 2 na Champions e 1 na Taça de Portugal) conferem-lhe estatuto de indiscutível prestígio, sinal de que vale a pena semear esperanças dando o corpo ao manifesto para colher a glória do último toque.

De resto, é um avançado de fácil inserção em qualquer exército, na medida em que dá resposta a qualquer tipo de exigência técnica e tática. Não é a equipa a adaptar-se às características do seu ponta-de-lança, é este quem se esforça por satisfazer o que o coletivo lhe exige. O futebol é o mais democrático dos desportos porque não elimina por físico, habilidade ou temperamento. Exige, isso sim, uma virtude que desequilibre os pratos da balança: tiro, jogo de cabeça, velocidade, astúcia, carisma… O grego atingiu nível internacional sem potenciar qualquer qualidade acima das outras, como exemplo da centenária história de um jogo que foi glorificando pelo tempo fora altos (Van Basten) e baixos (Messi); gordos (Maradona) e magros (Cruyff); ricos (Michael Laudrup) e pobres (Romário); líderes pelo grito (Di Stéfano) e pelo exemplo (Iniesta); rápidos (Futre) e lentos (Zidane); novos (Pelé em 1958) e velhos (Roger Milla); bonitos (Cristiano Ronaldo) e feios (Ibrahimovic).

Mitroglou é um avançado austero, sem qualquer interesse pelo adorno. A participação no bordado que prepara o ataque ao golo obedece mais ao empenho em cumprir com rigor o ofício do que em alimentar divagações líricas para as quais não está vocacionado. Toca pouco a bola mas tem o condão de dar saída inteligente de cada vez que é solicitado. É um futebolista potente, que resiste ao choque, tem ideias claras e raramente comete erros nas decisões que toma. Ao contrário do que parece (porque não é habilidoso) possui técnica evoluída, está apto a jogar a um ou dois toques mas também a guardar a bola o tempo suficiente para a soltar na zona e no momento certos. Sabe agir de costas mas é quando se vira para o objetivo com a bola dominada que se torna ameaçador. Na cara do guarda-redes resolve com frieza, simplicidade, calma e eficácia.

Longe da área alimenta a circulação, contribui para a conquista de espaços mas não é suficientemente hábil ao ponto de funcionar como polo de verdadeira preocupação para os adversários. À medida que se aproxima da baliza, porém, o seu jogo enche-se de argumentos contundentes - as armas que sustentam o seu instinto matador são temíveis e surpreendentes para quem se habitua a vê-lo apenas como alimentador do senso comum. Aos 27 anos, habituado a grandes palcos e já com um longo currículo a suportá-lo, Mitroglou tem aproveitado a etapa ao serviço do Benfica para se dimensionar como ponta-de-lança. Esse é, afinal, o destino de quem se vê na contingência de comunicar e entender talentos como Jonas, Nico Gaitán, Pizzi e Renato Sanches. O grego estará a descobrir qualidades individuais que, porventura, desconhecia. O que acentua o perfil de quem, nos arredores do golo, evolui de futebolista normal para uma autêntica fera. *

Bryan Ruiz não

merecia 'aquilo'

Há momentos em que o futebolista se sente nu perante milhares de adeptos

Bryan Ruiz ficará eternamente ligado ao dérbi pelo erro de rematar por cima uma bola à qual lhe bastava encostar o pé, tão próximo se encontrava da linha de golo - teve outra ocasião, mas menos flagrante. Ninguém merece passar por um momento daqueles, mais ainda uma estrela como o costa-riquenho, o mais tecnicista de todos os jogadores do plantel. Nada que belisque o essencial: a sua qualidade superior.

Futebol e golos

de Diogo Jota

Jorge Simão colocou-o no habitat natural e deu-lhe a indispensável confiança

Diogo Jota não se fez rogado e aproveitou as condições para se expressar. O treinador tranquilizou-o e ele retribui com futebol e golos. Tem sido fantástico vê-lo expressar-se com a regularidade, a sabedoria e a calma de quem já descobriu quase todos os segredos do futebol. Os 11 golos na época pelo Paços de Ferreira são absoluta exorbitância para um miúdo que, aos 19 anos, se prepara para conquistar o Mundo.

O deslumbrante

Pedro Santos

O Sp. Braga de Paulo Fonseca continua a encantar e a valorizar jogadores

Pedro Santos está a revelar-se uma estrela do futebol nacional. Dono de um dos pés esquerdos mais excitantes da Liga, ferramenta principal de quem derruba por talento, insistência, dinâmica, intensidade, alegria e inteligência, o extremo continua a somar argumentos ao reportório a cada jogo que efetua. Importante para o equilíbrio tático do Sp. Braga, é um polo de desestabilização para os adversários.

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