De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Uma vitória com sabor a vingança

O médio-centro é um jogador especial em qualquer contexto e, quanto mais especial for, mais estruturada é a equipa na qual está inserido. A história diz-nos que nem todas as casas servem aos melhores e esse pode ser um problema sério. A história tem quase vinte anos e é perfeita como exemplo. Paulo Sousa, na altura bicampeão europeu, foi contratado pelo Inter Milão ao fim de ano e meio no Borussia Dortmund. Chegou a S. Siro em janeiro de 1998, como reforço de uma equipa que lutava pelo título com a Juventus e cujo treinador, Luigi Simoni, hoje com 77 anos, reclamava diferença a um meio-campo do qual faziam parte Simeone, Winter, Berti, Zé Elias, Djorkaeff e Cauet. Ao fim dos primeiros treinos, o velho míster definiu as coordenadas: depois de ganhar a bola atrás, devia levá-la até poder ou chutar para a frente mais ou menos para onde estivesse Ronaldo "Fenómeno". Simoni não queria um geómetra, queria um empregado de limpeza.

Danilo é um jogador de fácil inserção, porque não se furta ao trabalho sujo da limpeza na sala de máquinas onde vive e estimula os duelos com quem invade o seu raio de ação – nunca perde a lucidez e não se deslumbra com as vitórias avulsas que vai conseguindo, porque tem visão ampla do jogo e conhece os segredos do futebol como jogo coletivo. Sustentado em apurado sentido de organização que lhe permite valorizar a ordem, sem a qual não é capaz de expressar-se na plenitude, zela com esmero pelo seu espaço. Para tirar o máximo partido das suas imensas qualidades é preferível deixá-lo sozinho na arrumação da casa, até porque deteta mais depressa se as coisas não estão no lugar; se lhe mexeram nas gavetas, desarrumaram o guarda-fatos ou deixaram roupa espalhada pelo chão. É um jogador precioso no equilíbrio que oferece para alicerçar a coesão estrutural na retaguarda e estimular o sentido de aventura que desbrava o caminho para a frente.

Para atingir o máximo falta-lhe autoridade sobre os companheiros, exigência impreterível ao médio-centro para que cumpra a função na plenitude da sua relevância. Problema dele, que só agora está a consolidar-se em equipas de topo (FC Porto e Seleção Nacional), mas também dos parceiros, que precisam de acreditar no modo como se propõe conduzir o barco, no conteúdo das sugestões para o manter na rota e nos benefícios das opções estratégicas para que, no fim, todos possam fazer a diferença. Danilo já vale por si próprio mas só atingirá o máximo (e tem de vencer a timidez) se funcionar para os outros como Coluna para o Benfica europeu e a Seleção dos anos 60; como Rijkaard para a Holanda campeã da Europa e o Milan de final de 80 e início de 90; ou como o já referido Paulo Sousa para a Geração de Ouro. Por enquanto revela uma autoridade silenciosa, exercida com base no exemplo, mas à qual faltam alguns argumentos indispensáveis aos verdadeiros líderes.

O êxito de Danilo tem ainda a força suplementar da vingança pela incompreensível fatalidade que abalou a geração perdida dos vice-campeões do Mundo de sub-20, em 2011 – nenhum chegou verdadeiramente onde podia. Enredado nas teias do mercado, que nem sempre conduz ao paraíso prometido, quase se perdeu na montanha russa de grandezas e misérias de clubes (Parma, Aris Salónica e Roda) que o deixaram longe de tudo, incluindo a construção da carreira que merecia. Precisou apenas de dois anos ao serviço do Marítimo para recuperar a aura de jogador com potencial ilimitado, representar Portugal ao mais alto nível e ser contratado por uma potência como o FC Porto. Mesmo numa temporada na qual a equipa lhe deu menos do que seria legítimo pensar (títulos, estabilidade, enquadramento e amparo técnico), Danilo percorre em absoluta segurança a auto-estrada que acabará por levá-lo ao destino anunciado: o de grande reforço do futebol português.


Jesualdo traçou destino de Dier

Quando se cruzou com ele, em janeiro de 2013, Jesualdo Ferreira foi claro

Eric Dier era mais do que um júnior a dar os primeiros passos entre homens feitos. Num Sporting em dificuldades de toda a espécie, o sábio tricampeão nacional pelo FC Porto traçou-lhe o destino. "Vai ser um defesa-central de expressão planetária", dizia o velho mestre, convicto de que o jovem inglês tinha tudo quanto precisava para se impor. Hoje, é um dos esteios do Tottenham e titular da seleção inglesa.


Renato Sanches é grande figura

Nem sempre o aparecimento de uma estrela gera unanimidade entre os adeptos

Renato Sanches tornou-se uma grande figura. Pelo que representa no Benfica (há uma equipa antes da sua chegada e outra depois dela, com implicações diretas na classificação da Liga) e pela esperança que gera no futebol português. Não é um jogador perfeito mas, aos 18 anos, era quase impossível que fosse. Mesmo com imprecisões técnicas e aprendizagem tática para concluir, em breve será um fenómeno mundial.


Jota tem tudo para ser craque

Sendo jovem extremo, sustenta-se em influência e números fora do comum

Diogo Jota não pára de acrescentar argumentos à excecional temporada que tem vindo a fazer – na época passada assinou 4 golos em 12 jogos. Aos 19 anos, defendendo as cores do P. Ferreira, já mostrou que não engana – e não apenas pelos 9 golos na Liga, 11 no total de 2015/16. Para lá do talento, está a revelar confiança quase insolente nas armas que possui. Tem tudo quanto precisa para vir a ser um craque.




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