A máquina que não sabe perder

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Há seleções que se estudam pelo que escondem e há esta, que se estuda pelo que repete. A Espanha, de Luis de la Fuente, não guarda segredos de modelo. Apresenta-se sempre igual e obriga o opositor a resolver o mesmo problema quatro vezes seguidas. Chega aos oitavos com quatro jogos, trezentos e sessenta minutos, oito golos marcados e nenhum sofrido, um agregado de golos esperados de 8,83 contra 0,71, e uma estatística que a define melhor do que qualquer outra: em quatro jogos, sofreu apenas quatro remates enquadrados, e nenhum deles nasceu de um contragolpe. É a organização defensiva mais dominante do torneio, e é-o menos por talento individual do que por método. O adversário não ataca o que não tem, e a Espanha tira-lhe a bola durante mais de sessenta por cento do tempo. Começou o Mundial no caso extremo da sua própria natureza — 0–0 com Cabo Verde, vinte e sete remates, 2,26 de golos esperados, e nem assim furou um bloco perfeito guardado por dois defesas-centrais e um guarda-redes em tarde de gala. Corrigiu-se de jornada para jornada com uma frieza cirúrgica. Começou pelo 4–0 à Arábia Saudita, resolvido ao minuto 24, seguindo-se o 1–0 ao Uruguai no jogo mais disputado do grupo, para culminar com o 3–0 à Áustria na estreia a eliminar. É esse o conjunto que a Seleção Nacional encontrará em Arlington, e, sem rodeios, é um dos dois piores adversários possíveis — a França estaria acima —, mas também aquele cujas fissuras, ao contrário do que sucedeu ante Croácia, Colômbia e RD Congo, Portugal poderá ter as ferramentas exatas para explorar. Mas, para isso, exige-se audácia esdrúxula a Roberto Martínez. O que será a prova que os milagres, afinal, podem suceder.

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