A imortalidade pela exuberância artística
[1] O peso do intervalo. Foram nove dias de pausa entre o terceiro e o quarto jogo – o primeiro da segunda fase, discutida em grupos de três seleções, em que apenas o vencedor teria acesso às meias-finais – da Seleção brasileira no Mundial’1982. Efetuada a mudança do quartel general de Sevilha para Barcelona, o que motivou uma alteração de horários dos treinos, que passaram a ser bidiários para compensar a ausência de competição, houve rotinas que se conservaram, como as fotografias exclusivas de Cerezo na revista Placar, que também difundia o diário desconcertante de Sócrates. Génio dentro e fora de campo, com uma desenvoltura tão substantiva com a bola nos pés como de caneta em riste, o doutor relatava as voluptuosidades gastronómicas de um restaurante sevilhano contíguo ao rio Guadalquivir ou os caminhos extensos e sinuosos, percorridos a 25 de junho, até ao hotel incrustado numa região montanhosa que acolheu a canarinha a 45 quilómetros de Barcelona, da mesma forma que refletia sobre a estrutura tática utilizada pelo Brasil, definindo-a como "bagunça organizada", ou assumia, entre 30 de junho e 1 de julho, um estado semidepressivo, entre as saudades da família e a frustração pelo ambiente da Copa não permitir o convívio com futebolistas de outros países. Havia também as crónicas semanais de Telê Santana, com uma contundência opinativa impensável menos de quatro décadas depois. Aí, podia perceber-se que o selecionador brasileiro se sentia bem mais apreensivo com o potencial de uma ofensivamente arrojada Argentina de Menotti, campeã do mundo em título reforçada pelo génio subversivo do jovem Maradona, a pretender afirmar-se como figura maior da competição, do que com a Itália, a quem filiava uma incómoda irregularidade exibicional – sublinhando a parca qualidade de jogo, apesar de contar com alguns bons jogadores, como responsável pela ausência de triunfos em 3 jogos – e um sistema de marcação, pleno de referências individuais, que definiu como ultrapassado.
