A in(di)gestão de Schmidt
1] Apesar de não ter arcado um papel tão revolucionário como Eriksson ou Mourinho, os dois treinadores de clube que obsequiaram, através de métodos mais análogos do que podiam ostentar as duas décadas que os intercalaram, a modernidade que faltava ao futebol indígena, Roger Schmidt foi o principal rosto do título nacional avassalado pelo Benfica em 2022/23, ao colocar em prática um PREC (Processo Revolucionário Em Curso) encarnado. Que estava longe de conhecer o epílogo, como atestou a prorrogação do seu vínculo, robustecendo a longevidade do projeto que encetou. Independentemente do momento mais tiritante da estação passada, ao somar, em abril de 2023, 3 derrotas consecutivas e 1 empate, e de todas as perplexidades que gerou, o teutónico ostentou traços que o definiam como um treinador contracorrente, o que era um dos anseios de Rui Costa quando fez a primeira escolha da sua era presidencial. Schmidt foi um técnico proativo, capaz de instituir, num curto espaço temporal, um modelo de jogo ousado, perfeitamente erigido e inegociável, que não prezava o ministério das ocorrências dos embates em função do resultado. Além disso, estimou o espetáculo na tentativa de edificação de um rolo compressor ofensivo, mesmo não sendo um devoto da posse. O que não obstava a que as águias esgaravatassem incessantemente o assalto à baliza rival, tanto em ataque posicional, o que lhes assentia perscrutar com veemência os três corredores e estabelecer combinações a alta velocidade, como ao metamorfosear a transição ofensiva em pungentes contragolpes, o momento em que se manifestavam mais lancinantes, ou na indagação mordaz de bolas paradas laterais, com um reforço evidente de lances de laboratório. Sempre com o fito de conjugar a palavra golo no plural, ativando uma cultura irrefreável de risco, escorada por uma pressão e, principalmente, contrapressão incessantes, e por uma reação feérica à perda, com o fito de recuperar a bola de forma imediata e em zonas altas para voltar a atacar com incisividade.
