1] A história começa, como tantas narrativas lusíadas, com uma injustiça. O Benfica levou-o, em 1962, de Vila Real de Santo António. Era uma vez um rapaz de 16 anos, sportinguista, que se escondeu para não ir e foi na mesma. O clube comprometera-se a custear-lhe os estudos. Não cumpriu. Bateu uma dezena de vezes à porta da sede na Rua do Regedor a pedir manuais escolares, mas regressou sempre de mãos vazias. Até que um padre o expulsou da aula por comparecer sem livros. E ele, à saída, com a voz trémula daquela indignação que só os justos conhecem, declarou que não voltava mais. Cumpriu a palavra. Mas fez algo que quase ninguém faz quando a escola o rejeita. Adotou-a por conta própria, cinquenta a sessenta volumes por ano. Lia tudo o que o cultivasse, até as casas ficarem sem uma estante que sustentasse um livro. Cultivou-se a ler com a autenticidade de quem descreve o nascer do sol no Guadiana.
