Bruno e Jesus mudaram o Sporting
Causou impacto a forma como o Sporting se movimentou no mercado. Não foram apenas as vendas de Slimani e João Mário, que produziram receitas destinadas a pagar passivo bancário e a reorganizar melhor as contas e, também, a fazer uma nova ponderação relativamente a reinvestimentos para a sua principal equipa de futebol; foi também a forma como os ‘leões’ chegaram a jogadores altamente improváveis, como Campbell, Markovic ou mesmo Elias. E foi também o ‘braço de ferro’ travado por causa de Adrien e as apostas em jogadores que, não sendo de primeira linha, são alternativas interessantes aos agora ‘titulares’, considerando uma temporada longa e exigente, no plano nacional e no espaço europeu (Champions e, eventualmente, Liga Europa).
Muita coisa mudou desde que Bruno de Carvalho chegou ao Sporting.
Muita coisa mudou, igualmente, desde que Jorge Jesus chegou a Alvalade.
Não há comparação. O Sporting tinha-se transformado num clube amorfo, muito dependente de forças externas que ali chegaram a construir um recreio para se divertirem, e, por isso, também subserviente. Bruno de Carvalho estava à espreita, como sportinguista militante, sportinguista de base com aspirações presidenciais e girou um plano para chegar às cúpulas. Esse foi o seu primeiro momento de sucesso. Desbancar (também com a banca e com a importante ajuda da Holdimo) uma ‘cortina de seda’, atrás da qual se escondiam os actores de uma certa linha menos futeboleira, chamemos-lhe assim, incapaz de encontrar o rumo certo para um clube que, mesmo não perdendo representatividade, estava a perder pujança e fulgor e, com isso, a distanciar-se de uma posição cimeira no futebol português.
Bruno de Carvalho ainda não tem 4 anos de presidente do Sporting. É jovem e é um jovem presidente. Desde logo, espetou as garras. Não se trata apenas de um estilo. A idiossincrasia vale muito, claro, mas nesse ‘rugido’ houve muito de estratégia. Bruno de Carvalho quis fazer-se notar, não apenas por mera sede de protagonismo, não apenas porque gosta de notoriedade, mas também, repito, por questões estratégicas. Ele sabia que, mesmo sendo às vezes impopular, excessivo, essa seria a única maneira de fazer passar a mensagem segundo a qual o Sporting não estava condenado a fazer figura de figurante e não aceitava mais ser o segundo ou terceiro ‘grande’ de Portugal. Cometeu muitos erros e excessos, mas é — com o importante desbloqueio de Álvaro Sobrinho, ainda no tempo de Godinho Lopes — o grande obreiro do ‘leão activo’.
Na sua (dele) concepção, era o tempo de cometer excessos, ser criticado por isso e, se possível, persistir e resistir. Arrumou a casa, fez um esforço para equilibrar as contas, contratou treinadores que, à altura da contratação, eram mais do que promessas do futebol nacional (Leonardo Jardim e Marco Silva) e, numa altura sensível de avaliação do seu desempenho presidencial, teve um ‘golpe de mestre’ e investiu na aquisição de um treinador que ele sabia ser capaz de transportar para dentro do terreno toda a ambição plasmada no projecto: Jorge Jesus.
O Sporting tinha finalmente um presidente activo em todas as frentes, ainda incompleto mas disposto a ir à luta num futebol dominado por outras forças e influências, e um treinador capaz de aumentar o rendimento dos jogadores — a especialidade de Jorge Jesus. A época passada não foi a expressão máxima dessa conjugação de esforços (porque não chegou para o título) mas esteve perto disso. A equipa passou a jogar mais e melhor, os jogadores a mostrarem outro rendimento (Slimani, Adrien e João Mário são evidentes casos disso) e Alvalade passou a registar um ambiente completamente diferente.
O Sporting perdeu, neste fecho de mercado, o seu jogador mais decisivo: Slimani. O mais difícil de substituir. Um ponta-de-lança como Slimani deveria ter outra cotação de mercado e, aqui, no meio de tanta (e quase sempre desajustada) inflação entram outros factores. O Leicester comprou barato e veremos como o Sporting se comporta neste processo de "desslimanização" do seu ataque. A verdade é que fez um esforço de compensação com Bas Dost, Castagnos e André — e ainda garantiu o concurso de Campbell e Markovic. Há muito tempo que não se via o Sporting tão ‘em campo’ e a forma como Bruno de Carvalho geriu o ‘dossiê Adrien’ demonstra firmeza e ideias bem definidas.
Bruno de Carvalho e Jorge Jesus não podem estar sempre de acordo, mas — mesmo na divergência — constituem uma equipa forte. O tempo, as conjunturas e as realidades desgastam as relações, mas um e outro sabem que, depois de uma temporada quase fantástica, esta é a época em que ambos podem ficar na história. O Sporting, internamente, ainda se debate, mas, no exterior, começa a fazer-se respeitar. A capitalização desse salto qualitativo e quantitativo é um jogo de paciência e o plantel, neste momento, pode ser gerido para ter sucesso em várias frentes.
Não tenho dividas de que Jorge Jesus vai saber colocar a ‘nova equipa’ a jogar. Em quanto tempo?
Luís F. Vieira e… Rafa
O Benfica consegue Rafa, porque Luís Filipe Vieira soube posicionar-se e ultrapassar a vantagem competitiva que o FC Porto chegou a ter neste processo. Vieira, hoje, pela experiência que adquiriu e pelos erros que cometeu, posiciona-se com outro à-vontade e, na gestão do futebol, não vê apenas ‘entradas e saídas’, não olha só para a (des)construção do plantel; em tudo o que faz alcança uma componente estratégica. Quando a comissão de um empresário emperra um processo em que as entidades compradora e vendedora se põem de acordo alguma coisa está errada e, neste sentido, os clubes têm de fazer mais e melhor para tornar claro o processo de transferências. O Benfica faz uma grande aquisição e, agora, Rui Vitória tem de arranjar maneira de achar um lugar para Rafa. Pode ser à esquerda ou no meio. Mas é preciso colocar desde já Rafa a render e preparar a saída em Janeiro de um, dois ou três jogadores…
Antero - não te quero?
Antero andou nos últimos anos com um pé dentro e outro fora da SAD. Nunca foi uma figura consensual. Enquanto o FC Porto teve resultados foi tolerado mas nunca bem-amado. A ‘queda’ de Antero é, em primeiro lugar, uma questão de poder. Antero começou por ganhar um poder inusitado para depois o perder, inusitadamente. A SAD do FC Porto transformou-se num ‘saco de gatos’ e, para isso, também concorreu a perda de fulgor de Pinto da Costa. Não vai ser nada fácil o processo de retoma do FC Porto. Está por explicar, em primeiro lugar aos sócios do FC Porto, por que razão, e com tantos encaixes, o clube caiu numa situação financeira tão difícil, como ficou claro nestes últimos meses antes do fecho do mercado. É preciso debater o FC Porto antes que ele encolha dramaticamente.
