Conceição ‘le provocateur’ rima com Dragão
O FC Porto precisa de acertar o passo e, nesta fase, o mais importante era fechar a questão do treinador. Como sempre – e é difícil, nos tempos de hoje, que não seja assim – o FC Porto jogou (e joga) em vários tabuleiros.
Neste futebol-indústria, muito marcado pelas relações que os clubes estabelecem com parceiros de negócios, nem sempre está em causa o valor facial do treinador ou jogador a contratar, mas a valoração da capacidade achada no ‘activo’ a contratar e na relação estabelecida com esses parceiros de negócio, sendo que a temática dos fundos de investimento ainda é palco para muitas movimentações e… especulações.
O nome de Sérgio Conceição ganhou força nas últimas horas, principalmente depois de Marco Silva ter ‘fechado’ com o Watford.
Faz sentido um treinador que se havia comprometido com o Nantes há tão pouco tempo para um projecto de médio prazo (até 2020) fazer marcha-atrás para voltar a Portugal e ingressar, finalmente, num dos ‘grandes’ do futebol português? Faz e não faz.
Faz, se antendermos ao facto de Sérgio Conceição prosseguir há muito o desejo de ser treinador de um clube de topo em Portugal e ver nesta oportunidade o momento de ‘fazer história’ num emblema de grande prestígio como o é, indiscutivelmente, o FC Porto.
Não faz, se olharmos estritamente para questões associadas a uma certa ‘ética no trabalho’. Percebe-se a indignação dos responsáveis do Nantes. Certamente, se se invertessem as posições, o FC Porto não ficaria indiferente a um processo similar e teria todas as razões para expressar o seu agastamento.
O FC Porto deixou de ser, nos últimos quatro anos, um clube ganhador (com o Benfica a ocupar o espaço que era dos dragões) e quem conseguir protagonizar um tempo de mudança ou mesmo de inversão de ciclo verá aumentar, exponencialmente, os seus créditos no plano profissional.
Aqui, a questão é saber se o FC Porto – condicionado pelas exigências do fair play financeiro da UEFA – está em condições de oferecer ao seu novo treinador um plantel suficientemente competitivo, capaz de ombrear, sobretudo, com o Benfica (a viver um período de grande estabilidade, ainda que confrontado, desportivamente, com a saída de alguns pilares da equipa) e fazer uma boa carreira na Champions, de modo a encaixar uns milhões tão necessários à sua tesouraria.
Neste aspecto, os pontos de interrogação são naturais. O FC Porto tem uma grande história mas vive um momento particularmente difícil dessa história. No caso de Sergio Conceição, há uma clara apetência pessoal para um certo risco, uma vez que o ex-jogador portista estabeleceu sempre uma relação curiosa com tudo aquilo que é desafiador. Desafiador para si próprio, no plano de uma conjuntura interna que não é, em tese, favorável. Desafiante na sua relação com o exterior, em cujo âmbito Sergio Conceição pode ser um ‘agent provocateur’, capaz de agitar e colocar alguma instabilidade nas hotel adversárias. Neste particular, o nome de Conceição rima com Dragão.
Temos assim que uma opção por Sérgio Conceição deve ser observada por vários ângulos:
1. NO PLANO TÉCNICO-DESPORTIVO - Talvez o FC Porto esteja a necessitar, internamente, de um ‘choque futebológico’ mais intenso, depois da experiência porventura excessivamente romântica de Nuno Espírito Santo na sua relação com a cabina;
2. NO PLANO ESTRATÉGICO - Talvez seja um treinador capaz de se enquadrar melhor na expectativa criada para a próxima época, relativamente a uma ‘aliança’ FC Porto-Sporting (mais formal) em relação ao Benfica;
3. NO PLANO COMERCIAL E FINANCEIRO - O alojamento mais evidente (mas nunca assumido) da Doyen em tudo o que diga respeito ao plano de sobrevivência financeira associado ao FC Porto e em tudo o que possa envolver operações financeiras, directa ou indirectamente, relacionadas com o mercado, numa realidade de grande complexidade, que pode correr bem, mas pode correr muito mal, porque este é um tema que envolve a FIFA – e há riscos (elevados) que se correm…
Não vale a pena negar: o futebol português precisa que o FC Porto se levante, mas o processo de reanimação depende de muitos factores (externos e internos) e não está nada fácil. Com ou sem Conceição, que rima com Dragão.
JARDIM DAS ESTRELAS
*** (3 estrelas)
‘Wolverhamptonização’
em Vila do Conde?
O Benfica oficializou a venda de Ederson ao City por 40M€, com o compromisso de entregar 50% da mais-valia obtida a… ‘terceiros’. O Benfica recebe a totalidade do valor e entrega metade da verba ao Rio Ave (20M€). O Rio Ave acerta contas com Jorge Mendes/Gestifute. Qual o valor que o clube de Vila do Conde vai mesmo encaixar com esta operação? 12M€? Quem paga a intermediação? Está dado o pontapé de saída para a ‘wolverhamptonização’ do Rio Ave? António Silva Campos, o presidente, tem de ponderar muito bem o passo seguinte: a estória do chouriço e do porco pode muito bem estar presente nesta história. Uma coisa é Ederson; outra coisa é a hipótese de o Rio Ave se constituir em SAD; outra coisa são os montantes envolvidos na aposta que grandes grupos chineses (como a Fosun) estão a fazer também no futebol, em Portugal.
O CACTO
Afectos
valem zero
Tenho muitas dúvidas que a venda de Rúben Semedo, por valores muito inferiores a 20M€, seja um bom acto de gestão do Sporting. Não fez uma boa época? Sim, mas tirando Bas Dost e Gelson, quem brilhou em Alvalade?… Não admira nada que Jorge Jesus queira Coentrão e, talvez, Maxi Pereira no Sporting, porque foi sob a sua orientação que os laterais atingiram os maiores picos de rendimento… Nu futebol actual, as reacções dos adeptos sobre anteriores ‘juras de amor’ a clubes rivais valem muito pouco. A questão principal é saber se Coentrão tem condições físicas e psicológicas para ser o que já foi — o melhor lateral esquerdo do futebol português. Isso é que importa avaliar. O resto vale zero ou muito pouco.
