Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

A cama feita a Rui Vitória

Na véspera do ‘dérbi dos milhões’, entre Sporting e Benfica, um jornal desportivo diário (A Bola) faz manchete com a ‘notícia’ de que "Rui Vitória tem proposta milionária — um convite das arábias - para ir treinar o Al-Hilal".

Como diz o outro: ‘pára tudo!’.
Este ‘mecanismo’ não é novo. Quando a ‘estrutura do Benfica’ achou que Jorge Jesus tinha atingido o ‘fim da linha’, as mesmas ‘notícias’ saltaram como pepitas. Rapidamente se percebeu que o Benfica tudo preparado não apenas para afastar Jesus, mas afastá-lo com requinte e com aparente grandiloquência: também, neste caso, havia — para além de um avião à espera — um ‘irrecusável’… ‘contrato das arábias’ para assinar.

Nunca me pareceu que, no verão de 2015, Rui Vitória tenha sido contratado pelo Benfica por ser um potencial ‘treinador de elite’. Treinadores como Rui Vitória, do ponto de vista da percepção do jogo e dos métodos de trabalho, há muitos. Pareceu-me sempre muito honesto e dedicado ‘à causa’, mas nunca me pareceu um treinador distintivo como, por exemplo, José Mourinho ou Jorge Jesus. Em síntese: Rui Vitória é um ‘treinador mediano’ ou, se se quiser, um ‘bom treinador’, mas não é um ‘excepcional treinador’ — nem mesmo quando, levado ao colo pela ‘estrutura’ — se encontrava ‘em alta’.

A ‘estrutura’ queria provar que, com ela, a dominar internamente, o Benfica seria campeão, tivesse o técnico o nome que tivesse, mas o primeiro treinador do pós-Jesus tinha de ser alguém que reagisse, positivamente, aos ditames dessa ‘estrutura’. Para ela se acomodar, para ela ser a ‘jóia da coroa’ e ganhar crédito junto dos adeptos e associados.

O Benfica, à data, estava numa de ter mais estrutura e mais presidente e menos treinador. E foi isso que aconteceu. O Benfica passou a ter ‘mais estrutura’ (Domingos Soares Oliveira e Paulo Gonçalves, entre ‘cérebro’ e ‘músculo’) e ‘mais Vieira’, o que significa que, não obstante as decisões finais serem do presidente, elas eram preparadas quase ao milímetro para serem aprovadas.

E estava tudo maravilhoso, até com a mudança de direcção de comunicação, quando apareceu o ‘caso dos emails’. Com o afastamento de Jorge Jesus e João Gabriel, que ainda por cima eram o ‘o cão e o gato’ desta ‘estória’, a ‘estrutura do Benfica’, programada para tirar dividendos do investimento feito nos últimos anos na área do futebol das influências, vivia um momento verdadeiramente idílico, de predominância da ‘estrutura’ sobre tudo e todos, interna e externamente.

O ‘caso dos emails’ estragou tudo e foi um tiro no porta-aviões. Um tiro no painel de comandos e um tiro nos ‘caças’ que zelavam pela segurança do porta-aviões. O porta-aviões parecia preparado para tudo, para dominar nos céus e nos mares, mas não estava preparado — quem poderia estar preparado?… — para ver os seus planos e estratégias ao alcance dos olhos e dos juízos de todos. E o que é mais grave: utilizar informação alegadamente pirateada ou utilizar um ‘pirata’ (agora detido) para espiolhar os segredos das investigações?

O mais do que provável falhanço na ‘operação penta’ levanta um problema suplementar à ‘estrutura’. Exposta e desgastada, a ‘estrutura’ não apenas perde o ‘estado de graça’, como precisa mais do que um Gabinete de Crise para convencer os adeptos. Não chegam toneladas de propaganda. Não chegam horas de vitimização (para além daquilo que é a defesa legítima). O Benfica e a sua ‘estrutura’ precisam, nesta fase, de se levantar. E antes que os resultados das investigações possam causar um impacto ainda mais negativo do que aquele que já está à vista, a ‘estrutura’ e o Benfica precisam de gerar factos novos, capazes de devolver algum ânimo a adeptos e sócios. Apesar do compromisso com Rui Vitória até 2020 (renovado no ano passado); apesar de este ter sido o porta-bandeira da ‘estrutura’; a notícia de ontem não é inocente e visa acautelar um eventual resultado negativo em Alvalade. Parece claro o destino de Rui Vitória: perde o segundo lugar e o possível acesso à Champions e o Benfica arranja-lhe um ‘Al-Hilal’ qualquer. Garante o segundo lugar e Luís Filipe Vieira decidirá se, após o jogo desta noite com o Sporting, tem margem junto dos sócios e adeptos para manter o treinador. A alternativa é mudar e fazer aquisições, algo que também já era projectado nas notícias de ontem.

É curioso como, esta noite, vão estar frente a frente dois treinadores que, na óptica do Benfica, já foram, em tempos diferentes, bestas e bestiais. Independentemente dos milhões em causa, este dérbi tem um valor acrescido para ambos. As bestialidades do futebol a cercarem Jorge Jesus e Rui Vitória. Parece-me claro que chegou o tempo em que as estruturas e os respectivos presidentes devem assumir, também, responsabilidades. Rui Vitória, ontem, pela primeira vez saiu do discurso oficial para dar um recado interno: não vou para lado nenhum, não sou rato de porão. Como quem diz: se quiserem ver-se livres de mim, têm de me despedir e pagar. Voilá!




JARDIM DAS ESTRELAS -O exemplo de Marcelo


O PR, Marcelo Rebelo de Sousa, decide ir ao ‘Estoril Open’ e o que faz, em contramão com as dezenas e centenas de VIP que se acotovelam nas tendas VIP à procura das câmaras e das máquinas fotográficas? Compra um bilhete (20€) e, perante a surpresa normal dos organizadores que entretanto se abeiram dele, declina o convite para almoço mas aceita uma sandes de queijo (sem manteiga) e um sumo de laranja (engarrafado). Não sei se o fez sem intenção ou se com a intenção inconfessada de dar um recado à mentalidade dominante. Numa altura em que se discutem ‘convites para a bola’ e, fundamentalmente, a intenção desses convites, com a bancada presidencial da Luz a mostrar um ‘antes’ e um ‘depois’, considerando a revelação de alguns conteúdos do ‘caso dos emails’, o exemplo de Marcelo merece ser devidamente reflectido e interpretado. Portugal é um país de muitos maus vícios e é um país que precisa de encontrar uma nova forma de relacionamento com os poderes e as facilidades.


O CACTO - A pressa e o ‘pressing’
O ex-‘vice’ do SLB, Gomes da Silva, vem revelando uma grande pressa em se posicionar como alternativa ao ‘regime de Vieira’, do qual fez parte e de uma forma muito militante.
‘Cuspido’ da ‘estrutura’, por esta e por força dos seus próprios impulsos, o ex-dirigente dos ‘encarnados’ assume-se a candidato à presidência do Benfica, num cenário de eleições antecipadas ou não. Parece um pouco prematuro, mas também se pode fazer a leitura inversa: a de um posicionamento antecipado, face à previsão do próprio departamento de comunicação do Benfica, no começo desta semana, segundo a qual é verosímil que o Benfica venha a ser "acusado de corrupção". É pressa ou… ‘pressing’?

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