Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

A dívida de gratidão está a matar o Porto

E pronto: Nuno Espírito Santo, cansado e revoltado, bateu com a porta. Via-se que era um treinador infeliz. Via-se que era um treinador que carregava em cima de si uma grande tensão. A mesma tensão que Lopetegui (noutro estilo) já havia evidenciado.

Preto no branco: a grande questão que se coloca ao FC Porto não é de treinador.
Está visto que, nos últimos anos, foram ensaiadas várias soluções mas nenhuma delas devolveu ao FC Porto a identidade que o fizera ganhar muitas vezes. Julen Lopetegui não era um mau treinador, e não foram (apenas) influências de intermediação que o conduziram até à Selecção principal de Espanha. Foi também a sua forma (exigente) de trabalhar, princípios técnico-desportivos, etc. Simplesmente não encontrou no Dragão, à sua volta, a solidez que caracterizou a estrutura portista noutros tempos. Essa estrutura foi perdendo peso e capacidade de resposta a todas as questões que se lhe colocavam e gerou dentro de si própria uma complexidade muito difícil de desmontar. A pouca maturidade (na altura) de Paulo Fonseca não resistiu aos sinais evidentes de desagregação e Nuno Espírito Santo, apesar de muito ter investido numa ideia de jogo, nunca conseguiu criar o seu próprio espaço naquilo que resta dessa estrutura.

Os regimes superpresidencialistas têm este defeito: são bons enquanto duram e enquanto se revelam operacionais. O regime suprepresidencialista do FC Porto perdeu operacionalidade. Não é totalmente surpreendente o que está a acontecer ao FC Porto, para quem — com alguma distância — se acha em condições de interpretar os sinais de progressiva fragilidade do seu líder. Reconhecê-lo é o mais difícil, mesmo entre os portistas mais racionais, porque a dívida de gratidão parece ser sempre incomparavelmente maior em relação à urgência da mudança e do arranque de um novo ciclo. O FC Porto vem adiando o mais que pode, contra todas as recomendações de gestão equilibrada e racional, a aplicação de um remédio que combata, neste momento, uma certa megalomania. A ideia que se colhe é que, a não existir a UEFA e os seus mecanismos de fair-play financeiro, o FC Porto continuaria numa lógica despesista sem quartel.

Ninguém parece ter força, nem lucidez, nem estatuto para colocar Pinto da Costa na posição onde já deveria estar — a de presidente honorário — e encetar um trabalho de recuperação do clube e da SAD, com as ‘forças vivas’ do Dragão, que são muitas, estugando o passo a quem, nos últimos anos, não foi solução para nada, a não ser para desperdiçar recursos. E, assim, neste impasse, o FC Porto corre o risco de minguar. Perigosamente. As comunicações, mais ou menos agressivas, não vão conseguir durante muito mais tempo disfarçar não apenas uma crise pontual e de conjuntura mas uma crise profunda de regime.

NOTA - O ‘herói nacional’ foi deixado de fora da convocatória de Fernando Santos para a Taça das Confederações. Quando Éder foi incluído na convocatória para o ‘Europeu’, a única coisa que poderia recomendar essa chamada era a ausência de um ponta-de-lança mais ou menos indiscutível que pudesse mitigar a migração quase forçada (e mais assumida) de Cristiano Ronaldo para aquelas funções. André Silva estava a aparecer, mas Fernando Santos ainda não se achava suficientemente seguro de que poderia ser solução, como não estava em relação a Nelson… Acabou por chamá-los depois, e ambos estão agora na Selecção… Os fundamentos técnico-tácticos que estiveram na base da convocação de Éder para o Europeu são exactamente os mesmos que estão agora na génese da sua não convocação. Quer dizer: no futebol, as conjunturas têm muita força e os ‘golpes de sorte’, também… Ainda bem para a Selecção e ainda bem para Fernando Santos… E que a sua ‘estrelinha’ continue a iluminar Portugal… Com Éder e sem Éder…

NOTA 1 - A justiça desportiva tem um longo caminho a percorrer. Na época passada, o caso Slimani foi o expoente máximo da incongruência. Este ano, temos o (mau) exemplo de Samaris: agride um adversário e, por não ter sido levantado um auto de flagrante delito (a forma mais rápida e eficaz de ‘fazer justiça’), o processo entrou na tramitação usual: o CD ainda fez sair o castigo antes do final da época desportiva, mas um recurso para o Conselho de Justiça permite ao infractor fugir, para já, ao castigo. Os mecanismos da justiça desportiva não podem promover a protecção do infractor. Qualquer arguido tem direito à sua defesa, mas a figura do ‘flagrante delito’ tem de servir para alguma coisa. Não pode ser a ‘justiça desportiva’ a condenar, ela própria, uma figura contemplada nos regulamentos.


JARDIM DAS ESTRELAS - Mourinho United (MU)

Um treinador para chegar ao topo do futebol mundial tem de dar importância a todos os detalhes. Travar batalhas internas e externas. Todas muito desgastastes. Por isso, um bom conhecedor e um bom gestor de modelos tácticos pode não ser um grandíssimo treinador. Para se ser um grandíssimo treinador, como o é indiscutivelmente José Mourinho, há uma qualidade indispensável: a força mental. A força de contrariar, com inteligência, todos os movimentos que acabam por se gerar à volta do treinador. Há sempre (inclusive dentro dos clubes) alguém com uma opinião e visão diferentes - e essas são as que causam maior desgaste. Quem é convicto e sabe o caminho (cometendo erros, naturalmente) tem de lutar contra essa permanente dinâmica de bloqueios. Depois, a relação com os jogadores. Ninguém é um grandíssimo treinador se não conseguir levar os jogadores a fazer aquilo que é considerado necessário. Esse é o lado mais difícil. Mourinho consegue manter os jogadores ‘ligados’ sem perda de autoridade. Este MU (Mourinho United) não encanta, ainda não chega para ganhar a Premier League, mas foi a racionalidade táctica que o levou à conquista da Liga Europa.

O CACTO - Os ídolos e os crimes

Ninguém gosta de pagar impostos. E sobretudo ninguém gosta de pagar impostos que outros não pagam. O sistema fiscal é muito injusto e penaliza sempre os mesmos. Os que trabalham e pagam impostos. Todos sabemos que, na alta finança, perseguem-se os esquemas mais complexos para se tentar fugir a uma obrigação que deveria ser de todos. E os ídolos e os que mais ganham não podem ser protegidos, com a cumplicidade de muita gente. Chamem-se eles Messi ou Cristiano Ronaldo. A fraude fiscal (quando provada) é crime. E como crime tem de ser observada. Aqui, em Espanha, ou na Patagónia.

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