A ‘engenhoca’ da Arbitragem
Sou o primeiro a criticar a cultura de irresponsabilidade e de desresponsabilização que existe no futebol português, a partir dos clubes, mas também não aceito liminarmente o papel de vítimas que se quer colar aos árbitros e seus representantes.
Fala-se muitas vezes, quase em aceitação tácita de inevitabilidade, que as coisas no futebol em Portugal são assim por questões culturais. Esse é o ‘escudo protector’ de quem não quer fazer nada para deixar tudo na mesma.
O ruído de hoje é o ruído de sempre, com os picos de sempre. Ninguém está inocente. São raríssimos os comportamentos de dirigentes desportivos e outros agentes do futebol que mostram alguma elevação. Quando as equipas não conseguem resolver no campo os problemas que os jogos e os adversários colocam, desviam as atenções com críticas aos árbitros e ao sector da arbitragem.
Os clubes e seus dirigentes, beneficiários de um poder político que não age e é temeroso, à margem do desempenho desportivo fizeram o futebol português como ele é hoje: eticamente frouxo, desrespeitoso e antidesportivo. Todas as organizações com poder – e os clubes têm um grande poder – não gostam de regras ou gostam de regras que lhes satisfaça o objecto da sua existência.
Não alinho, portanto, no ataque descabelado aos árbitros e ao sector, até porque o ataque é fácil. Isso não impede, contudo, que seja muito crítico em relação à respectiva corporação, porque – excepto nas situações-limite como esta – também ela parece gostar de "chafurdar na lama". Os árbitros e o sector são, afinal, uma extensão dos vícios sistémicos do próprio futebol e alimentam-se dele. Gostam de protagonismo e das mordomias que a indústria lhes proporciona.
O ambiente à volta deles não é saudável (pressão, coacção, ameaça) e não vale a pena ladear a questão: são os clubes que fomentam esse ambiente e servem-se, designadamente, das claques para isso. Não é normal, e por isso é que temos, nestes aspectos, um futebol ‘do Terceiro Mundo’, que os chefes das claques tenham em Portugal todo este protagonismo e, mais do que isso, sejam parceiros de convívio dos presidentes e tenham ‘estatutariamente’ capacidade de interromper treinos, convocar reuniões, perturbar assembleias. Isto está tudo errado e é por isso que não alinho neste ritual semanal, agora diário e mesmo tridiário, de se amarrar os árbitros a uma árvore e fazer deles o saco de boxe de todas as frustrações, incompetências e outras incapacidades…
Acontece, porém, que FC Porto e Sporting, esta semana, justificaram os seus insucessos desportivos — eliminação da Taça da Liga — com os erros de arbitragem. Já o FC Porto havia feito o mesmo quando foi eliminado da Taça de Portugal e o Sporting começa a tentar fazer valer a tese de que as derrotas no Bonfim e na Luz, esta para o Campeonato, estão na base do ‘vazio’. Só o Benfica, depois do que aconteceu à 2.ª jornada com o V. Setúbal, valendo protestos muito enérgicos por parte de Luís Filipe Vieira, entretanto castigado (e com castigo suspenso pelo TAD), parece de novo em paz com a arbitragem.
E voltou o tema das nomeações. José Fontelas Gomes foi escolhido por Fernando Gomes para amenizar o coro de críticas que se abateu sobre Vítor Pereira. Começou com critério e ainda conseguiu nomear um árbitro jovem internacional para o primeiro clássico da época (Tiago Martins para o Sporting-FC Porto) mas já não conseguiu ‘repetir a gracinha’ para o FC Porto- Benfica, para o qual estava apontado Fábio Veríssimo. Foi-lhe descoberta a fragilidade e, a partir daí, aumentaram as pressões. Daí ao descalabro (em que nos encontramos) foi um instante.
O Benfica aproveitou bem a fragilidade do FC Porto e a maior vulnerabilidade de Pinto da Costa e – com Fernando Gomes na FPF – começou há alguns anos a carpinteirar o processo de benfiquização do sistema de organização do futebol português. Não é de agora; é de sempre: a ‘máquina’ responde sempre ao sistema. E essa obediência acontece num momento em que:
a) Os novos árbitros já nada têm a ver com o velho sistema (também tudo começava nas Associações…);
b)O sistema de promoção está altamente inquinado e não faz apelo à meritocracia;
c) O sector da Arbitragem precisa, ele próprio (estará interessado?), de achar soluções de reestruturação e refundação dos seus mecanismos de funcionamento.
Tudo o que está a acontecer resulta da ‘mudança de regime’ em cima de uma realidade que não é boa: a maior parte dos árbitros são, de facto, medíocres. E até os melhores são vítimas disso. Esta ‘engenhoca’ da arbitragem é pior que a geringonça…
* Texto escrito com a antiga ortografia
JARDIM DAS ESTRELAS (1 estrela)
Árbitros
internacionais?!
O Conselho de Arbitragem e os árbitros Luís Godinho e Rui Oliveira têm apenas uma parte da responsabilidade da eliminação do FC Porto e do Sporting na Taça da Liga. Não têm total responsabilidade (os clubes esquecem-se sempre de reconhecer os seus próprios erros, que foram muitos), mas não se pode escamotear que as nomeações foram imprudentes e sem qualquer tipo de sustentação teórica e o nível desses árbitros é manifestamente baixo. A expulsão de Danilo já deveria ter sido explicada – enquanto os relatórios não são públicos – porque é motivo de chacota na Europa.Os clubes merecem e devem exigir ser tratados por igual pelo sector da Arbitragem e isso não está a acontecer. Contudo, é preciso olhar e reconhecer erros próprios: no caso do SCP, quem faz a abordagem ao jogo que JJ e a equipa fizeram (abdicando de início de jogadores nucleares) aumenta o erro de exposição a outro tipo de erros… Mas este árbitro Rui Oliveira… por amor da Santa! E Luís Godinho internacional?! Por amor de Deus!!!
O CACTO
Retaliação
... lamentável
O Sporting é eliminado da Taça da Liga no Bonfim e manda os jogadores emprestados ao V. Setúbal, Gauld e Geraldes, regressar a Alvalade, em jeito de retaliação, mais tarde assumida. Considerando a tensão do jogo, a incidência do penálti mal assinalado (mas ficou outro por assinalar…) e o ‘sururu’ no final da partida é possível que tenham sido ditas coisas menos decentes, de parte a parte. Pegar nisso e nas declarações feitas no pós-jogo por F. Venâncio e ainda num vídeo partilhado por F. Cardoso nas redes sociais para justificar a retaliação é pior a emenda que o soneto. Muito mau e lamentável.
