A 'limpeza' subtil de Vieira no Benfica
Na análise aos resultados das eleições do Benfica, nas quais Luís Filipe Vieira se apresentou sozinho, podemos olhar para o copo e vê-lo meio cheio ou meio vazio. Neste caso, na visão menos cor-de-rosa, basta atentar no facto de ter sido consideravelmente menor o número de votantes (13 257) do que fora em 2012 (22 676). Poder-se-à contra-argumentar, neste caso, que um candidato único não apela tanto à participação eleitoral, uma vez que é garantida a (re)eleição de quem se apresenta sozinho às urnas, mas aqui o único ponto de comparação razoável que se pode fazer alcança a primeira vez que Luís Filipe Vieira correu sozinho para a reeleição (2006) e aí, embora por curta margem, a percentagem alcançada foi superior à actual (95,6% contra os actuais 95,5%). Estamos a falar de números naturalmente relevantes (desde 2003, só uma vez LFV não obteve votações acima dos 90%, em 2012), mas neste caso, porque a conjuntura construída à volta do presidente nunca fora tão excepcional (tricampeão nacional em futebol), muito por mérito de algumas das suas apostas e iniciativas, é bom realçá-lo, era expectável que, nestas eleições, Luís Filipe Vieira atingisse dois objectivos:
1. Maior número de votantes;
2. Melhor resultado de sempre.
Nem uma coisa nem outra. Seria, talvez, excessivo falar-se de um falhanço, mas esperava-se que estas eleições fossem, também, quantitativamente, a consagração de Luís Filipe Vieira como presidente do Benfica. Não foram, embora se esteja a viver um dos momentos de maior fulgurância do ‘vieirismo’.
O presidente dos encarnados tem agora a maior almofada de comodidade que alguma vez teve, porque conseguiu travar a marcha que parecia imparável de Pinto da Costa relativamente à perpetuação do êxito e do poder do FC Porto no futebol em Portugal e tem gerido, com considerável eficiência, a tumultuosa relação com o Sporting. Sabe-se, todavia, que em futebol o êxito está muito perto do insucesso e quem está no andar de cima muda muitas vezes para o andar de baixo e vice-versa, quase sem tempo para grandes ‘remodelações’. E esse pode ter sido o ponto mais relevante do discurso do presidente após terem sido conhecidos os resultados ("o menor descuido, qualquer sinal de conformismo ou de satisfação pelo que já fizemos será também o primeiro sinal de retrocesso"), um discurso pobre, sem rasgo, apenas com o mérito de alertar a nação benfiquista de que não há, hoje e amanhã, margem para conformismos ou adormecimento sobre aquilo que já foi realizado e recuperado.
Luís Filipe Vieira conseguiu levar o Benfica para um patamar de modernidade indiscutível, único em Portugal, construiu uma base infra-estrutural muito interessante, que lhe pode permitir optimizar a performance desportiva, fundamental para um crescimento sustentado e, agora, pode concentrar-se na tarefa principal, mais difícil e mais espinhosa que é abater o passivo, tirar o Grupo Benfica da situação de falência técnica (capitais próprios negativos rondam os 84M€), uma vez que os últimos três exercícios positivos da SAD, que amorteceram o impacto dos cinco anteriores exercícios negativos, não chegam para mitigar a ideia de que há muito, mas mesmo muito a fazer no plano financeiro — e daí a bondade da ideia da internacionalização da imagem do Benfica. É evidente que esse desígnio está muito dependente daquilo que for, efectivamente, ‘real’ no acordo com a NOS…
Se for genuína a ideia de que o Benfica quer abandonar as polémicazinhas de quintal, tão do agrado de certa gentinha da bola indígena à qual o próprio Benfica, na sua periferia, tem de deixar de continuar a dar a mão (recentemente caíram alguns, mas há mais para cair…), esse será um passo de gigante em direcção a um ‘estatuto’ único em Portugal. Se o Benfica ‘elevar o nível’, e deixar outros a falar sozinhos, contribuirá em grande medida para… elevar o nível global do futebol português. E nisso Vieira tem de ser inflexível e dá sinais de alguma inteligência (para quem quer recentrar o poder em si próprio e atingir a maioridade) nessa ‘limpeza’. Uma ‘limpeza’ que teve vários ‘alvos’ e em dimensões distintas: já aconteceu na parte desportiva (na época passada e atingiu Jorge Jesus), na própria Direcção (Gomes da Silva) e no sector da comunicação (J. Gabriel). Num caminho sinuoso de curvas e contra curvas, LFV inicia agora o seu primeiro mandato num regime de presidencialismo pleno, em que pela primeira vez ele parece ter alguma ascensão sobre a estrutura…
NOTA – No campo, o Benfica está vivo e respira saúde por todos os poros. O Sporting demonstra uma anemia competitiva preocupante.
* Texto escrito com a antiga ortografia
Jardim das estrelas -- 4 estrelas
Futebol
no feminino
Em futebol feminino, Portugal qualificou-se pela primeira vez para a fase final de um Euro, em cujo sorteio estará no pote 4 – o das equipas com menos currículo. Estar na fase final já é importante e corresponde a uma clara evolução do futebol feminino em Portugal. Uma aposta que tem muito a ver com a dinâmica de profissionalização da FPF encetada por Fernando Gomes e seus pares. Um ano bom, com a Selecção masculina a sagrar-se campeã da Europa, agora esta proeza e uma maior visibilidade de modalidades como o futsal e o Futebol de Praia, para além dos resultados conseguidos pelas Selecções mais jovens. A FPF está longe de ser um ‘mundo perfeito’ mas modernizou-se nos últimos anos e está a colher os frutos da visão do ‘bom gestor’ que é o seu presidente. Uma palavra de apreço para Mónica Jorge, a directora responsável pelo Futebol Feminino na FPF.
O cacto
Caneladas
na inteligência
Os vídeos são públicos e se há um conjunto importante de equipas que se recusam a entrar em campo como adversários do Canelas 2010 é porque a situação é mesmo grave, como todos já percebemos. Apesar do escândalo, da manifestação de falta de desportivismo a níveis embaraçosos, a AF Porto constata que ninguém escreve nada nos relatórios. Nem árbitros, nem delegados, nem forças policiais. A situação (de escândalo), pela má imagem e mau exemplo, já foi identificada, o país conhece-a, mas ninguém age. É uma provocação a que o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, já deveria ter travado, uma vez que este é mais um vaso em que a autonomia do movimento associativo não funciona. Lamentavelmente.
