A saga anti-Jesus sustentou... Vitória
Em entrevista publicada ontem no ‘DN’, o antigo treinador do Benfica, Toni, disse algo que combina com aquilo que já havia afirmado nas minhas análises públicas e se resume no seguinte: "O jogo de Braga foi o da viragem quando estava à vista o precipício".
Esse é o grande mérito da equipa do Benfica: manter-se viva e, agora, na liderança e favorita. Não foi surpreendente a pré-época periclitante. Não foi surpreendente o começo de temporada sob o signo da dúvida, depois de 6 derrotas consumadas em 16 jogos. O raciocínio era elementar: mudança de treinador e, com ela, mudança de ‘projecto’, depois de um ciclo virtuoso culminado com a conquista de dois títulos de campeão nacional, durante o qual o futebol do Benfica havia adquirido duas coisas que os adeptos do futebol gostam particularmente: troféus e qualidade no espectáculo.
Para uma impressão digital tão personalizada quanto foi aquela que Jorge Jesus foi deixando, época após época, no futebol do Benfica, com coisas muito boas e com outras menos boas, como sempre acontece num mundo imperfeito, e não obstante se saber que neste jogo da bola, para além da natureza da intervenção do treinador, há muitos outros factores que determinam os resultados, já se sabia que quem fosse chamado a substituir um treinador que havia realizado 321 jogos a favor das águias, com 70% de vitórias, não iria ter uma vida muito fácil. E, de facto, entre Agosto e Novembro, o porta-aviões do Benfica esteve na iminência de afundar, sobretudo depois de ter sido atingido por três ‘mísseis’ disparados por um dos seus principias adversários. Como dizia, e bem, Toni, o precipício, naquela altura, achava-se a um palmo do nariz.
Tudo mudou com a vitória em Braga e com o princípio da afirmação de Renato Sanches no Benfica, cuja entrada no onze obedeceu à passagem de Pizzi para o lado direito, retirando-se com isso espaço a Gonçalo Guedes, achado no início como o principal porta-estandarte da mudança de projecto e da imposição de um Benfica mais português e mais ligado à formação.
À vitória em Braga – determinante! – somou-se-lhe a fórmula técnico-táctica capaz de fazer do Benfica uma equipa equilibrada. E, a partir daí, sem praticar um futebol de primeira água, o Benfica tornou-se numa equipa competitiva, cujo êxito está relacionado com o compromisso que cada jogador manifesta ter com o colectivo. E é aqui que se pode identificar o mérito particular de Rui Vitória: levou os jogadores a acreditar que todos não podem fazer pouco pela exaltação da equipa - têm de fazer muito!
Há um outro aspecto que ressalta do perfil deste Benfica-líder: a não dramatização perante as contrariedades. Não joga Luisão? Joga Lisandro López. Não joga Lisandro López? Joga Lindelöf! Não joga Jardel? Joga Samaris! Uma filosofia que Jorge Jesus protagonizara — em situações de maior adversidade — com a alusão aos seus Manéis….
Neste Benfica, há uma tendência de uniformização de rendimento, isto é, os mais criativos ficam mais próximos do registo dos mais operários e isso tem uma correspondência positiva na produção global da equipa: mais equilibrada, mais coesa, mais solidária e… menos espectacular.
Numa particularidade, não estou de acordo com Toni, quando ele fala da "estratégia bem-sucedida" de lançar jovens na primeira equipa do Benfica. Houve, de facto, uma estratégia pré-anunciada, com o lançamento de Nélson Semedo e Gonçalo Guedes, mas depois houve a lesão do jovem lateral-direito e o começo titubeante do Benfica e o ‘projecto’ só voltou a ganhar alma com a entrada de Renato Sanches, que custou o sacrifício de Gonçalo Guedes, empurrado para o banco por Pizzi. As entradas de Lindelöf e Ederson resultaram da indisponibilidade do guarda-redes (Júlio César) e de 2-centrais-mais-um (Luisão e Lisandro López + Jardel) e não tanto da força do ‘projecto’. Um ‘projecto’, aliás, que não é mais do que um reconhecimento de necessidade perante o actual quadro de possibilidades, numa visão economicista… realista. A força do novo ‘projecto’ do Benfica chama-se Renato Sanches. Tudo o resto foram fórmulas inventadas como justificação para despachar Jesus e para emagrecer os custos.
O próprio Rui Vitória esteve quase a ir ao tapete, com a desconfiança interna a aumentar à medida que os resultados negativos se iam avolumando, mesmo num quadro de protecção máxima por parte da ‘estrutura’. A saga anti-Jesus deu-lhe de alimento. A derrota de Rui Vitória seria a derrota da ‘estrutura’ e a derrota da ‘estrutura’ seria a derrota do presidente. Houve um momento em que foi necessário clamar contra a arbitragem (quando o precipício estava a um palmo do nariz), mas com ‘menos FC Porto’, com um Sporting assolado pelos seus próprios dilemas e fantasmas, o Benfica — depois do sobressalto — é agora o maior candidato a conquistar (de novo) o título de campeão nacional. Tudo tem uma explicação.
* Texto escrito com a antiga ortografia
Jardim das estrelas -- 4 estrelas
Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse como presidente da República e logo quis acentuar o contraste da natureza da intervenção pública em relação ao seu antecessor, Aníbal Cavaco Silva. Proximidade e afectividade ‘versus’ distanciamento e impessoalidade. A boina e as crianças, o-cidadão-entre-cidadãos-que-por-acaso-é-presidente, a vedeta-antivedeta. Marcelo sabe que não pode resolver os problemas dos portugueses, embora nem todos os portugueses estejam conscientes disso. Mas Marcelo, inteligente e intuitivo e um ‘master’ no âmbito das lógicas de comunicação, sabe que os portugueses precisam de luz e de esperança. Isso ele pode dar-lhes. Percebendo a importância do futebol no país, espero que o novo presidente utilize o seu magistério de influência para agregar e acabar com a insensatez do discurso da maioria dos dirigentes desportivos.
O cacto
Também tu
Villas-Boas?
A sinceridade fica sempre bem a quem a pratica e André Villas-Boas não poderia ter sido mais sincero quando afirmou, consumada a eliminação da Champions, que não queria saber e não lhe interessa até onde o Benfica pode chegar na prova. E justificou o pensamento através da sua condição de portista. Não está em causa a sinceridade, mas o que ela revela: a incapacidade dos agentes desportivos — e não apenas os dirigentes — em assumirem posições de fair-play acima das preferências clubísticas. São muito poucos aqueles que querem saber do ‘futebol português’ como um todo. A presença do Benfica nos ‘quartos’ da Champions deveria ser exaltada por todos os portugueses, independentemente da sua condição de adeptos. Seria um sinal de maturidade e de cultura desportiva.
