A táctica da toupeira e o Estado-avestruz

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O futebol, em Portugal, é mesmo um mundo à parte. E, sejamos claros, goza desse estatuto porque o Estado lho atribui.

A superioridade da FIFA e, no caso da Europa, da UEFA sobre a soberania dos Estados não é tão gravosa como em Portugal, porque na generalidade dos países europeus o futebol consegue regular-se, impor medidas penalizadoras quando existem infracções aos regulamentos; no nosso país, a auto-regulação é praticamente inexistente, como aliás vem sendo confessado pela própria FPF e por presidentes dos clubes mais representativos, que pedem com insistência a intervenção do Governo…

...E o Governo? Os Governos – sim, no plural – ... nada! Nada vezes nada. Assistem impávidos e serenos à degradação da autonomia do movimento associativo, revelando uma especial condescendência perante os assuntos relacionados com o futebol. Deixam que os clubes e os seus representantes se apoderem da ideia de que se podem constituir num estado acima do próprio Estado – e isso tem muito a ver com a postura dos governantes, e da classe política em particular (não toda, como é evidente), perante o futebol e os seus protagonistas. As simpatias mútuas revelam-se um desastre. Para o futebol e para o Estado. Não há auto-regulação nem autoridade democrática. Esta modorra parece interessar a muita gente, mas – até pelo impacto das notícias no plano internacional – está a dar cabo da reputação não apenas do futebol português mas também da imagem de Portugal.

O próprio Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, omnipresente em quase todas as situações de catástrofe, e não só, benza-o Deus, tem fugido das questões da bola como o Diabo da cruz. O futebol ‘queima’. Mas, na verdade, será mesmo assim (necessidade de grandes doses de coragem?) ou a falta de comparência e um medo injustificado contribuirão para a formação e desenvolvimento de um mito?…

A FPF pede ajuda, a Liga já havia dado os mesmos ‘sinais de alarme’ e o Governo assobia para o lado. O Desporto em geral e o futebol em particular são veículos de valorização ou desvalorização da imagem do país. Os Governos olham para o futebol como se o sol andasse a reluzir na eira. No nabal, chove, mas a chuva é ácida, devastadora, funesta, destrutiva. Estamos a assistir, perigosamente, à consagração do Estado-avestruz.

A operação E-Toupeira, na qual o assessor jurídico da SAD do Benfica, Paulo Gonçalves, está indiciado por corrupção activa e quatro crimes de violação do segredo de justiça, estes em co-autoria com o técnico informático José Nogueira da Silva, confirma aquilo que, na sequência do caso dos emails, tenho reafirmado no espaço público: o futebol português é um caso de polícia há mais de 30 anos. Esta subjacente impunidade terá conduzido e contribuído para a instalação da ideia de que era necessário investir fora das quatro linhas para se poder ter sucesso dentro delas. Sem dano considerável para nenhuma das partes. E esta questão do dano, ou da falta dele, será avaliada (outra vez) no momento próprio.

De acordo com a intervenção do MP e da PJ, dos comunicados da PGR e das notícias que transportam todos os indícios que já conhecemos, Paulo Gonçalves ter-se-á servido de um esquema – a táctica da toupeira – para conseguir estar informado, antecipadamente, sobre os trâmites e os conteúdos da investigação relativa ao caso dos emails.

Apesar das vozes tendentes a relativizar a detenção e os indícios que se abateram sobre Paulo Gonçalves, uma das figuras de maior impacto na estrutura de suporte à presidência de Luís Filipe Vieira, estamos perante sinais de extrema gravidade, que lançam dúvidas, inclusivamente, sobre o aparelho da Justiça (vide contornos da operação Lex e agora da operação E-Toupeira) e da sua operacionalidade.

A táctica da toupeira é talvez a emanação de um ‘big brother’ que, num futebol de baixa ética e sem respeito pela autonomia funcional de instituições e órgãos decisórios, parece ser há muito o sonho de qualquer dirigente desportivo. A táctica da toupeira e o milagre da sua multiplicação não podem colher o aplauso de nenhum cidadão, seja ele adepto deste ou daquele clube. Não brinquemos com coisas sérias. A subversão desses princípios é a consagração do faroeste.

Sejamos claros: o princípio da presunção da inocência não deve desresponsabilizar quem é responsável. Perante tão fortes indícios (estamos a falar de corrupção activa), o mínimo seria Paulo Gonçalves suspender a sua actividade ou a Benfica SAD o fazer por ele. As amizades (de Luís Filipe Vieira) não se podem sobrepor ao dever, quando estamos a falar de instituições com extraordinário impacto social.

NOTA – Há muita gente a comentar em espaços televisivos que só lá estão por influência (positiva) do Benfica. É claro que, por gratidão, não podem fazer outra coisa senão fazer de toupeiras… amestradas e participar num espectáculo indecoroso e lamentável.

* Texto escrito com a antiga ortografia

O CACTO

Figuras miseráveis

Neste conturbado futebol português assistimos esta semana a algo que estava a cair em desuso: um vice-presidente e administrador da SAD (Nuno Gaioso/Benfica) foi à SIC Notícias desenvolver um conjunto de ideias sobre a operação E-Toupeira, reconhecendo a existência de "um problema reputacional causado ao Benfica", e o presidente do Conselho Fiscal do FC Porto, Paulo Nunes de Almeida, desconhecido do grande público, deu a cara (no Porto Canal) para explicar, com detalhe, os passos que levaram ao pagamento dos 784 mil euros ao Estoril. Muito bem! Uma situação normal merece destaque porque se tornou, infelizmente, numa raridade.

Compreendo que, na óptica da comunicação, os presidentes devem evitar a banalização das suas intervenções, como acontece nalguns casos no espaço mediático nacional, mas também não se pode passar para o extremo oposto, que é dar o palco principal aos directores de comunicação, os novos protagonistas disto tudo, deixando de desempenhar as nobres funções para as quais deveriam direccionar as suas atenções, ou seja, mediar, com respeito mútuo, as relações com a comunicação social.

É preciso recuperar o tempo de normalidade, isto é, os clubes deixarem que as instituições funcionem, sejam elas tribunais, polícias, jornais ou televisões, sem este sentimento obsessivo de controlo e captura, ao ponto de – se não virem satisfeitas as suas pretensões – ameaçarem com boicotes, processos judiciais, mobilizações de adeptos, chantagens e perseguições, porque, não satisfeitos com os inúmeros canais de informação e desinformação que têm ao dispor, querem TODOS ao seu serviço.

Algumas destas ridículas figuras (pseudo) majestáticas que os canais de televisão dos clubes utilizam vivem daquilo que os clubes lhes pagam, esquecendo-se, em muitos casos, que foram profissionais da Informação.

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