Árbitros estrangeiros para salvar campeonato
Minuto 37 do FC Porto- AS Monaco (com 2-0 no marcador): o FC Porto desenha um ataque envolvente e perigoso, a partir de uma arrancada prometedora de Brahimi, a bola passa por Marega e Herrera, em duas ou três vagas atacantes, a bola é tirada e aliviada por Touré em balão e, ainda no meio-campo monegasco, Carrillo amortece para Ghezzal, que dá forma ao contra-ataque do Monaco; o médico argelino é travado e puxado por Felipe, tenta desembaraçar-se do central brasileiro com um gesto mais vigoroso, ficam cara a cara, Felipe empurra e Ghezzal mete-lhe a mão no rosto, o árbitro chega entretanto com um cartão amarelo na mão, estabelece-se a confusão, Felipe ainda tenta dar uma chapada em Ghezzal e a equipa de arbitragem reúne-se no meio do campo para conferenciar sobre o sucedido, uma vez que a UEFA ainda não adoptou o modelo/FIFA de videoarbitragem. Um minuto e dez segundos depois do momento em que a falta foi cometida, o árbitro exibe ‘vermelho’ directo aos dois jogadores.
Felipe era então expulso e conhecidos os excessos do ‘central’ portista, às vezes empolados mas outras vezes incompreensivelmente tolerados, logo se gerou o eco: tinha de ser um árbitro estrangeiro a expulsar o raçudo defesa do FC Porto! E, mediante esse facto, considerando o ruído, as incongruências, a discussão sobre a qualidade e as influências externas, tornou-se razoável colocar-se a questão: a requisição de árbitros estrangeiros poderia ser uma solução para diminuir o volume das críticas e do efeito perturbador amplificado pelas direcções de comunicação dos ‘grandes’, em Portugal?
É preciso fazer notar que, neste FC Porto-AS Monaco, para além do lance em que Felipe foi protagonista, houve mais três lances que geraram dúvidas e comentários: um lance de hipotético penálti sobre Brahimi (25’); uma outra situação passível de grande penalidade (mão de Kongolo, 55’) e, finalmente, a jogada em que o árbitro entendeu que Marcano, provavelmente sugestionado com o facto do espanhol ter feito um gesto imprudente, jogou a bola com o braço (60’) e deu ordem de conversão de um pontapé de penálti.
Como no FC Porto-SL Benfica, o FC Porto-AS Monaco conheceu, pois, quatro decisões polémicas da equipa de arbitragem. No clássico, quatro decisões erradas; neste jogo da Champions, uma decisão certa (expulsão de Felipe e Ghezzal) e se se fizer o escrutínio, frame a frame, em velocidade normal e em câmara lenta, três decisões erradas: dois penáltis não assinalados a favor do FC Porto e uma grande penalidade indevidamente apontada a favor do Mónaco.
Seria diferente se a UEFA já tivesse adoptado o VAR? Não sabemos. Mas, considerado os lances mais polémicos e se o critério fosse aquele que tem sido seguido pelo VAR ‘à portuguesa’, os lances de penálti não teriam sido assinalados; Felipe e Ghezzal não teriam sido expulsos. Porque, em Portugal, o VAR tem preferido - a coberto de um protocolo superconservador e inadequado às necessidades — proteger mais os erros do árbitro de campo do que propriamente a Verdade Desportiva. E isto não faz sentido nenhum!
Não sabemos o que aconteceria em termos de ruído (portista) e mesmo de ‘contra-resposta’ dos canais benfiquistas se o FC Porto não tem vencido a partida, mas a verdade é que não houve tweets, nem outras manifestações de indignação, logo imediatamente replicadas e, na ausência de picanços comunicacionais — nem sequer houve, na imprensa desportiva, ex-árbitros a analisar a performance do sueco Jonas Eriksson — a quinta-feira foi, no plano do futebolês, inusitadamente quieto. Quer dizer: intolerância máxima para o árbitro português do FCP-Benfica. Tolerância máxima para o árbitro sueco do FC Porto-AS Monaco.
Pontos nos is: o VAR na sua essência NÃO é um problema para o futebol e todos sabemos a quem dá jeito que seja um ‘saco de boxe’; em Portugal, a discussão em torno do VAR serve para disfarçar outras realidades (ex: erros dos clubes). O problema maior está no condicionamento das equipas de arbitragem. De escândalo em escândalo, de silêncio em silêncio, de reacções selectivas em reacções selectivas, o sector da arbitragem foi definhando na sua credibilidade. Pôs-se a jeito para estar na dependência dos humores dos clubes mais poderosos. Não denuncia situações do sector insustentáveis. Não revela um mínimo de sentido autocrítico. É tudo culpa dos outros. São incapazes de reconhecer não terem há muitos anos condições para fazerem o seu trabalho com isenção, sem medo das consequências. É por isso que houve uma grande diferença entre as críticas feitas a Jorge Sousa e as (não) feitas a Jonas Eriksson. Os erros podem ter sido, até, similares, mas as reacções foram muito diferentes. Por isso, o que falta deste campeonato deveria merecer, em regime especial, a requisição de árbitros estrangeiros. O efeito provocado pelas revelações dos emails esvaziar-se-ia, as preferências e as suspeitas também. Não vejo, na realidade, outra forma de ‘salvar’ o que falta desta Liga e desta temporada. Abram o pára-quedas antes que seja tarde.
JARDIM DAS ESTRELAS (5 estrelas) - Señor Marcano
Nem tudo foi mau na fase dos incidentes no clássico do Dragão, quando portistas e benfiquistas se envolveram em cenas menos recomendáveis junto ao banco do Benfica. A muitos passou despercebido o papel apaziguador de Marcano. Um… señor!
O CACTO - Vitória, Vitória acabou a história
Nem as piores previsões alcançavam uma participação tão negativa do Benfica na presente edição da Champions. Principalmente quando, no plano interno, considerando a dimensão de conquista revelada pelo tetra, havia a expectativa de o Benfica poder dar um passo em frente na sua reafirmação europeia. São, inclusive, conhecidos os pensamentos do presidente Vieira nesse sentido. Zero pontos em seis jogos e um golo marcado era, de facto, inimaginável e, mesmo considerando os erros de planificação da época, torna-se difícil aceitar o nível tão baixo de rendimento patenteado pela equipa do Benfica, que pareceu de uma qualquer II divisão europeia. Não há forma como não responsabilizar Rui Vitória por este fracasso e, mesmo que a equipa se recomponha a nível doméstico, no campeonato, na taça de Portugal e na taça da Liga, não há modo de se apagar o pouco futebol que o Benfica exibiu, se considerarmos a média dos primeiros quatro meses da época. Um futebol que não tem sido de campeão, um futebol sem identidade, um futebol que, apesar da mudança de sistema táctico, introduzida — como dizer? — envergonhadamente, não projecta de forma clara a impressão digital do treinador. A ‘estrutura’ protegeu (como nunca) Rui Vitória nas duas primeiras épocas, ficou mais exposta a partir do momento da revelação do ‘caso dos emails’ e parece claro que, na ausência do penta, se isso acontecer, e como é dito no fim de certas narrativas para crianças… "Vitória, Vitória… acabou-se a história!"
