Rui Santos
Rui Santos

As duas faces do Sporting... Real

O futebol está cheio destas ‘estórias’: quem joga pouco ou nada e consegue pontos; quem joga muito e não consegue pontuar.

Por isso, o futebol também é, estratégica e tacticamente, dilemático. O que pesa mais: 90% do tempo regulamentar em superioridade sobre o adversário, em quase todas as situações do jogo, ou os 10% em que a equipa que está por cima se deixa surpreender pelo antagonista?

O Sporting, em Madrid, comportou-se como ‘equipa grande’, bateu o pé ao Real, impôs-se e dominou, fez até, em certos momentos, o papel de uma equipa ‘à Guardiola’ e chegou a deslumbrar o Bernabéu. Não há equipas perfeitas – e a prova é a de que, neste mesmo jogo, no melhor pano caiu a nódoa –, mas o Sporting chegou a parecer uma equipa perfeita, tal era a dimensão do seu equilíbrio táctico, entre a tarefa de anular as principais referências do Real e a capacidade de estender o jogo e instalar-se no meio-campo do adversário. Um meritório trabalho de Jorge Jesus e dos seus pupilos, culminado com um golo justíssimo no começo do segundo tempo. O que se viu o Sporting fazer em 85 minutos, no Bernabéu, não é para todas as equipas, revela qualidade e conhecimento, embora aquilo que se seguiu, também por culpa própria, represente a ‘outra face’, natural, de um conjunto a reflectir um número razoável de défices, que são decisivos nestes momentos: falta de maturidade e equilíbrio emocional; falta de ‘estofo europeu’, o que não deixa de ser uma consequência do atraso a que o Sporting se submeteu nos últimos anos, quer na competição nacional, quer no domínio internacional.

Se o Sporting atingiu momentos de brilhantismo (João Pereira muito bem na vigilância a Cristiano Ronaldo; Coates imperial na defesa; Adrien fundamental no ‘miolo’; Bruno César decisivo nos seus movimentos interiores; Gelson irrequieto e galopante na direita), excelente na tarefa solidária de anular o meio-campo do Real (Casemiro, Modric e Kroos nunca respiraram) e as suas unidades da frente (Bale, Benzema e CR), a verdade é que acabou por baquear, não tanto por influência de uma arbitragem caseirinha, sem dúvida, mas, repito, por culpa própria.

Quais foram então esses erros?

1. EXPULSÃO DE JESUS – Escusada e despropositada e que teve um reflexo muito negativo, reconhecido aliás pelo próprio treinador do Sporting, que terá colhido a sensação de que, com ele no banco, as coisas poderiam ter sido diferentes. Não há que culpar o árbitro por não ter ‘fechado os olhos’. Jesus tem de meter a mão na consciência e perceber que os maiores prejuízos de protestos gratuitos são ele próprio e a equipa que dirige.

2. SUBSTITUIÇÕES – É sempre mais fácil falar depois, mas durante o jogo fomos colhendo algumas sensações… Jesus esteve soberbo na escolha do onze e na forma como preparou os jogadores para as tarefas fundamentais, um grande trabalho, sem dúvida, que nada me surpreende, e se percebo que um Adrien ‘amarelado’ aos 38 minutos é uma espada de Dâmocles em permanência sobre a cabeça e, portanto, um risco enorme; todavia, a influência do capitão e o enorme jogo que estava a realizar e a ausência de um jogador que assegurasse uma intensidade similar sobre a bola e sobre o adversário que Adrien estava a proporcionar (Elias anda tem muito a melhorar…), talvez aconselhassem a correr o risco… Por outro lado, a saída de Gelson também pareceu prematura, porque ele vinha sendo a figura, estava a dar cabo da cabeça a Marcelo e ao Bernabéu… Markovic também empresta velocidade, mas também ainda não está ‘no ponto’, e foi isso que se viu, as primeiras soluções muito mais de acordo com os ‘padrões de Jesus’, padrões exigéticos, já se vê, e as outras a marcar alguma diferença para pior… Ao longo do jogo, fui sempre colhendo a sensação de que o primeiro jogador a ser sacrificado, na segunda parte, depois do golo de Bruno César, deveria ser o ponta-de-lança Bas Dost, porque tivera uma missão de sacrifício no primeiro tempo (importante também nas bolas paradas defensivas) e a entrada de André ou mesmo de Markovic para a frente de ataque talvez não produzisse um efeito tão evidente no colectivo…

3. GUIÃO... REAL – Jorge Jesus deu sinal de ter preparado muito bem o ‘guião’ para este jogo, menos a parte das substituições do Real. Quando Zidane meteu Lucas Vázquez e Morata (em muito melhor forma do que Benzema, mas foi óbvia a intenção de dar minutos ao francês), meteu velocidade mais mobilidade e a saída de Adrien (rendido por Elias) ainda evidenciou mais a "perda das referências". Não sei se (não) houve tempo para preparar os cenários que se colocariam com hipotéticas substituições de Zidane, mas a verdade é que o Sporting, perante uma equipa fortíssima como o Real (é bom nunca esquecer isso), só nesse período perdeu o controlo do jogo. Era preciso meter a bola no ‘quintal’, jogar feio, se necessário, porque o jogo estava mesmo no fim, e aí funcionou a inexperiência de alguns jogadores do Sporting, a maturidade da equipa do Real e a tensão do próprio jogo. Tudo normal, afinal.

Feitas as contas, uma grande exibição e zero pontos – e a dúvida é se a equipa, em Vila do Conde, vai entrar de cabeça levantada ou se ainda pode projectar o peso da enorme frustração que é morrer na praia, depois de uma tarefa tão ‘heróica’. A verdade é que, na estreia desta edição da Champions, três jogos de equipas portuguesas e dois empates… caseiros, perante equipas acessíveis. Esperava-se no mínimo 6 pontos em 9, porque a derrota em Madrid acaba por ser ‘normal’; os empates frente a Besiktas e Copenhaga não estavam ‘no programa’… E se Cristiano Ronaldo estava, Talisca não…

* Texto escrito com a antiga ortografia

JARDIM DAS ESTRELAS (4)

Gelson vale mais...

Escrevi aqui, no Record, antes do Europeu, que achava Gelson um jogador diferente, reservado para grandes voos e que, por isso, talvez fosse importante estar na fase final do Euro. Não foi preciso, porque Portugal bateu-se estoicamente contra todas as teses, como não foi necessária a presença de André Silva, que também defendi. Fernando Santos no pós-Europeu já chamou André Silva e, estou certo, acabará por chamar Gelson à equipa principal. Gelson que acaba de realizar um grande jogo no Bernabéu e onde ganhou grande valorização. O Sporting não pontuou em Madrid, mas saiu de lá prestigiado. Jogadores e treinador valem, agora, muito mais. E é assim que se entra num novo ‘estádio de desenvolvimento’.


O CACTO

Mal amanhado

As relações entre os clubes e os jogadores nem sempre são pautadas por respeito mútuo. Há determinados momentos em que, debaixo de contrato, clubes e jogadores defendem interesses diferentes. Se um jogador não conta para um treinador (Aboubakar/Nuno Espírito Santo), não há nada como arranjar soluções céleres. O problema é que os empresários complicam ainda mais o que já é complicado e tudo se tornou mais difícil quando os clubes, na aquisição de parte dos passes dos atletas, ficam cada vez mais dependentes de terceiros. A complexidade aumenta e os potenciais conflitos também. No caso de Talisca, falhou a venda e depois tudo se complicou, com queixas de parte a parte. Não foi bonito e a humilhação a que Talisca quis sujeitar o Benfica, na Luz, é um episódio triste. Quando os jogadores estão de saída ou já mal integrados, não é bonito também tentar-se poupar dinheiro, sobretudo quando se está a falar de um jogador (a emprestar) que é um activo da sociedade. No caso de Luisão, as coisas foram mal feitas e o jogador não pode estar contente. Jorge Mendes não tem mãos para tudo e não consegue resolver tudo. Tudo muito mal amanhado.









2
Deixe o seu comentário

Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade
apenas 1€ por mês
experimente sem compromisso e garanta o seu lugar na bancada da melhor informação deportiva.
  • conteudo record em qualquer sítio e a toda a hora
  • acesso no pc, tablet e smartphone
  • versão e-paper do jornal no dia anterior
  • conteudos exclusivos para assinantes
  • suplementos especiais