Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

As lágrimas de Jesus no 'teatro de guerra'

Jorge Jesus sai do Sporting e mostra a dignidade que sempre teve. E já disse que antes do treinador está o ser humano. O ser humano (tal como ele é) que está nos antípodas da imagem projectada, às vezes, com responsabilidades próprias, para a opinião pública.

Costumo recordar, a propósito, uma estória – já contada no meu último livro – ocorrida em 1983, quando Jesus era médio do Farense. Os algarvios foram a Cabo Verde em digressão, na sequência do título conquistado na 2.ª Divisão e a respectiva promoção ao escalão maior do futebol nacional, e eu fui, na altura como redactor de ‘A Bola’, fazer a cobertura do acontecimento. Deparou-se-me um ambiente de fractura no plantel, havia grupos organizados por nacionalidades – portugueses, brasileiros, búlgaros, cabo-verdianos (o Óscar e os Alhinhos, cujos nomes, combinados, davam para umas brejeirices picantes), guineenses e depois havia Meszaros e o treinador (também búlgaro) Hristo Mladenov, um bocadinho permissivo –, e nas crónicas enviadas para Lisboa fui dando conta do ambiente que ali se vivia, contra a corrente daquilo que estaria subjacente ao acompanhamento da equipa – ela estava ‘em festa’, pela subida de divisão – e a viagem serviria ‘de propaganda’ à presidência de Fernando Barata, que na altura tinha Viriato Lopes (já falecido) à frente do futebol, um dirigente de maus modos; chegou a ameaçar-me, por estar a relatar o que ali se passava. Fui aconselhado a meter-me num avião, avisado de que a minha presença poderia tornar-se um grande problema, mas eu fiquei, dei a cara junto dos jogadores, uns abordaram-me, outros não, disse o que lhes tinha a dizer e, à chegada à Lisboa, quando entrava na redacção vindo do aeroporto, tinha uma chamada à minha espera: "Era só para dizer que tudo aquilo que escreveste corresponde à verdade. Parabéns pela tua coragem!"

Era o Jesus. Ele tinha 28 anos; eu tinha 23. Eu já tinha passado por alguns dissabores (agredido por adeptos num Portimonense-Sporting… só porque estava ali e o clima, por causa da arbitragem, aqueceu em demasia) e tudo porque sempre fui, desde cedo, muito zeloso na diferenciação daquilo que era pessoal do que era profissional e sempre que se me deparava uma cultura de frouxa independência e muita promiscuidade. São poucos aqueles que compreendem, de facto, que a proximidade com os protagonistas não deve pressupor anulação, subtracção ou abdicação das autonomias e competências, mas isso, no futebol, é talvez a tarefa mais difícil, porque os clubes habituaram-se a controlar tudo e acham que todos os poderes, que tratam como subpoderes, devem submeter-se aos seus ditames.

Ficou desses tempos (já passaram 35 anos!!!) a memória de um episódio demonstrativo de uma forma de estar, e foi mais tarde no Belenenses a confirmação de que estávamos perante alguém com muita paixão e profundo conhecimento do futebol, nas suas diversas áreas. Quando, três épocas depois, Jorge Jesus ingressou no Benfica, já tinha a certeza de que estávamos perante uma personalidade capaz de fazer história no futebol em Portugal. Fê-la no Benfica, e, considerando o trabalho realizado, não obstante os altos e baixos que conheceu no grande clube da Luz, não tive dúvidas em afirmar, na sequência do diferendo havido entre Bruno de Carvalho e Marco Silva, que o "único treinador" capaz de mitigar o efeito negativo da forma como o presidente dos leões havia conduzido a ruptura com o actual treinador do Everton era, precisamente, Jorge Jesus.

Acredito em treinadores que são capazes de lutar pelas suas convicções. Acredito em treinadores que não ficam à espera de ser comandados. Acredito em treinadores-líderes. E é assim que, com os seus defeitos, vejo Jorge Jesus: como um líder. Um líder que não abdica junto dos jogadores de lhes dar a vacina da táctica até eles ficarem em crosta.

Quando Jorge Jesus entrou em Alvalade, fez a promessa de que, a partir daquele momento, era preciso contar com o Sporting. Na primeira época ficou a dois pontos do título. Nas segundas e terceiras épocas, a 12 e a 10, quando Leonardo Jardim e Marco Silva ficaram, respectivamente, a sete e a nove. Nestas cinco temporadas, contudo, assistimos ao recrudescimento de uma política de comunicação ‘contra tudo e contra todos’. Confundindo tudo e todos. Não selecionando alvos nem situações. Jorge Jesus pode ter cometido muitos erros – e cometeu-os. Mas não há ninguém, nem nenhum treinador que possa resistir a uma política de destruição permanente. Querer fazer a terceira guerra mundial com uma fisga na mão e um boné com a pala virada ao contrário não é uma coisa normal. Fazer-se de tudo para atingir a alma da equipa, dos jogadores e do treinador não é uma coisa normal. Quando o inimigo está dentro de casa, de camuflado, com o dedo preso ao gatilho, e a infligir vítimas no seu próprio hospital de campanha, nada mais faz sentido.

"Antes de ser treinador, sou um ser humano" – disse Jesus. E chorou.

* Texto escrito com a antiga ortografia


Jardim das estrelas (*****): "Vamos a eles!"

Gosto que a Selecção ganhe, e naturalmente quero e desejo que Portugal vá longe neste Campeonato do Mundo. Enquanto profissional dedicado à análise futebolística, e mesmo que isso seja ‘portuguesmente incorrecto’, digamos assim, confesso, todavia, que não fiquei convencido com o desempenho da Selecção no Europeu. Fomos campeões da Europa numa conjuntura muito especial que, creio, não se repetirá, embora as recentes declarações de Platini, efectuadas o mês passado, segundo as quais "o sorteio do Mundial de 1998 foi manipulado para evitar um Brasil-França antes da final", e que não mereceram grande atenção, me tivessem deixado com uma pulga atrás da orelha, em relação àquilo que é possível fazer-se atrás do pano para adulterar a verdade desportiva, até a este nível de ‘sofisticação’. Creio que a nossa Selecção tem agora mais soluções do que tinha no Europeu (confio muito em Bernardo Silva e Bruno Fernandes, em termos de sangue novo… com qualidade), e por isso espero que jogue MUITÍSSIMO mais para dar crédito ao seu estatuto de campeão europeu. A equipa tem ordem e tem organização e, sem abdicar dela, talvez possa ser um pouco mais irreverente (pode ser, Fernando Santos?). Temos CR e temos muito bons jogadores do meio-campo para a frente. Não acredito que chegue para sermos campeões do Mundo (seria mais confortável dizer que sim…), mas… a ver vamos.

O cacto: Saco vermelho

Prestação de serviços de uma consultoria informática? Dinheiro que sai para um ‘testa-de-ferro’ para depois reentrar, eventualmente, segundo as suspeitas da PJ, num saco azul? E que ligações existem entre este facto e as suspeitas de corrupção desportiva? Há muita coisa por explicar neste imenso… ‘saco vermelho’.

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