Benfica acossado e Sporting… surreal

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Bruno de Carvalho tem razão: a reportagem da SIC subordinada ao tema "Pagar para ganhar" devia estar a dominar a agenda mediática, pela gravidade dos factos relatados. Pode estar em causa o desvirtuamento da época 2015-16 e o título conquistado pelo Benfica, sem se desvalorizar o facto relatado na reportagem, segundo o qual havia uma ‘mala’ (patrocinada pelo Sporting) que serviria de doping financeiro para o Marítimo não perder esse jogo — cerca de 13 000€ para cada atleta do plantel. A notícia da confirmação de que pelo menos um jogador do Marítimo confirmou a abordagem de um intermediário (alegadamente em nome do Benfica) sustenta a importância do que foi relatado e a premência de se apurar a dimensão do que está em causa: a reportagem demonstra que este tipo de intermediários — com o objectivo de ‘pagar para perder’ — existem no futebol em Portugal e que o tão badalado ‘jogo da mala’ também existe. Os rumores e as estórias contadas ao longo de anos e décadas passaram a reportagem jornalística. E a investigação corre. É preciso apurar, de facto, o que está a acontecer no futebol português ema nome da subversão da Verdade Desportiva.

Têm sido tantos os factos, as declarações, as tomadas de posição, tudo em relação à situação absolutamente SURREAL em que se encontra o Sporting, que Bruno de Carvalho nem sequer permite que outros assuntos — e não apenas os relacionados com o clube de Alvalade — sejam discutidos à escala e ao ritmo que mereceriam.

Bruno de Carvalho tem sido, de facto, nesta fase e concretamente nos últimos meses — quando estendeu os seus ataques aos jogadores e ao balneário — o maior ‘inimigo’ do Sporting e, em simultâneo, o maior ‘amigo’ do Benfica e do FC Porto. O novo campeão nacional assiste, certamente com estupefacção a esta dinâmica destrutiva e autofágica do seu rival (todavia, parceiro estratégico no sentido de tentar fragilizar o Benfica), e o clube da Luz, embora preocupado com as notícias que têm saído no sentido de colocar em causa o seu ‘modus operandi’, não pode deixar de se regozijar por ver o Sporting a concentrar sobre si próprio todas as atenções dos media e da opinião pública.

Já não bastava a questão surreal das atas. A ata forçada. A ata conveniente. O Sporting, de facto, nesta fase, não ata nem desata. Com grande prejuízo no presente e no futuro imediato. Um Conselho Directivo, num regime de ‘fragilidade activa’ , que não se importa de ‘substituir’ a Mesa da Assembleia Geral, para tentar perpetuar-se, é outra coisa SURREAL. Nunca visto. Parte-se a ‘mesa’ como um golpe de imaginação super-criativa que nenhuns Estatutos poderiam estar preparados para salvaguardar. O Conselho Directivo de um clube passa a ser o órgão musculado que reage a todas as iniciativas que possam ameaçar a sua afectada integridade. Para o Conselho Directivo do Sporting, a onda de demissões não tem qualquer significado. As iniciativas tendentes a devolver a palavra aos sócios, numa situação de crise aberta e inigualável na história do clube de Alvalade (até Godinho Lopes teve dignidade pessoal e institucional quando percebeu que já não era solução e passara a ser problema), são todas boicotadas. Para Bruno de Carvalho, o Sporting é apenas este Conselho Directivo amputado na sua credibilidade, e os sportinguistas que o apoiam incondicionalmente nesta sua vertigem destrutiva.

Este Sporting não está apenas fracturado. Está dilacerado nos ideais e nos valores que sempre defendeu como instituição desportiva.

O caso da rescisão de Rui Patrício é o culminar de mais uma situação tão lamentável quão provocada. O jogador tenta sair ‘a bem’. ‘A bem’ significa ter um clube disponível para o comprar. É preciso perceber o contexto. É facilmente verificável que Rui Patrício foi alvo de uma pressão negativa inqualificável produzida pelo próprio clube (tochas, etc), no seguimento, até, das mensagens que o presidente do clube fez chegar aos jogadores. A estória do pós-Madrid é inqualificável. Os jogadores têm sempre responsabilidades, mas serem tratados como foram tratados pelo próprio presidente, desqualificando-os, não é aceitável — nem na perceptiva do Clube e muito menos na perspectiva de uma SAD. A invasão da Academia foi um acto bárbaro, mas aconteceu na sequência do clima instalado entre o presidente e os jogadores. Um acto bárbaro que não foi apenas ‘chato’. Foi traumático. Foi dilacerante. Foi desmobilizador.

Bruno de Carvalho não percebe uma coisa óbvia: a sua ânsia de controlo fê-lo perder o… controlo. A ‘máquina em andamento’ é… ele próprio. Um presidente que não protege a equipa arrisca-se a perder os jogadores. Com ou sem justa causa. E um clube ‘sem’ jogadores (e sem referências como Patrício) perde a razão de existir na base de sustentação através do futebol profissional. A perda de Rui Patrício é ‘apenas’ a perda de mais um valor entre tantos valores perdidos. E, por isso, tudo isto se resume a uma palavra: SURREAL.

O CACTO - As porcelanas e a baixela

Bruno de Carvalho pede agora a Rui Patrício que reflicta… nos próximos 7 dias. E pede que se tenha mais respeito pelo Rui. O quê?!!! Importa-se de repetir? Primeiro, arrasa com tudo. Espeta as garras, o presidente sou eu, eu é que sei… De repente, depois do guarda-redes do Sporting ter falado (em carta) que foi colocada em causa a sua ‘integridade física" e temeu pela vida, não lhe sendo concedidas as "condições mínimas" para exercer a profissão, passou a ser ’o Rui’, que não tem culpa e está ser manipulado… Nessa carta, Rui Patrício revela que "antes da reunião com os jogadores, o presidente reuniu com a equipa técnica e informou-os que o Sporting não contaria mais com ela. Ou seja, a seis dias da final da Taça de Portugal, o presidente entendeu que a melhor maneira de dar estabilidade ao grupo de trabalho para poder disputar esse jogo — até porque a vitória seria a única maneira de conseguir o acesso direto à fase de grupos da Liga Europa — foi despedir a equipa técnica!". Alguém tinha dúvidas?!… A falta de coerência e o discurso ziguezagueante do presidente dos ‘leões’ faz sentido para Carlos Vieira? Como é que Carlos Vieira coloca em causa a sua reputação perante um quadro destes? Carlos Vieira vai ficar ligado, umbilicalmente, ao desastre financeiro em que o Sporting está a mergulhar. Isso não o perturba?

As justificações que Bruno de Carvalho quer dar em relação à ‘entrada em campo’ de Jorge Mendes são, outra vez, uma fuga às responsabilidades. O presidente dos ‘leões’ colocou-se a si próprio e ao Sporting na condição de refém. Já partiu quase todas as porcelanas (Rui Patrício e as que se seguem). Mas não vai descansar enquanto não partir toda a baixela. O pior é para quem tiver de limpar ou reparar os cacos.

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