‘Benfica de Vieira’ e a quadratura do círculo

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A história do futebol, do amadorismo ao profissionalismo, conheceu várias fases e acha-se hoje no patamar mais alto da industrialização. É uma indústria pesada, com vários segmentos e nela rapidamente se acham choques, contradições, visões parcelares, e, ultimamente, porque as discussões, em Portugal, se tornaram mais acesas e insustentavelmente ruidosas, ouvem-se tiradas do tipo "deixem de falar das coisas que não têm a ver com o jogo", vejam as coisas pelo lado positivo e concentrem-se naquilo que são as boas vibrações que a competição oferece. Este, aliás, foi um problema sempre muito difícil de gerir na comunicação social desportiva, porque ela – neste seu segmento específico – achou sempre que era preciso ter os clubes e os seus protagonistas do lado ‘amigo’, sem crítica ou investigação, porque sem eles o objecto do negócio seria colocado em causa. Errado. Duplamente errado.

Primeiro, porque o futebol, afastado há muito do ludismo, deve ser observado em todas as suas dimensões (desportiva, social, empresarial, económico-financeira, etc., etc.) e se um clube desportivo tem na equipa de futebol mais representativa a base do seu negócio, então ela precisa de ser tratada com esmero e competência – e todos os assuntos relacionados afinal com o rendimento (desportivo) não podem ser deixados ao acaso. Há muita gente a contribuir para o (in)êxito de uma equipa de futebol e essa visão global tem de estar acima de todos os interesses particulares ou intercalares.

Segundo, porque a indústria do futebol gera um complexo mapa de interesses associado ao lucro. Quase sempre pessoais e (in)transmissíveis. E porque são as vitórias que alavancam o lucro é preciso fazê-las acontecer. E é aí que – à margem dos pitons dourados ou das ardósias que contêm as tácticas mágicas – se geram as influências, as tramas e muitos mecanismos marginais e ilegais para que as vitórias aconteçam. E, se não se cuidar de fazer respeitar as normas em nome da verdade desportiva, o que vimos e alimentamos não é mais do que uma farsa. É isso que querem? Ou, afinal, apenas pretendem… não ter chatices?! Por isso, o futebol não é apenas o 4.3.3 ou o 4.4.2, a magia do Messi ou o rendimento do Cristiano Ronaldo; a visão resultadista de Mourinho ou a visão mais conceptual de Guardiola. Não é só o treino. Não é apenas a administração da coisa física e clínica. Não é só a estratégia. Não é apenas a versatilidade táctica e a decisão do momento. É muito mais. Por isso, o futebol deve ser observado em TODAS as suas dimensões.

Vem isto a propósito do momento do Benfica. Dentro e fora das quatro linhas, na sua dimensão plena. O Benfica discute-se, hoje, sobre o relvado e nunca como agora se associou aquilo que acontece no relvado com aquilo que acontece fora dele.

O Benfica discute-se através do ‘caso dos emails’ e através da hegemonia que levou anos a recuperar e do menos fulgor competitivo desta época, com as eliminações da Liga dos Campeões, Liga Europa e Taça de Portugal. E nunca como agora se estabelecem relações entre o que se passa dentro das quatro linhas e também fora delas. Aliás, o presidente do Luís Filipe Vieira, inteirado do que havia acontecido ao longo da década de 90 no futebol em Portugal, foi o primeiro a confessar a importância do domínio em todos as dimensões do futebol – dentro e fora das quatro linhas.

Quando Vieira decidiu prescindir de Jorge Jesus tinha a plena convicção de que já não precisava de um treinador para gerar as principais diferenças. Achava que a quadratura do círculo estava fechada e que, com a estrutura montada e a funcionar, as vitórias aconteceriam naturalmente. Ter gente nos diversos canais públicos e privados, protegida pela grandeza do nome Benfica, que verbalizasse a mensagem era apenas o que faltava. E assim nasceram os Guerras e quejandos, colocados em ‘zonas nevrálgicas do terreno’, para apoucar os adversários e tocar as trombetas da superioridade. O erro maior foi a arrogância do regime. Nunca lhe(s) passara pela cabeça que pudesse haver ou uma raposa no galinheiro ou uma cyber-raposa a denunciar um modo informático de pouca ou nenhuma formação. O que restou afinal do Apito Dourado para a opinião pública? Não foram as escutas? Independentemente das conclusões da investigação e de eventuais consequências criminais e penais, o que vai restar do ‘mailinGate’? exactamente: os emails.

Em cima disto, o Benfica sofre em cima da arrogância de alguns dos seus responsáveis. Rui Vitória é uma consequência dessa arrogância. A venda de Ederson, Nélson Semedo, Lindelöf e Mitroglou, sem correspondência em entradas de valor similar, é uma consequência dessa arrogância. Douglas e Gabriel Barbosa já são efeito de uma certa desorientação. E a forma como a equipa (não) joga é o resultado de tudo isto. Resta alimentar a esperança de que o penta ainda é possível. E é.

* Texto escrito com a antiga ortografia

JARDIM DAS ESTRELAS (1 estrela)

O presépio da hipocrisia

Bruno de Carvalho (BdC) aproveitou o jantar de Natal do Sporting para… iluminar Jesus. Foi assim uma espécie de aconchego nas palhinhas. O presidente-que-costuma-meter-todos-no-mesmo-saco, misturar coisas essenciais com coisas acessórias, perdendo por isso eficácia em muitas das mensagens que, não fossem a sua incontrolável vontade de se candidatar a actor, poderiam ser úteis ao tão mal tratado futebol português, lá conseguiu colocar no palco o treinador-chefe para fazer a representação da união e da coesão. Os figurantes ajudaram a dar à encenação um ar de presépio. Aqueles elogios todos do presidente ao treinador, mas sem nunca prescindir do auto-elogio (a estória do tijolo e do cimento), são substâncias tóxicas que podem provocar ilusão. BdC sabe que são JJ e o balneário fechado que, no meio de uma estratégia de comunicação desastrosa, numa operação de fuzilamento colectiva capaz de envolver ‘culpados’ e ‘inocentes’, podem levá-lo — a ele e ao Sporting… se os ‘deuses’ estiverem loucos — ao título de campeão nacional. Por isso, este aconchego nas palhinhas, às portas de 2018, volta à colocar tudo no mesmo plano: o Jorge manda e mete medo. Porque sabe muito do jogo e até de emails. Não vai ser mesmo nada fácil transformá-lo em bode expiatório, se a coisa der para o torto.

O CACTO

Alan Ruiz

e os flops

São alguns os flops deste campeonato: Felipe Augusto, Douglas e Gabriel Barbosa, no Benfica e Alan Ruiz, no Sporting. O caso de Rafa é estranho (parece uma pedra deslocada de um puzzle de outro jogo), há ainda Óliver no FC Porto, talvez o caso de menor aproveitamento no Dragão, mas Alan Ruiz só se pode queixar de si próprio. Cada vez que vai a jogo é obrigar a equipa a jogar com 10. Foi outra vez assim em Barcelona.

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