Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Benfica-Sporting no meio da batota

Um Benfica-Sporting a reatar o campeonato na abertura de 2018 é sempre um bom ‘cartão de visita’ para quem gosta de futebol, mesmo neste ambiente em que se discutem, acima de tudo e infelizmente, questões à margem do jogo, ou que no mínimo condicionam a competição, como resulta daquilo que já se sabe do desenvolvimento do ‘caso dos emails’ ou mesmo — se se provar — de jogos com resultados viciados.

Este Benfica-Sporting aparece, pois, num ponto alto de discussão (e tensão) em torno de batotas e batoteiros. E, enquanto não se chegam a conclusões, o tempo não pára, o calendário não pára, e as expectativas mantêm-se. Também por tudo o que se tem dito e revelado, o Benfica não quer desperdiçar a oportunidade de conquistar o primeiro penta da sua história e o Sporting sabe que, em teoria, esta pode ser a época da sua redenção, depois de um longo jejum que já dura há mais de 15 épocas.

Na rota do título, apesar de nada ficar decidido, seja qual for o resultado, nem Benfica nem Sporting ficarão muito confortáveis se não ganharem o dérbi, sendo que o Benfica tem a maior responsabilidade, uma vez que é o detentor do maior atraso pontual (-3) — e, feitas as contas, o grande beneficiado desta jornada inaugural de 2018 até bem pode ser o FC Porto, se cumprir aquilo que dele se espera na sua visita a Santa Maria da Feira e se o Sporting não pontuar na Luz.

Este Benfica-Sporting vai realizar-se num contexto muito especial, em termos desportivos:
BENFICA - Nos últimos 20 jogos, se considerarmos todas as provas, só ganhou 9 (45%), tratando-se, pois, de um desempenho invulgarmente negativo, considerando os habituais registos da equipa; contudo, nesse período, o Benfica realizou 10 jogos para o campeonato e não perde há 9. Conclusão: tivemos um Benfica absolutamente desconcertante na Liga dos Campeões, na Taça de Portugal e na Taça da Liga e temos tido um Benfica positivo no campeonato.
SPORTING - Nos últimos 20 jogos, em todas as competições, nas quais só já não se encontra na Champions (mas sem abandonar a Europa), ganhou 12 e, na Liga, ainda não perdeu, sendo mais forte fora de ‘casa’.
Significa que, em tese, Sporting entra mais forte na Luz, mas isso como se sabe, em jogos desta natureza, vale zero. Fundamentalmente em contextos de rivalidade elevada a extremos.

Neste particular — da rivalidade elevada a extremos —, este Benfica-Sporting vai realizar-se depois de uma AG da Liga em que se volta a perceber como Benfica e Sporting estão em campos totalmente opostos. Não há nada que, na verdade, os una. Nada. Curiosamente, Jorge Jesus vai regressar à Luz num momento de maior desanuviamento entre ele e o seu ex-clube, ultrapassadas as maiores (e desnecessárias) ondas de choque. Para reflectir.

Este Benfica-Sporting, ao que parece (custa a acreditar…), vai ser realizado com o presidente Bruno de Carvalho a liderar os cerca de 3 500 adeptos que se vão deslocar à Luz. Mais uma decisão populista, demagógica e… perigosa. São estas posturas que não ajudam nada à pacificação do futebol português. Estas e outras, bem entendido, porque antes de Bruno de Carvalho chegar ao futebol, com uma postura pouco institucional, já o futebol em Portugal era um lugar muito mal frequentado.

Nove dias depois do último jogo (Benfica-Portimonense, 2-2), e depois de dar mini-férias ao plantel, Rui Vitória decide alinhar no Bonfim com a equipa não titular. Quer dizer: muitos jogadores vão entrar na Luz com cerca de 15 dias com pouca ou nenhuma competição. Faz sentido?

O Sporting e Jorge Jesus, ao invés, puseram ontem, no Restelo, "toda a carne no assador", isto é, a equipa titular. A intensidade foi baixa, a exibição descolorida, mas a ideia foi, por um lado, não facilitar — uma vez que estava em causa um lugar na ‘final four’ da Taça da Liga — e dar competição aos jogadores, depois da paragem e do dérbi, a cinco dias. O Sporting ‘treinou-se’ e alcançou o objectivo principal: manter-se vivo na prova.

Este Benfica-Sporting realiza-se igualmente num contexto de reabertura do mercado de transferências. O Benfica parece querer esperar pelo desfecho do dérbi para tomar algumas decisões (informação veiculada pela imprensa que não confere com o perfil do projecto definido antecipadamente pelo presidente Luís Filipe Vieira) e o Sporting parece estar mais activo e determinado em reforçar a equipa. Foi-se falando da hipótese de regresso de alguns jogadores que já estiveram na Luz e em Alvalade… Que feliz ficaria o Benfica com o regresso de Gaitán! Que feliz ficaria o Sporting com o regresso de Slimani!… Mas nenhuma das hipóteses (?) parece passar de sonho de…fim de ano.
Feliz 2018!

NOTA - Um Benfica-Sporting, a começar às 21:30 horas, de uma quarta-feira, é mais um exemplo de "como não defender o futebol", na óptica do adepto/consumidor.


JARDIM DAS ESTRELAS - Diplomacia através do VAR

David Elleray foi contratado pela FPF para ser consultor do CA da FPF para a área da vídeo-arbitragem até final da presente temporada e isso encerra um aspecto positivo: não apenas o conhecimento técnico de alguém com uma posição relevante no IFAB (director-técnico) e no CA da Federação inglesa (chairman), mas também esta-coisa-muito-tuguinha, que é dar crédito a quem vem de fora, menosprezando — por culpa própria, pois claro! — as competências internas, minadas até à náusea por uma guerrilha institucional permanente, a partir da qual tudo é colocado em causa, até um simples ‘atchim’ nesta época de frio e de… Festas. Está também dado o ‘pontapé de saída" para Artur Soares Dias subir ao escalão ‘de elite’ da UEFA e só é pena que nesta ‘negociação’ não tenham sido colocados árbitros estrangeiros a dirigir alguns jogos da I Liga, numa época que começou debaixo de um manto de suspeição terrível (caso dos emails). Mas isso - hélas! - seria colocar em xeque toda a corporação da arbitragem nacional e aí… alto e pára o baile, porque mais importante do que a integridade das competições estão as benesses e o orgulho de uma classe ferida. Pois, pois.


O CACTO - Democracia: o que é isso?

As declarações de ontem de Pinto da Costa (FCP) e Bruno de Carvalho (SCP) e fundamentalmente a decisão de ambos em abandonar a AG da Liga tornam indiscutível o jogo de forças que se discute no futebol português. PdC e BdC pouparam Pedro Proença, porque vêem nele um interlocutor credível, seja lá o que isso quer dizer, mas não pouparam o G-15. O jogo de forças é claro mas verdadeiramente preocupante é a intolerância e o conceito de democracia, no futebol. É muito mau sinal para a ‘indústria’, quando as forças de bloqueio se constituem num desporto e num orgulho. Mas valeram, ainda assim, algumas úteis ‘aprovações’, mesmo sob o espectro de uma eventual impugnação.

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