Pressão Alta

Rui Santos
Rui Santos

Benfiquização não explica tudo

O Sporting vence no Restelo, em tempo extra, através de um golo de Bas Dost, e de tal modo estava naturalmente formada a convicção de que mais perda de pontos corresponderia ao fim da linha neste campeonato que, quando se ouviu o derradeiro apito do árbitro, Bruno de Carvalho deu quase uma volta ao estádio e Jorge Jesus também esteve muito activo nos agradecimentos aos adeptos presentes no Restelo.

O regozijo foi grande – o ‘leão’ não deixa de estar nos cuidados intensivos e salvou-se da extrema unção – mas a verdade, nua e crua, é que vai iniciar o ano de 2017 atrás do Sp. Braga, a 4 pontos do FC Porto e a 8 do Benfica. Não é uma boa primeira volta, mas há que reconhecer que a recuperação do Sporting e o objectivo primacial estão seriamente comprometidos. Esse é um dos factos deste final de 2016.

Foi o clube de Alvalade e o seu presidente que colocaram pressão (muito) alta na equipa e, por isso, o pecúlio actual de pontos gera frustração na comunidade leonina. Procuram-se explicações. E elas cabem quase todas no rendimento e na qualidade dos jogadores. Ou na falta deles.

Vejamos: em relação ao plantel da época passada, que fez uma época muito boa, o Sporting perdeu Slimani e João Mário, bem vendidos, e deixou de contar com Téo Gutierrez. Outras saídas não foram tão relevantes. Para o lugar de Slimani entrou Bas Dost – a principal aquisição e a única que tem provado, embora longe do nível do argelino, outro tipo de jogador – e já se sabia que Gelson iria afirmar-se, pelo que a saída de João Mário, mesmo pressupondo características diferentes, estaria à partida mais ou menos preenchida. Mesmo assim, entrou Meli. Quando Adrien protagonizou o sai-não sai, antes de se lesionar, o Sporting reagiu de pronto e recuperou Elias. O empréstimo de Téo Gutierrez não foi deixado ao acaso e o Sporting tentou arranjar um parceiro para Bas Dost. Spalvis já estava na mira mas lesionou-se. O Sporting apostou em Alan Ruiz, André, Castaignos, Markovic, Campbell, na versatilidade táctica não apenas destes jogadores mas também de outros que já estavam no plantel e que podiam ‘fazer’ esse e outros lugares, como Bryan Ruiz e Bruno César, pelo que aparentemente o ‘assunto’ da compensação das saídas ficaria resolvido. Não ficou. O Sporting não tem uma solução prioritária ou mais ‘definitiva’, passe a expressão, para acompanhar Bas Dost no ataque. Essa é uma parte do problema.

Outra parte do problema, dentro do plantel, são os laterais. O ‘futebol de Jesus’ apela ao envolvimento dos defesas laterais, na acção ofensiva (sem perda de solidez defensiva). Ora esse problema está longe de resolução. As oscilações de João Pereira, Schelotto, Zeegelaar e Jefferson (este anda em ‘modo frete’) reflectem-se muito no rendimento da equipa.

Depois há outro (grande) problema: os pilares do plantel do ano passado – Adrien, William Carvalho e Bryan Ruiz – estão a jogar muito menos. Adrien lesionou-se e o Sporting pagou bem alto a sua ausência, porque Elias ‘não pegou’. Acresce que, no regresso do ‘capitão’, o resto da equipa está tão ‘coxa’ que a exigência sobre Adrien multiplica e ele não aguenta com todo o peso às costas. É evidente. Para além de manter a expectativa de sair agora em Janeiro, o que pode ser outro (grande) problema para o Sporting. em 2017. As alternativas não eclodiram. Esperava-se que Bruno Paulista aparecesse este ano e nada. Meli, zero. Petrovic, zero também.

Começa a ser muita coisa e, independentemente da evolução que possam conhecer no futuro, torna-se claro e objectivo que as aquisições do Sporting não deram certo (para atacar o título em 2016-17).

Muito do que está a acontecer ao Sporting resulta, pois, de questões de natureza técnico-desportiva, e isso não deve ser escamoteado. Todas as outras questões laterais, muitas vezes tornadas centrais, que têm a ver com a relação que o ‘Sporting de Bruno de Carvalho’ estabelece com o exterior, uma relação difícil amplificada como o discurso excessivo, pouco selectivo e sem qualquer sentido estratégico da parte do presidente, mais o processo de benfiquização do sistema do futebol português, ajudam a compreender a razão pela qual o Sporting tanto bate, tanto esperneia e pouco alcança. E isso merece profunda reflexão, apesar de achar que Bruno de Carvalho, até agora, não tem candidato à altura para que a sua reeleição seja colocada em causa…

NOTA – Soube no final deste ano, no aniversário deste jornal, que sou o colunista mais antigo do ‘Record’. A vida é amanhã. E é com essa ‘boa vibração’ que deixo votos de um Santo Natal para todos os residentes desta casa e para todos os leitores. Boas Festas!



Pizzi - o patrão

Está em grande forma técnico-desportiva e pode considerar-se uma das principais figuras do futebol português das últimas duas semanas – o médio do Benfica, Pizzi. Os encarnados pareciam ter achado uma solução com grande margem de crescimento no jogador-adepto André Horta para a substituição de Renato Sanches, vendido ao Bayern. Horta entrou no onze e logo mostrou as capacidades que, noutro enquadramento, já vinha evidenciando no V. Setúbal. Pizzi vinha ocupando o lugar que era de Salvio enquanto esteve esteve lesionado mas quando o argentino recuperou e Horta se lesionou, também, depois de exibir alguns sinais de dificuldades físicas, era mais ou menos óbvio que Rui Vitória tinha de apostar em Pizzi para ‘8’, considerando as suas características essenciais: muito bom de bola, tecnicamente evoluído, excelente visão periférica do jogo, capacidade de comando, inteligência dinâmica, e facilidade em acelerar o jogo, sempre que é necessário. Um jogador destes para ser nuclear só tem de estar bem fisicamente. E é isso que acontece na actualidade. Pizzi está num grande momento de forma e é o patrão do Benfica.


Mudar regulamentos

Esta coisa de os jogadores, face ao que (não) preconizam os regulamentos, forçarem os árbitros a mostrar cartões — como aconteceu com Pizzi, na partida com o Rio Ave, mas está farto de acontecer com outros jogadores e emblemas — é um atentado ao desportivismo, que tanto a UEFA como a FIFA não se cansam de patrocinar. É preciso mudar os regulamentos e punir estas situações.


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