Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Bruno de Carvalho acelerou oposição

Bruno de Carvalho (BdC) anunciou a recandidatura à presidência do Sporting e isso não constitui nenhuma surpresa. Ainda tentou gerar uma vaga de fundo em torno da possibilidade de não avançar para eleições, mas está visto que ninguém acreditou, até porque o mini-tabu para se transformar em tabu tinha de ser desencadeado e promovido de outra maneira. Surpresa foi, até certo ponto, o avanço de Pedro Madeira Rodrigues (PMR) para protagonizar uma candidatura, porque até à data não se conhecia qualquer propósito deste sócio do clube 'leonino' -- que se propusera ser vogal da Direcção de Pedro Baltasar nas eleições de 2011 -- em se tornar numa alternativa a BdC. E não perdeu tempo: "Bruno de Carvalho tem sido sinónimo de títulos. É verdade. Mas de títulos para um dos nossos adversários [Benfica]."

Ponto 1: "Sempre considerei -- na fase duradoura em que o Sporting se afundava, ano após ano, presidência após presidência -- que o clube de Alvalade precisava de mudar o rumo. Bruno de Carvalho impôs esse corte umbilical com a "dinastia roquettiana" e isso era vital para que o Sporting pudesse alimentar a esperança de ter uma nova vida, uma vez que, a manter a tendência de repetição dos mesmos equívocos no plano da gestão desportiva e financeira, a agremiação sportinguista acabaria num estado ruinoso. Disse-o várias vezes, pelo que não me parece legítima outra conclusão senão a de que o aparecimento de BdC na história do Sporting encerrou, desde logo, esse lado positivo.

Ponto 2: Bruno de Carvalho tinha lastro e militância sportinguistas e não há dúvida de que deu os passos essenciais, não tanto para ser presidente do Sporting, no que isso representa em termos de preparação para o cargo em toda a sua amplitude e transversalidade, mas para derrubar o antigo regime. Teve mérito e contou com o demérito dos seus adversários.

Ponto 3: Uma vez chegado à sua cadeira de sonho, mostrou demasiada pressa em ser diferente. Não é que a história do futebol português não conheça um lado extremamente negativo e não mereça uma intervenção crítica e reformadora. Há muito ainda a fazer para que o futebol português seja credível na sua organização e métodos e se coloque ao nível da excelência de alguns dos seus protagonistas. Por isso, o aparecimento de BdC vinha envolvido num manto de esperança - e daí o benefício da dúvida que muitos actores externos lhe deram, incluindo o autor destas linhas.

Ponto 4: Muito certo das suas convicções, BdC começou cedo a revelar um lado demasiado juvenil que muito o prejudicou. A irreverência tem um lado positivo mas deve ser administrada. Demasiada impulsividade -- como foi o caso no tratamento de vários dossiês -- pode tornar-se num defeito irreparável. Bruno de Carvalho achou que a diferença seria estabelecida pelo verbo e, na escolha do verbo, mostrou a sua maior fragilidade. Um presidente que não seja estratego não pode ser um bom presidente.

Ponto 5: Quer isto dizer que o desgaste de imagem de BdC corresponde a ausência de estratégia ou à escolha de uma estratégia errada? Inclino-me muito mais para a segunda hipótese, porque estratégia BdC tinha - visar "tudo e todos"; com essa estratégia, apenas não entendeu a inevitabilidade da acumulação de um tal desgaste de imagem que, na hora de não apresentar resultados desportivos -- aqueles que prometeu desde a primeira hora -- lhe iriam ser atirados à cara, mais tarde ou mais cedo.

Ponto 6: Bruno de Carvalho já tem idade suficiente para perceber que, na vida, as coisas não acontecem porque queremos. É preciso porfiar e acreditar, mas não basta querer. É preciso reunir à volta as condições necessárias para as coisas poderem acontecer mais facilmente e aí é que o presidente do Sporting falhou (na estratégia), redondamente.

Ponto 7: Depois de, no arranque, fazer o mais difícil, isto é, mostrar capacidade para pacificar as relações com a banca, e tirar partido (para o SCP) de alguns entendimentos, BdC colocou-se numa posição de omnipotência e omnipresença ("trabalho 24 horas para o Sporting"), isolando-se mais do que devia.

Ponto 8: Só assim se compreende que a candidatura de Pedro Madeira Rodrigues, entretanto formalizada, tenha o beneplácito de muitos ex-apoiantes do actual presidente dos leões. E qual é, desde já, a mensagem? Aquela que se constituiu numa espécie de antítese de BdC: mais contenção, menos focos de conflito -- quase tudo no domínio da comunicação.

Ponto 9: O aparecimento da candidatura de PMR não é mais do que um autogolo de BdC. Nem todos os autogolos significam derrotas (como parece ser este o caso), mas é tempo de BdC perceber que talvez esta seja a última oportunidade para corrigir o que há a corrigir. E que a alternativa não tem de ser a hipocrisia.

NOTA - Quero aproveitar este espaço para desejar a todos os leitores um Feliz Ano de 2017!


JARDIM DAS ESTRELAS - Rui Vitória simplifica

O Benfica termina 2016 com mais uma vitória, frente ao P. Ferreira (TL), embora sem causar sensação especial exibicionalmente, e, se olharmos para dentro do campo, o que já vimos, na Luz? Um jovem guarda-redes afirmado (Ederson), três jovens com potencial de venda (N. Semedo, Lindelof e G. Guedes), um meio-campo efectivo (Fejsa + Pizzi) e promissor (A. Horta) e um ataque com soluções (Salvio, Mitroglou e Jimenez), algumas das quais com grande margem de crescimento (Cervi, Rafa, Zivkovic), com Jonas a reaparecer. E vimos ainda um treinador (Rui Vitória) com a capacidade de aproveitar o bom plantel que tem, sem dramas. A arte de simplificar.

O CACTO - Se o FC Porto jogasse mais...

Colocando as queixas sobre possíveis erros de arbitragem nos jogos que disputa, como agora aconteceu frente ao Feirense, para a Taça da Liga, muito para além daquilo que os lances efectivamente sugerem e justificam, o FC Porto não pode escamotear que não ganha para esta prova há cinco jogos. perante adversários como o Feirense (duas vezes), Belenenses, Marítimo e Famalicão. Elevar os níveis exibicionais e de rendimento talvez ajudassem a retirar o foco da arbitragem, num dia em que o jovem árbitro João Pinheiro não se deixou impressionar, depois das queixas portistas sobre o seu desempenho em Setúbal. O CA da FPF, que também faz regressar Manuel Oliveira aos jogos do Benfica, cumpre a promessa de não alimentar "vetos" impostos pelos clubes. Mas não chega: há árbitros, que pelo seu perfil e histórico, deveriam estar proibidos de dirigir jogos de algumas equipas. Essa ausência de "dimensão política" do CA talvez seja, ao contrário do que parece, o calcanhar de Aquiles de Fontelas Gomes e da sua equipa...

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