Bruno de Carvalho, o presidente de calções
Acabou o jogo em Madrid e Bruno de Carvalho correu para o Facebook, como um menino impulsivo. Não é a primeira vez, não será a última e as suas constantes alterações de estado de espírito prometem outras investidas de criança intempestiva e incontrolada, que gosta de brincar com o seu brinquedo preferido.
O resultado e o desempenho do Sporting em Madrid não foram bons. Todos concordamos. Quando o jogo acabou, lembrei-me imediatamente dos tempos de Peseiro, que ficara à beira de uma proeza europeia. Por isso, porque o Sporting falhara (mais uma vez) uma coisa ‘em grande’, designei aquele momento e a equipa como o ‘Quase Sporting’. E, na quinta-feira, com o Sporting a ter posse de bola e oportunidades para fazer pelo menos um golo, o que – a acontecer – mudaria a lógica da eliminatória, voltei a lembrar-me do ‘Quase Sporting’. Esteve QUASE a marcar, esteve QUASE a conseguir um resultado interessante e prometedor, esteve QUASE a surpreender o Atlético de Madrid. Contudo, voltou a falhar.
... E voltou a falhar porque esta equipa tem dentro dela a luz e a sombra. É capaz de coisas luminosas e, a seguir, abrir um buraco dentro do relvado e meter-se lá dentro, não saindo da escuridão. É uma equipa capaz de passar, rapidamente, de um estado de euforia para um estado de profunda depressão. Para além de aspectos técnico-tácticos e de natureza desportiva, o Sporting tem, mais uma vez, uma equipa animicamente instável. E isso deve ser entendido à luz do ambiente de grande instabilidade que a rodeia. O presidente não é um elemento agregador e capaz de gerar bolsas de estabilidade na periferia do balneário. Não percebe o que é um balneário, não alcança a psique dos jogadores e treinador; aliás dá sinal de que é um ‘zero’ em psicologia.
Perderam-se também os indícios de que Bruno de Carvalho seja um QUASE presidente, exactamente porque, entretanto, se perdeu. Porque na obstinação exagerada e nos ilimitados excessos, aquilo que havia mostrado de prometedor e capaz de ser útil a um certo conservadorismo que faz parte do futebol, perdeu todo o valor. Foi-se aproximando do abismo e é hoje, definitivamente, um caso perdido. O projecto do presidente deu lugar a um presidente sem projecto. Quando a doença do protagonismo corrói o alcance e a natureza da mensagem, a queda no abismo é inelutável. Chegará o dia em que se saberá a razão pela qual Bruno se começou a perder, em primeiro lugar, a si próprio. Já havia sinais de perda de referências e de um mínimo de educação e civilidade, mas entretanto a doença agravou-se e, infelizmente, parece não haver remédio nem cura para tão complicada maleita.
Há muita criancice em muitos dos comportamentos de Bruno de Carvalho. Os seus acessos de imaturidade são permanentes. De tal modo que essa infantilidade fica muito próxima de uma certa loucura. Contudo, neste caso do ataque que foi a correr perpetrar para a página pessoal do seu Facebook contra os jogadores, directamente, e com o treinador, indirectamente, não me parece que seja nem apenas imaturidade nem apenas loucura. A sua mente foi capaz de disparar contra Coates, Mathieu, Gelson, Coentrão, Bas Dost e Montero, quase a querer ensinar-lhes como (não) se faz, e, pouco tempo depois, ligar para um programa da CMTV para revelar a distinta lata de desmentir o que acabara de fazer e as interpretações que, naturalmente, se seguiram.
Dizia eu que estas manifestações de Bruno de Carvalho não são apenas o resultado da sua loucura e infantilidade. São uma tentativa de ingerência no balneário, que Jorge Jesus procura desde sempre ter blindado. Bruno de Carvalho é tão inconsistente, tão contraditório, tão errático e tantas vezes tão hipócrita, criticando nos outros aquilo que está sempre a fazer, que – para não atacar directamente as suas próprias apostas, como o foi Jorge Jesus – arranja caminhos ínvios para desmantelar aquilo que, ab initio, num daqueles estonteantes impulsos, começou a construir. Ele quer voltar a ser dono do balneário, dono do treinador, dono dos jogadores, dono de tudo o que se mova à sua volta, e está cansado de ser prisioneiro de Jesus. Como se viu no post que publicou no Facebook, ele sabe melhor do que o treinador e melhor do que os jogadores como se mete o pé, como se devem fazer os movimentos, como se encosta, ele não é apenas um projecto de QUASE presidente, mas ele é também um QUASE treinador, um QUASE jogador, um QUASE génio da bola. Ele anda à procura de uma reacção do balneário e do treinador para fazer o desmantelamento deste balneário e construir outro. Com processos disciplinares à mistura. Ele não quer ser o QUASE Sporting. Ele quer ser o Sporting. Loucamente. Mesmo que isso custe a integridade e a probidade de um clube centenário e com história chamado Sporting Clube de Portugal.
O CACTO
Impossível de aturar
Quando os ‘capitães’ do Sporting vêm a público manifestar, em nome do plantel, "desagrado pelas declarações públicas" do presidente dos leões, está tudo dito: era apenas o que faltava para confirmar a ideia de que Bruno de Carvalho é… impossível de aturar. Já tinha sido ‘impossível de aturar’ por Leonardo Jardim e Marco Silva e por uma profusão enorme de jogadores e não deve ser nada fácil para Jorge Jesus lidar com o maior foco de instabilidade do clube – o presidente! De resto, parece claro que o grande ‘alvo’ de Bruno de Carvalho é o treinador Jorge Jesus, à sua autonomia e ao seu futuro. Veremos se tudo isto não teria como propósito forçar uma reacção do treinador para lhe mover um processo disciplinar e, com ele, promover o despedimento, invocando ‘justa causa’. Jesus terá de ser inteligente para evitar cair numa maquiavélica armadilha, montada por alguém que é capaz de colocar em causa os mais altos interesses do Sporting em nome da preservação do seu ‘eu’. Como é que se pode colocar em causa, por exemplo, o profissionalismo de Rui Patrício e de um conjunto de jogadores que, mesmo quando as coisas não lhes saem bem, têm tentado defender o clube com inegável dignidade?
O presidente, em vez de saber lidar com o infortúnio de um golo sofrido aos 22 segundos (!), em Madrid, numa noite em que os ‘centrais’ foram muito infelizes, incentivando a equipa para o jogo da segunda mão e para os jogos que aí vêm, entre os quais o desafio da segunda mão das meias-finais da Taça de Portugal, com o FC Porto, que pode valer mais um troféu, faz exactamente o contrário – fere de morte o coração do clube, a equipa principal do futebol.
É mesmo de quem não percebe nada…
* Texto escrito com a antiga ortografia
