Bruno não percebe o pecado original

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O Sporting está a atravessar mais um período difícil da sua história e Bruno de Carvalho está a atravessar o pior momento do seu primeiro mandato de quatro anos como presidente dos leões. Este pior momento – em grande parte, devido aos maus resultados desportivos – acontece precisamente numa fase em que o candidato a um novo mandato precisaria de protagonizar, ao mesmo tempo, a figura de um presidente forte, com ideias claras, e disposto a corrigir algumas das suas fragilidades. Quer dizer: o candidato Bruno de Carvalho necessitaria, neste momento, de um presidente sólido, capaz de fazer um esforço supletivo para não ser ele o principal causador da instabilidade que se vive em Alvalade. Uma instabilidade que resulta do facto de o Sporting, nos últimos dois anos, não saber exactamente o que fazer no plano da comunicação.

Já passou tempo suficiente para Bruno de Carvalho compreender que, a esse nível, a estratégia falhou e não faz nenhum sentido. Quando algo falha – e não o querer ver representa um estado de preocupante negação –, o que se espera de um líder é que tenha a agilidade suficiente e a capacidade de alterar o que está errado.

Bruno de Carvalho, contudo, persiste no erro e, ao fazê-lo, não apenas está a descapitalizar, rapidamente, tudo aquilo que fez de bom para o Sporting (e há muita coisa positiva a apontar), como está a dar trunfos à oposição e, também, aos seus rivais, que neste momento devem estar cansados de fazer humor com a capacidade autofágica do clube de Alvalade, uma espécie de ADN histórico que se colou à pele do leão e que, volta e meia, lá aparece a jorrar lava como acontece na erupção de um vulcão.

Do Grupo Stromp ao centro de poder do Sporting há sinais claros de preocupante ruptura: posições difíceis de concertar, conflitos surdos e quase sempre não mudos. Em vez de haver uma mobilização estratégica no sentido de estancar as hemorragias internas e de aproximação reconstrutiva de todas as sensibilidades da família leonina , o que se assiste? A uma propensão suicida para abrir frentes de combate com tudo e com todos, como se o Sporting constituísse ou tivesse ao seu serviço um imponente exército capaz de derrubar muros, pessoas e instituições.

O que é mais difícil de entender – e isso, creio, tem a ver com um mecanismo pessoal de obstinação utópica – é que Bruno de Carvalho não alcance o efeito do seu pecado original. O pecado original é a forma de exercer a presidência. A forma como se distancia da única posição que um presidente deve ocupar. Um presidente não serve para as tarefas elementares e minimalistas. Um presidente tem de se reservar para as questões macro. Bruno de Carvalho não consegue despir o fato de presidente-adepto e, de vez em quando, mostra uma propensão para ser presidente-jogador, presidente-treinador, presidente-director de comunicação, presidente-médico, presidente-massagista. E isso é uma forma original de ‘presidir’ que é contraproducente para o próprio Bruno de Carvalho. A sua preocupação deveria ser constituir uma equipa profissional, coesa e transversal, na qual delegasse um conjunto de competências nos operacionais do dia-a-dia e deixar para si os momentos das grandes decisões. A liderança que decidiu corporizar é errática, potencia focos de conflito, desuniões e muita desconfiança.

Na época passada, a equipa de futebol esteve quase a fazer um ‘milagre’ e reconquistar o título de campeão nacional que lhe foge há quase 15 anos. O Sporting jogou futebol e parecia claro que a aposta em Jorge Jesus, uma aposta que envolvia os seus riscos, pelo impacto, pela reacção externa e por aquilo que poderia representar em termos de choque técnico-desportivo, havia resultado. Mais gente em Alvalade, mais espectáculo, mais vitórias e, consequentemente, mais temor, mais respeito e mais incómodo. Contudo, a dinâmica de reajustamento do plantel não correu bem. O Sporting pode ter ficado, naturalmente, satisfeito com o êxito da Selecção Nacional em França, como todos ficámos, mas deixou alguns dos seus jogadores, ainda mais valorizados pelo efeito da sua participação no Europeu, com vontade de sair. Gerou-se então um fenómeno negativo de inconciliações várias. Os que ficaram, mas que tinham outras expectativas; os que saíram e deixaram os cofres cheios e os que entraram mas não foram capazes de demonstrar, rapidamente, valor suficiente para serem alternativa ou compensações aos diversos vazios que entretanto se geraram. Jorge Jesus não foi suficiente para reduzir a dimensão do estrago e a desconfiança foi-se instalando. Agora, tudo é possível até Março e a situação é tão complexa que o edifício pode implodir. A qualquer momento.

Jardim das estrelas: Perda de poderes (**)

A questão da perda de poderes de Jorge Jesus está na ordem do dia. Quando Bruno de Carvalho contratou o ex-treinador do Benfica, sabia muito bem das condicionantes dessa contratação e, quando lhe prorrogou o contrato, aceitou o princípio de que JJ é mais do que um treinador convencional. Presidente é presidente, não pode deixar de estar hierarquicamente acima (mesmo) de um treinador não convencional, é óbvio, mas esta conversa da ‘perda de poderes’, a ser levada a cabo, se não for concertada, e não me parece que possa ser, tem tudo para acabar mal.

O plantel precisa de ser reajustado, toda a gente percebe isso, sobretudo depois de se concluir que alguns reforços não o são.

Parece-me claro que, se Bruno de Carvalho der fogo à tónica do esvaziamento de poderes de uma forma impeditiva e abrupta, contrariando aquilo que foi previamente acordado, vamos ter um quadro muito negativo em Alvalade. Depois do que já aconteceu, e após o que Jorge Jesus disse ontem, na conferência de imprensa, não estou a ver o treinador do Sporting a desistir e a sair pelo seu próprio pé.

A situação pede muito bom senso, de parte a parte, mas o presidente do Sporting está muito pressionado. Como já disse e escrevi, ninguém está isento de responsabilidades mas, nestes momentos, é preciso saber-se exactamente o que se quer. E não me parece que seja isso que está a acontecer.

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