Pressão Alta

Rui Santos
Rui Santos

Caso dos "vouchers"denuncia novo poder

Em tempo útil, expressei a opinião de que esta conversa das ofertas de cortesia dos clubes aos árbitros é para embalar meninos.

Sou contra o princípio, porque entendo que os árbitros são um agente desportivo igual aos outros, sejam eles jogadores ou treinadores. Fazem parte do jogo e têm um papel decisivo em cada partida que dirigem.

Não têm de receber ofertas. No começo de cada encontro, os 'capitães' de equipa trocam cumprimentos e um galhardete. Isso é que é um gesto de educação e cortesia. Os treinadores não costumam receber nada. Houve um tempo em que a figura do árbitro, meramente amadora, chocava contra o estatuto profissional dos demais intervenientes. Nem isso, hoje, acontece. O profissionalismo, embora com distintas e abissais diferenças remuneratórias, é transversal.

Esta é a minha posição de princípio, mas o que vale é o que está preceituado nos regulamentos e é neles que nos devemos focar. O importante é o espírito da lei.

O espírito da lei é que as ofertas de cortesia tenham carácter simbólico e, como sempre sublinhei, inclusive nestas honradas colunas do Record, é isso que está preceituado nas 'Normas e Instruções para árbitros"; fugir daí… é entrar por outros labirintos que a razão desconhece e permitir a especulação sobre quem domina os corredores (do poder) do futebol.

Por mais que se queira ignorar o facto, e ainda não vi isso nem ser aflorado nem ser discutido, a regulamentação da UEFA tem um enquadramento específico, que resulta da circunstância de estarmos a falar de 'jogos da UEFA'. Não me parece curial que se esteja a confundir a realidade de cada Liga ou de cada Federação com a realidade dos 'jogos da UEFA'. Quando uma equipa de arbitragem vai dirigir um 'jogo da UEFA', sai do seu país, vai visitar um país diferente, e, embora estejamos a falar na maior parte dos casos de um 'espaço comum' (europeu), 300€ em Portugal não representam o mesmo que, por exemplo, 300€ na Alemanha.

De resto, no extracto tornado público pela CII da Liga refere mesmo que "impõe-se o enquadramento à luz do ordenamento regulamentar e jus-disciplinar". Exactamente. Como é que se 'salta', então, para o normativo da UEFA, se esse normativo é aplicável numa circunstância diferente ("jogos da UEFA") daquela que ocorreu em Portugal? Os 'jogos da Liga' são todos 'jogos UEFA' e os 'jogos UEFA' são todos 'jogos FIFA'? Por que razão, então, os regulamentos de competições e os regulamentos disciplinares não são todos iguais, de país para país, de liga para liga, de federação para federação? E se, como a própria CII reconhece, "inexiste qualquer norma no ordenamento jurídico das nossas competições profissionais que convoque a aplicação desse corpo normativo", como é que a CII se atreve a dar esse salto?!…

No (extractado) acórdão, refere-se que "uma caixa com a figura de Eusébio […] não pode deixar de ser vista, na praxis futebolística, como tendo cariz de símbolo, de lembrança (…)". Sem dúvida. Mas como é possível a CII, logo a seguir, no seu arrazoado, assumir a posição de que "não se diga que tal raciocínio sai afectado por na oferta entregue estar presente um convite/voucher (duplo ou para quatro pessoas), permitindo acesso ao Museu do clube e outro espaço com possibilidade eventual de uma refeição…"?

Contesto em absoluto: "Não se diga"?… Não se diga, porquê? Esse 'voucher' é que está a mais, e não há nenhuma justificação para lá estar. O que a CII fez foi abrir um precedente, grave, no sentido de se arranjar as mais engenhosas soluções para se legitimar o princípio da cortesia social. Quem é que me diz que, em vez de uma refeição, não se possa promover outro tipo de 'cortesias', em princípio mais caras - acima de 300€ - mas que ficam abaixo desse valor, feito o desconto… por mera cortesia? A partir de agora, as equipas de arbitragem, para além de irem munidas dos respectivos equipamentos, com apito e cartões, devem levar igualmente uma máquina de calcular. Têm de ter muito cuidado com o que comem, porque uma cereja a mais ou um morango a menos pode ser a diferença entre o lícito e o ilícito. É que o valor de 299€ é permitido; 301€ já não é. Ridículo!

No inquérito, foram ouvidos 142 agentes da arbitragem a quem lhes foi perguntado se sentiam que aquelas ofertas tinham o propósito de "viciação do normal decurso dos jogos"? Esses agentes foram os primeiros a considerar o mecanismo 'normal', houve claramente a assunção colectiva de um procedimento 'normal', e seriam eles a contrariar essa suposta 'normalidade', que eles próprios impuseram como regra?

Acabo como comecei: tudo isto é para embalar meninos.

Não é uma questão jurídica. É uma questão política. De poder.

* Texto escrito com a antiga ortografia

JARDIM DAS ESTRELAS

*

Castigo, pois claro!

Se, no caso dos 'vouchers', a construção político-jurídica apresentada pela CII da Liga parece-me suscitar enormes reparos (vide texto principal), já no que concerne ao procedimento disciplinar contra Slimani não vejo (grandes) hipóteses do ponta-de-lança escapar a um castigo (prevejo 2 ou 3 jogos de suspensão).

O CD da FPF arquivou as queixas do Sporting sobre alegadas agressões de jogadores do Benfica nos jogos da Liga e da Taça de Portugal, e não podia fazer outra coisa. Bem ou mal ajuizado, o árbitro da partida decidiu em conformidade com o que viu. No caso do lance entre Slimani e Samaris (da TP), considerando o desenho e a tipificação da jogada, é perfeitamente natural que Jorge Sousa não tenha visto o argelino a atingir o médio grego, com o braço direito, na nuca, uma vez que tudo se passou nas suas costas, embora o quarto árbitro (Fábio Veríssimo) esteja lá exactamente para um auxílio extra nestas situações… E só nestas condições se justifica o procedimento disciplinar.

Como não creio que, em Alvalade, haja desconhecimento destes enquadramentos regulamentares, só posso concluir que o protesto 'leonino' sobre 10 lances achados nessa partida apenas serviram para fazer ruído. Nada mais.

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