Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Clubes em Portugal não querem árbitros isentos

Desde que Pedro Proença abandonou a arbitragem em 2015, nunca mais tivemos um ‘árbitro de elite’ no futebol português. Daí as ausências da arbitragem lusa no Europeu que conquistámos (2016) e no próximo Mundial, apesar de neste caso ainda estar em aberto a hipótese de Artur Soares Dias e mesmo Tiago Martins poderem marcar presença na Rússia como videoárbitros (VAR).

A ausência de uma equipa de arbitragem portuguesa que pudesse estar no relvado ou nas suas imediações no Mundial da Rússia não encerra qualquer tipo de surpresa. Não é só a questão da qualidade ou da falta dela. Foram muitos anos a não investir na promoção de árbitros mais jovens e, também por via disso, algumas promoções foram rápidas de mais, com as consequências que daí advêm.

A arbitragem portuguesa ainda está longe da sua maioridade como estrutura e ainda enferma dos muitos vícios que a condicionaram no passado. O nosso último grande árbitro foi, na realidade, Pedro Proença. Tinha uma apetência especial para lidar com os jogadores e com as situações do jogo dentro do campo e, por isso, atingiu internacionalmente um plano muito elevado.

O problema dos árbitros em Portugal não é não saberem as leis do jogo. Teoricamente todos os que chegam à primeira categoria têm óbvio conhecimento das leis do jogo e, no papel, sabem como aplicá-las. O problema dos árbitros em Portugal é outro — é (não) saberem lidar com as pressões. As pressões nos estádios e, principalmente, as pressões que sofrem durante a semana, das mais diversas maneiras. Não é igual dirigir um jogo no Dragão, na Luz e em Alvalade. Como não é igual dirigir um jogo em Guimarães ou em Braga; em Moreira de Cónegos, Chaves, Setúbal ou Portimão. Há circunstâncias muito especiais que só os próprios árbitros, um por um, conhecem.

Há árbitros que querem ‘fazer bem’, independentemente dos clubes e dos jogos que estão a dirigir e há outros, como todos sabemos, que levam os jogos e as suas decisões para onde querem. Com maior ou menor subtileza. Aqueles que querem ‘fazer bem’, podem saber as leis do jogo, mas perdem-se no calor das decisões. Uma coisa é testar os conhecimentos num ‘laboratório’ fechado; outra coisa, bem diferente, é tomar decisões, com a pressão do público e das claques, a pressão dos dirigentes (sejam eles presidentes ou não), dos treinadores, dos próprios jogadores e outro tipo de pressões. É preciso ter carácter e personalidade para não fazer depender as decisões de factores que não tenham a ver com o jogo.

As relações de poder, o poder dos clubes e as várias formas de o fazerem sentir sobre quem tem de tomar decisões sobre eles (e isto é válido para outras jurisdições, para além da arbitragem) não podem ser levados para dentro do campo.

Também foi por causa disto que defendi a introdução da figura do videoárbitro no futebol português. Pelo excesso de poder que as equipas de arbitragem tinham (e ainda têm) e por perceber que as influências externas produziam (e ainda produzem) grande impacto nas decisões dentro das quatro linhas.

O VAR corresponde a um segundo momento de escrutínio e, apesar das condicionantes impostas pela letra e o espírito do actual protocolo, já todos percebemos que ter VAR é melhor do que não tê-lo. Esta época, apesar de alguns equívocos e desafinações, houve uma percentagem muito significativa de decisões revertidas pela figura do VAR, que conferiram maior verdade desportiva à nossa principal competição. Isso é indiscutível. As equipas de arbitragem continuam a ter, no seu todo, um inusitado poder, mas situações de abuso são mais difíceis de perpetrar, sem que elas não conheçam consequências gravosas para quem as protagoniza. Isso não é tudo, mas representa um avanço. Quanto às relações de poder, a passagem da pasta da presidência das mãos de Vítor Pereira para as de José Fontelas Gomes mitigou esse impacto. Desapareceram os sinais de protecção descarada a este ou àquele clube, embora continuemos a assistir a situações difíceis de explicar como aconteceu, por exemplo, no FC Porto-Benfica, no FC Porto-Sporting e no Benfica-Belenenses.

Não temos nenhum árbitro no Mundial e não temos, na verdade, nenhum árbitro em grande ‘forma’. Nem os nossos dois melhores árbitros (Jorge Sousa e Artur Soares Dias) conseguem estar imunes a tudo o que se passa no futebol português. Estamos a falar de uma época em que o FC Porto ‘sinalizou’ um conjunto de árbitros da primeira categoria, no âmbito do ‘caso dos ‘emails’, com o Benfica a responder, ‘sinalizando’ também uns outros tantos, mas em menor número.

A verdade, nua e crua, é esta: os árbitros, em Portugal, estão muito condicionados e nunca foram tão martirizados como agora, por força de processos e do ruído estabelecido pelas direcções de comunicação de Benfica, Sporting e FC Porto. Eles não têm qualidade, de facto, para estar no Mundial, mas num ambiente como aquele que se vive em Portugal o difícil é mesmo… sair de casa.


JARDIM DAS ESTRELAS -Miguel Almeida disse tudo

Tirando ‘uma dúzia’ de casos, os jogos das nossas Ligas não produzem qualquer interesse. Os estádios estão vazios, há pouco tempo útil de jogo, ritmo baixo, isto é, a Liga portuguesa é muito pouco atractiva e, em termos de espectáculo, em média, está num nível baixíssimo. Vale a pena patrocinar este tipo de futebol, em que todos se acusam (com uma linguagem sórdida) e se traz o tema da corrupção para a primeira linha do debate? A recente intervenção pública de Miguel Almeida, presidente-executivo da NOS, no ‘Expresso’, é para ser levada a sério. Basta de andar a brincar com o fogo!

O CACTO - Futebol de mentira

Acredito que há muita gente séria no futebol, que tenta ganhar o seu dinheiro de acordo com o produto do trabalho realizado. Numa indústria que movimenta muitos milhões — como noutras, é bom não esquecê-lo — haverá sempre práticas ilícitas e, por isso, o escrutínio deve ser permanente e não é o silêncio nem a ausência de crítica que devem marcar o futuro. Os processos (os reais, perfeitamente justificados e os de intenção), as denúncias anónimas, as acusações permanentes geraram um clima de suspeita GENERALIZADA que não se pode aceitar. Há anos que venho pedindo a intervenção do governo sempre que se perceba que o movimento associativo não se consegue regular. Os agentes de futebol não podem continuar a ter o discurso de ódio que ostentam e serem penalizados com multinhas de chacha. Nem quando é a própria FPF e a Liga a confessarem impotência para travar este clima de morte do futebol português parece haver vontade de intervir. Parece que estão mesmo à espera que aconteça (mais) uma desgraça. Os jogadores e os treinadores precisam de ser mais activos e recusarem-se a fazer parte deste futebol de mentira(s).

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