Desminagem interna vital para o Sporting
O Sporting precisa de fechar o capítulo mais negro da sua história. Depois de tudo o que se disse, escrutinou e contraditou, não parecem restar dúvidas de que o Sporting esteve na iminência de encerrar portas e que o mandato de Godinho Lopes foi ‘apenas’ o corolário de um conjunto enorme de erros acumulados em quase duas décadas de existência.
Sempre afirmei – muito antes de Bruno de Carvalho aparecer como candidato presidencial – que o Sporting podia estar a caminhar, a passos largos, para a insolvência e precisaria de mudar de rumo. Mudar de procedimentos de gestão e abandonar o fatalismo adquirido de que não haveria mais nada a fazer senão manter a fisionomia e a militância de um ‘fidalgo arruinado’.
Nos meus espaços de crítica, mesmo consciente de alguns condicionalismos que lhes estão subjacentes, apoiei o mecanismo da ‘auditoria externa’, e entendo mesmo que esse mecanismo é uma ‘ferramenta’ legal à disposição dos associados de qualquer agremiação desportiva – e, por exemplo, sou da opinião que, quando as coisas não batem certas, o que não significa exactamente dolo ou corrupção, os sócios devem organizar-se nesse sentido, sobretudo quando a informação disponibilizada não responde a todas as questões que possam ser suscitadas. Querem um exemplo? A situação financeira do FC Porto mereceria ser analisada a fundo, porque uma sociedade que faz tantos e tão significativos encaixes em venda de jogadores, ao longo de anos a fio, tem de ter respostas para justificar um grau de ‘gastos operacionais’ tão elevado…
Resumindo: no caso do Sporting, a auditoria de gestão estava amplamente justificada, pelo agravamento crescente da situação económico-financeira da SAD e do Grupo SCP e até se entende que, num período de afirmação de um novo tempo, que pressupõe a afirmação de novas estratégias e dinâmicas, Bruno de Carvalho – o portador dessa nova mensagem, através do poder dos votos – possa ter dito, então, algumas coisas que hoje não diria da mesma forma.
Bruno de Carvalho entende que, se não houve negligência e gestão danosa [entre 1995 e 2013], o Sporting teve um azar muito grande. Não tenho dúvidas de que houve muita incompetência, muita contratação falhada, muita despesa desnecessária, muita permissividade, muito pouco foco no futebol e não nos podemos esquecer que os clubes ‘já deram para tudo’, para muita ligeireza. Os resultados líquidos acumulados nos mandatos de Filipe Soares Franco, José Eduardo Bettencourt e Luís Godinho Lopes foram sempre crescendo – 50,9 M€, 69,5 M€ e 101,5 M€ – como foram sempre crescendo os passivos (331,3 M€, 396,9 M€ e 487,1 M€) e os capitais próprios negativos (142,6 M€, 197,5 M€ e 312,5 M€). Há coisas difíceis de explicar, como no período imediatamente antes da entrada em campo do actual presidente, segundo as quais foram pagas comissões acima do valor de mercado (casos de 20%) a determinados agentes ou empresas de intermediação, mas pode ter sido ‘apenas’ a pressão do momento ou a vontade (atabalhoada) de querer mostrar capacidade de decisão.
No caso do Sporting, concluo, o advento das sociedades anónimas desportivas, em vez de disciplinar e optimizar a gestão a partir do futebol para outros segmentos de actividade que também fazem parte do universo dos clubes, inverteu as prioridades e achou-se que, através da gestão do património (as opções tomadas e as derrapagens na construção do novo estádio foram a ignição do ‘incêndio’), tudo o resto iria acontecer. O Sporting e os seus responsáveis cuidaram pouco e mal do seu edifício desportivo e os resultados foram dramáticos.
O Sporting precisa, contudo, de virar esta página. Com urgência. A Comissão de Auditoria, constituída para finalmente os ex-presidentes poderem apresentar as suas razões, vem na sequência de nenhum dos visados ter achado suficiente o mecanismo de poderem apresentar os seus pontos de vista em sede de AG, o que, convenhamos, seria a autoconversão em carne fresca para uma espécie de ‘circo romano’ – e isso também deve servir de reflexão para perceber como os chamados ‘espaços democráticos’ são ainda tão vulneráveis e potencialmente capazes de produzirem decisões ‘emocionalmente legais’, como foi o caso da expulsão de Godinho Lopes como sócio dos leões.
Hoje, por força do processo desencadeado por Bruno de Carvalho, nenhum sócio do Sporting terá dúvidas de que, em quase 20 anos, houve muita ligeireza, facilitismo, pagamento de favores das formas mais legais que podemos imaginar; posso até estar enganado mas não vejo que Santana Lopes, José Roquette, Dias da Cunha, Soares Franco, Bettencourt e Godinho Lopes – tirando as mordomias e os benefícios decorrentes da função presidencial – tenham utilizado os dinheiros do Sporting para proveito próprio. Não acredito.
Os clubes desportivos são instituições demasiado importantesdo tecido socioeconómico para acharmos que elas devem ser deixadas a definhar ou a apodrecer. Essas instituições têm fases, mais ou menos gloriosas, mais ou menos vibrantes, mais ou menos críticas, precisam de se reajustar (como foi o caso do Benfica) e de se regenerar (como penso ser o caso do FC Porto), mas a sua pujança, independentemente das rivalidades, é importante para o país.
O Sporting tem demasiados desafios à sua frente para se deixar minar internamente. O tempo é de desminagem. Mas com verdade. Se houve gente comprovadamente a meter dinheiro ao bolso, isso não pode ser silenciado. Custe o que custar.
Jardim das estrelas: 'Seixalização' do Benfica
Luís Filipe Vieira tem o Seixal a trabalhar, a laborar como centro de produção de uma linha de montagem específica, atingiu um ponto de maturidade interessante (10 anos), tem um treinador (Rui Vitória) que não estorva e até patrocina esse centro de produção e tem… Jorge Mendes, que é uma espécie de ‘ministro dos Negócios Estrangeiros’ do Benfica. Enquanto houver resultados desportivos e JM se mantenha incólume em relação às acusações que lhe fazem em Espanha, tudo serão sorrisos. A ‘seixalização’ do futebol do Benfica recomenda-se. Mas também é preciso ter a noção de que, mesmo com a SAD a apresentar resultados positivos pelo terceiro exercício consecutivo, o passivo dos encarnados não está a descer e essa foi uma promessa do presidente…
O cacto: Podem explicar?
Antero Henrique (AH) apresenta a sua resignação. Prescinde de todos os seus cargos no FC Porto. Ninguém duvida do capital de experiência adquirido por AH no Dragão e da sua utilidade na Liga. Mas faz sentido um dirigente desportivo deixar todos os cargos no FCP e manter-se em representação do FCP na Liga? Não serve para o FCP mas serve para… representar o FCP?
Talvez se o próprio AH explicar, ou mesmo o FCP, a ideia de contradição se possa desvanecer ou mesmo eliminar. A opinião pública agradece um eventual esclarecimento.
