Era uma vez o Benfica…
Era uma vez…
Era uma vez um futebol alicerçado em muitos adeptos do Benfica e do Sporting.
Era uma vez um futebol de duas orquestras: a dos 5 Violinos e a de Eusébio e suas pautas.
Era uma vez um futebol (da) capital.
Era uma vez um treinador (Pedroto) e um dirigente (Pinto da Costa) que tiveram o sonho e o desejo de contestar o poderio do futebol "de Lisboa", que era o espelho e a extensão do país centralizado.
Era uma vez um clube (FC Porto) que em Portugal, no período compreendido entre as décadas de 40 e finais da década de 70, só havia vencido dois campeonatos (55/56 e 58/59).
Era uma vez um clube (FCP) que, em 37 anos de competição, via os clubes "de Lisboa" discutirem entre si o título de campeão nacional (Benfica, 20; Sporting, 14; Belenenses, 1).
Era uma vez um futebol que, antes do 25 de Abril, e no âmbito da prova mais importante do calendário futebolístico nacional, só tinha visto o FC Porto superiorizar-se por 4 vezes - 4 vezes em 40 anos.
Era uma vez um país que viu cair o Estado Novo e viu ser implantada a Democracia.
Era uma vez um país que, após a ditadura salazarista, teve de se habituar a viver em Democracia.
Era uma vez um futebol, nos primeiros embalos do regime democrático, a começar a ver o FC Porto a dar sinais de querer impor-se (dois títulos consecutivos, em 77/78 e 78/79).
Era uma vez um clube (FCP) que começou a crescer e a ganhar mais vezes.
Era uma vez um clube (FCP) que, depois do 25 de Abril e até final do século XX, ganhou mais vezes (13) do que os rivais juntos (SLB, 9 e SCP, 3).
Era uma vez um clube (FCP) que, depois de fazer a aproximação ao Benfica (década de 80), passou a ganhar mais vezes e 'arrasou' na década de 90.
Era uma vez um presidente (Pinto da Costa) que, no auge das suas capacidades, depois de perceber as fragilidades do período de consolidação do regime democrático, coincidente com a exibição das fragilidades dos vários edifícios (não) funcionais, como os correspondentes aos aparelhos estatais, político-partidários, judiciais e judiciários, jornalísticos, etc., sem esquecer as fragilidades da organização do próprio futebol, sem um centro de poder devidamente qualificado e independente, explorou até ao limite as debilidades e as vulnerabilidades de um país e de futebol cheio de assimetrias e vazios.
Era uma vez um país e um futebol que assistiu à concretização de muitos excessos.
Era uma vez um país e um futebol - e um edifício da Justiça - que não estavam preparados para o Apito Dourado, que não espelhou, juridicamente, todos os excessos cometidos.
Era uma vez um país em que o edifício da Justiça teve de ser construído de novo.
Era uma vez um país que depressa deu sinais de precisar de mais de meio século para ajustar o sistema às novas realidades, assentes na mudança de paradigma em relação à velocidade da informação e ao império da informática.
Era uma vez um país e um futebol que viram um clube (Benfica) inconformado por não conseguir traduzir em resultados aquilo que é e sempre foi a sua dimensão de instituição com maior representatividade social.
Era uma vez um clube (Benfica) que, num determinado momento, tentou contrariar a hegemonia de outro clube (FC Porto), através do confronto directo - e não se deu bem.
Era uma vez um clube (Benfica) que, derrotado nesse confronto directo, mudou a sua estratégia e, utilizando alguns dos processos achados como referência a Norte, com nuances de comportamento e sobretudo explorando novas técnicas de comunicação, tentou utilizar a sua dimensão e representatividade social nos diversos aparelhos e órgãos de decisão para melhor gerir o controlo das situações.
Era uma vez um país e um futebol que assistiram à tentativa de outros emblemas (nomeadamente Sporting, através do 'caso Cardinal') conseguirem gerar superioridades através de mecanismos não recomendáveis, à luz da ética ou mesmo da lei - o que significa uma tendência generalizada, ao nível dos emblemas mais representativos, para reforçarem as suas influências fora do recinto desportivo.
Era uma vez um país e um futebol que, a certa altura, começaram a compreender o esforço de um clube (Benfica) em reconquistar a hegemonia do futebol em Portugal. Chamei-lhe a benfiquização do sistema.
Era uma vez um país e um futebol que começaram a ter a percepção - até por outros casos ocorridos fora da esfera do 'pontapé na bola', mas na órbita dos poderosos - que alguma coisa estava a mudar na Justiça, por força de uma 'magistratura no feminino', a conseguir aumentar os níveis de eficácia nos chamados casos mais problemáticos.
Era uma vez um país e um futebol que deixaram de ter dúvidas sobre uma 'guerra de poder(es)' que se acentuara entre Benfica e FC Porto, com o Sporting a tentar intrometer-se de alguma forma.
Era uma vez um país e um futebol a observar um amontoado de processos a visar o Benfica, na dúvida se haveria acusação da parte do Ministério Público (MP).
Era uma vez um país e um futebol a confrontar-se com a acusação do MP à SAD do Benfica (acusada de 30 crimes no processo E-Toupeira) e do seu assessor jurídico, Paulo Gonçalves (79 crimes).
Era uma vez uma pergunta à qual ainda ninguém deu resposta: como se pode validar, sem consequências, um megalómano e arrogante assalto ao 'edifício da Justiça' sem uma crítica ou um mero pestanejar? Quem deu 'carta branca' a Paulo Gonçalves?
JARDIM DAS ESTRELAS
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Via verde da incerteza
Depois de uma campanha não totalmente esclarecedora, os sócios do Sporting elegem hoje um novo presidente.
Pelo que se percebe e em função de sondagens entretanto publicadas, Frederico Varandas e João Benedito partem na 'pole position'.
A seguir, numa segunda linha, José Maria Ricciardi e Dias Ferreira.
A fechar a grelha de partida, Rui Jorge Rego e Fernando Tavares Pereira.
O próximo presidente do Sporting, seja ele quem for (se não forem Varandas ou Benedito, os mais jovens, será uma surpresa), terá uma missão muito complexa e espinhosa.
Uma missão de unir e agregar, porque já não sobra mais campo para batalhas, dada a urgência e a emergência de implementação de medidas que conduzam o Sporting à sua viabilização.
Não deixa de ser curioso que sejam os candidatos mais jovens a apresentar-se na 'pole position' desta corrida à presidência. É a via verde da juventude, mas é também a via verde da incerteza, porque muitas dúvidas pairam sobre a capacidade de resposta global, quando as altas exigências se colocam, interna e externamente, em tantos tabuleiros diferentes.
Os candidatos mais maduros, Ricciardi e Dias Ferreira, que poderiam optimizar a vasta experiência adquirida em sectores vitais relacionados directa ou indirectamente com o futebol, cometeram cada qual erros de palmatória, dos quais não se vê que não tenham consequências: Ricciardi com a aposta José Eduardo para o futebol; Dias Ferreira com a aposta em Carlos Vieira como 'apoio' relevante e 'de bandeira'.
O recente projecto marcado pela megalomania e desagregação precisa de dar lugar a um leão com as patas assentes na terra, mas com a capacidade de… saber rugir.
Não é fácil.
