FC Porto foi campeão sem ajuda dos árbitros
...E surge então o tema da impugnação do campeonato.
Todos sabemos que este campeonato começou mal. Há muitos anos que o futebol português está sob suspeita, e por diversas razões. São os clubes – nas suas frenéticas e descabeladas acusações, que deveriam ser os primeiros a zelar pela integridade das competições – a atirar o nosso futebol para o caixote do lixo. Os responsáveis dos clubes apontam o dedo, mas nessa obsessão de visar o adversário acabam por se transformar nos seus próprios algozes. A destruição das partes acaba por redundar na destruição do todo. E isso ninguém quer ver.
Este campeonato, considerando o caso dos emails, nunca deveria ter começado como começou. Repare-se que os primeiros sinais do que havia de surgir, seguidamente, foram dados em Abril do ano passado. Quando, cerca de um mês depois, Fernando Gomes e a FPF decidiram avançar com a revelação de que haveria vídeo-árbitro no campeonato português, já havia a convicção de que 2017/18 seria uma época explosiva. O anúncio do FC Porto, segundo o qual o Benfica era acusado de ter montado um esquema de corrupção de árbitros para retirar dividendos nos jogos, veio a seguir. O VAR foi o amortecedor que desviou a atenção do essencial e foi, também, uma forma de evitar prejuízos (financeiros) antecipados. O barril estava cheio de pólvora.
O campeonato começou com um número invulgar de árbitros sob suspeita e a gestão de um grupo com muitas limitações não se adivinhava nada fácil, principalmente numa época em que, com o advento do VAR, o exercício de nomear estava sujeito a novos factores. As pressões do costume, mais as pressões resultantes do caso dos emails, com o Sporting activo na tarefa de não querer consentir a bipolarização do Benfica e FC Porto e apenas com o 1.º lugar a dar acesso directo à fase de grupos da Champions, esta temporada ‘não podia’ ser perdida por ninguém.
Era preciso ser forte e resistente à pressão que TODOS colocaram sobre si próprios, sobre os adversários, sobre os órgãos decisórios e sobre as instituições.
O Benfica vem falar, agora, depois de falhar a ‘operação penta’, da impugnação do campeonato.
Vira-se para ‘casos’ de arbitragem e para questões do foro da disciplina. Pode ter razão aqui e ali (a estória das ameaças a Artur Soares Dias no centro da Maia caiu num vazio que ainda está por esclarecer na sua verdadeira dimensão), mas de uma maneira geral se houve uma equipa prejudicada pela arbitragem neste campeonato ela foi, indubitavelmente, o FC Porto, sobretudo na primeira metade da época. O FC Porto não ganhou este campeonato com a ajuda dos árbitros. O FC Porto ganhou este campeonato porque genericamente foi melhor.
O Benfica perdeu o campeonato porque não foi competente. Incompetente na preparação da época. A ‘estrutura do Benfica’ acreditou que podia ser penta sentada em cima da conquista do tetra. Os ‘gabinetes de crise’, para coisas destas, não têm soluções. Não se podem perder jogadores de referência como Ederson, Nélson Semedo, Lindelöf e Mitroglou e achar-se que as coisas se resolvem… com Krovinovic. Há sempre que trabalhar em cima dos piores cenários. Nunca se sabe quem se lesiona e por quanto tempo. A resiliência de André Almeida (chapeau!) ajudou a colmatar a saída de Semedo, mas a gestão da saída de Ederson foi surreal. O carrossel entre Júlio César, Svilar e Bruno Varela? Coisa de amadores. A promoção (muito forçada) de Felipe Augusto outra… bola fora. A aposta em Gabriel Barbosa era fácil de antever que não se coadunava com as necessidades mais prementes da equipa. Deixar Jonas ‘isolado’ (mesmo com as boas referências dadas por Jiménez, muito diferente de Mitroglou) foi um risco enorme. Não compensar a saída do grego, outro erro. A verdade é que, no meio de tantos autogolos, o Benfica teve o campeonato na mão. Quando ultrapassou o FC Porto e quando recebia a equipa azul e branca no seu reduto. Perde, em casa, com o adversário directo e perde, a seguir, também na Luz, com o Tondela, apesar de uma arbitragem (Nuno Almeida) que também fica na história deste campeonato.
Preto no branco: o Benfica tinha tudo a favor e deitou tudo fora. Fica-lhe mal arranjar agora todo o tipo de desculpas para retirar o foco da sua incompetência. Perdeu no confronto directo com o FC Porto. Rui Vitória foi sempre um treinador dedicado a defender a estrutura e a ‘esconder’ as fragilidades do plantel. Cometeu erros tácticos e de estratégia no momento vital do campeonato, sem dúvida, mas não merece ser pendurado no pelourinho da Luz. Se a avaliação fosse feita por aquilo que aconteceu esta época, dir-se-ia que o Benfica não precisaria de um novo treinador. Precisaria de uma nova estrutura. Mais arejada e sobretudo mais à dimensão da herança de Borges Coutinho.
O acto de não se saber perder é que deveria dar impugnação.
O CACTO
O futebol como extensão
O ‘sistema social’ que temos em Portugal é indigno. Contribuintes a alimentar uma cáfila de oportunistas. A alimentar os que sempre viveram da ‘bolha’ que une banqueiros, políticos e empresários ou outros utilitários-de-referência em sectores estratégicos como a magistratura, a comunicação social e também os que, não querendo fazer nada, se aproveitam das indignidades desse sistema.
Não sei como o país não se farta disto. Ou talvez saiba. Se calhar porque nem sequer está em condições de se fartar. Pelo bloqueio a que se impôs. Pelo grau de comprometimento. Por tudo aquilo que implica a sobrevivência. Os impostos pagos pelos contribuintes deviam ter como princípio a protecção dos cidadãos, naquilo que são as necessidades essenciais da comunidade em geral. Não é isso que está a acontecer. O dinheiro público é sugado por e para um buraco sem fundo. Por mais que se desconte, por maior que seja o esforço no sentido de pagar a crise, não há, na prática, qualquer vestígio de amortização. Os desmandos da banca, as falências e a factura que todos pagamos pelo crescimento da dívida pública são o resultado da falta de regulação e da ineficácia das instituições em não permitir que os fautores da crise sejam ilibados, sobejando sempre para os mesmos a liquidação dos excessos, dos crimes, das imparidades e de todo um arsenal de indignidades que, a cada dia, são revelados, sejam no processo que envolve José Sócrates ou nas sombras que se abatem sobre as questões relacionadas com a lista dos maiores devedores à banca ou ainda nos negócios subjacentes às parcerias público-privadas. Nas suas manhas e patranhas que urge desmontar, o futebol aparece neste contexto de país.
* Texto escrito com a antiga ortografia
