Futebol português em constante denúncia

Adicione como fonte preferencial no Google

Agora que Benfica e Jorge Jesus se puseram de acordo relativamente à divergência que separou o actual treinador do Sporting da instituição encarnada, que representou durante seis temporadas, ao longo das quais conquistou 10 troféus, entre os quais três títulos de campeão nacional, talvez seja importante reflectir sobre o tema, muito pouco valorizado em termos de análise no espaço público, uma vez que - e é bom não esquecê-lo - esse divórcio acentuou as clivagens entre Benfica e Sporting e gerou no futebol português um ambiente tóxico anteriormente nunca visto.

O tempo passa e, às vezes, apagam-se da memória colectiva aspectos importantes de processos tão impactantes como este. É bom recordar que na sequência dos altos e baixos que se registaram na relação entre Jorge Jesus e aqueles que sempre se quiseram impor como pedras angulares da estrutura do Benfica, se gerou a convicção de que havia chegado a hora de o Benfica mudar de rumo, e aplicar finalmente uma estratégia, definida há muito pela SAD e com a concordância de Luís Filipe Vieira, segundo a qual era preciso apostar mais nos produtos da formação, rentabilizar o investimento feito no Seixal, e fazer mais-valias com a venda desses e de outros jogadores.

Dada a postura de Jorge Jesus como treinador de futebol, que face às suas conquistas iniciais no Benfica e à forma rápida como transformou a equipa, até então entregue a uma certa volatilidade técnica-táctica (com Quique Flores e outros técnicos que passaram pela Luz), criou as condições para afirmar a sua autonomia completa, não permitindo que ninguém pudesse condicionar as suas escolhas, no plano desportivo, e com isso a reclamar um papel importante no momento da escolha dos reforços, o Benfica percebeu que, com ele na Luz, não seria possível desenvolver o seu projecto global para os anos vindouros, também com o objectivo de reduzir passivo e colocar as contas mais ou menos em ordem.

O que interessava no Benfica ter a formação a trabalhar a todo o gás, a comunicação a propagandear a ideia de que no Seixal estava "a melhor Academia do Mundo" e o treinador a achar que os jogadores acabados de 'fazer' na 'Caixa' não estavam prontos para entrar no 'onze'? O que interessava essa dinâmica se, ao invés, Jorge Jesus reclamava jogadores 'feitos', de preferência com níveis físico-atléticos acima da média, e com a 'ratice' necessária para responder aos desafios mais exigentes?

Não interessava aos pilares da 'estrutura do Benfica' que Jorge Jesus fosse o 'patrão' do futebol do Benfica. Era preciso 'descentralizar' e recolocar o treinador - agora que a estrutura tinha mais anos de amadurecimento sob a vigência da 'era Vieira' - num plano de dependência total da estratégia e não o contrário, isto é, o treinador a condicionar toda a estratégia.

Tudo legítimo, tudo normal, tudo dentro, aliás, de uma perspectiva correcta em termos de funcionamento de um clube que entretanto se havia modernizado e reforçado, internacionalmente, a força da sua marca (como nô-lo provou, por exemplo, o contrato realizado com a Emirates); o problema esteve na tentativa de Vieira (com o apoio de Jorge Mendes) em colocar Jorge Jesus fora da órbita do futebol nacional, o que - da maneira como se processou - não foi do agrado do treinador. Quando as coisas começaram a ficar claras neste sentido, e apareceu o Sporting a querer levar JJ para Alvalade, deu-se o choque e, depois, a ruptura.

Começou, então, ainda sob a batuta da ex-direcção de comunicação do Benfica, um valente ataque à credibilidade de Jorge Jesus como treinador. E até quando eu próprio dei a notícia de que o Benfica se recusava a pagar o último ordenado de JJ fui envolvido numa campanha de tentativa de desacreditação, que passou pelos tribunais (sem dano para mim) e pelas ofensivas do inefável Guerra, o peão (a quem se arranjou palco nacional) de todas as investidas que pudessem colocar em causa o alegado superior interesse do Benfica.

Era o combustível que faltava para o teatro do futebol português pegar fogo. O atacado Jesus era agora treinador do Sporting. O Sporting tinha (e tem) um presidente que não pode ver vermelho e organizara-se no sentido de dar luta a um departamento de comunicação do Benfica que, entretanto, achava que não fazia sentido uma intervenção comunicacional tão 'terrorista'. FC Porto e Sporting aproximaram-se, surgiu o 'caso dos emails', e o futebol português viveu (e ainda vive) o seu período de insanidade, com os departamentos de comunicação a replicarem o efeito denúncia e a desencadearem mecanismos de investigação, a um nível nunca visto. Uma espécie de pacto de agressão que só podia dar em revelações escabrosas. Um processo que serviu para demonstrar que o futebol em Portugal está podre e se denuncia por dentro, levando a um número inusitado de investigações.

…Entretanto, o acordo e, agora, a certeza de que quase tudo poderia ter sido evitado.

JARDIM DAS ESTRELAS

Hora do FC Porto

****

O FC Porto sabia que, ao vencer o Sporting, não apenas reforçava a sua candidatura ao título de campeão nacional como, praticamente, afastava um dos rivais dessa luta. O FC Porto tinha de ser prático e foi prático. Não fez uma das suas melhores exibições - longe disso - e permitiu, até, que o Sporting estivesse próximo de repartir os pontos. Isso também concorre para a conclusão de que o FC Porto está com 'estofo'. E, para isso - é bom acrescentar -, deixou de ser tão fortemente penalizado pelas arbitragens, como o foi durante boa parte da época. Bastava que Artur Soares Dias tivesse uma outra leitura do único lance mais discutido do 'clássico', ocorrido na área do FC Porto, entre Dalot e Doumbia, para a história do jogo poder ser outra. A leitura que o VAR, João Pinheiro, teve - e não foi acompanhada por Soares Dias. São 'pormaiores' que ajudam a fazer, igualmente, a diferença.

O Sporting ganhou um jogador (Rafael Leão), depois de ter perdido, por culpa própria, Gelson e Bas Dost - num momento decisivo - e estas perdidas devem fazer reflectir os responsáves leoninos sobre o peso dos erros próprios que concorrem para o insucesso.

O FC Porto geriu a comunicação no sentido de gerar coesão interna; o Sporting geriu a comunicação no sentido de colocar o foco no seu presidente. Um erro crasso, um erro obtuso, que serviu, também, para unir o Benfica, depois dos falhanços que foi protagonizando, desportivamente. Quando o Benfica, no campo e fora dele, estava em grandes dificuldades, o presidente do Sporting colocou as luzes em si próprio. E agora?...

*Texto escrito com a antiga ortografia



*Texto escrito com a antiga ortografia

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade