Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

G-15 e a ‘carta de alforria’

A Liga portuguesa foi, desde sempre, um campeonato macrocéfalo, dominado pelos três maiores clubes portugueses: Benfica e Sporting, com os respectivos estádios sediados na capital do país, e o FC Porto, com a sua ‘casa’ implantada na segunda maior cidade cá do burgo. Na história de muitas décadas do futebol português, só encontramos mais dois campeões nacionais, cujos clubes também têm sedes em Lisboa (Belenenses, 1945/46) e Porto (Boavista, 2000/01). Quer dizer: nunca em Portugal se geraram condições para que pudesse emergir um campeão nacional que não fosse oriundo das duas maiores cidades do país.

Até à década de 70, o futebol português resumia-se ao predomínio de Benfica e Sporting, com o FC Porto a espreitar muito timidamente, e foi a partir dos anos 80 que os portistas começaram a dar sinais de que podiam contestar a hegemonia dos clubes da capital, afirmando-se de uma forma categórica ao longo da década de 90. Estava aberto um novo ciclo na história do futebol português e, a partir daí – em pleno período de supremacia dos azuis e brancos, sob a batuta de Pinto da Costa –, assistiu-se ao ‘fenómeno Boavista’ (com Valentim Loureiro, muito próximo do presidente do FC Porto), ao declínio do Sporting e à ‘guerra’ Norte-Sul.

Esta realidade socioeconómica e geográfica, chamemos-lhe assim, marcou muito o futebol em Portugal e os seus efeitos continuam a fazer-se sentir na actualidade. Os três ‘grandes’, pela tessitura social e comercial, tomaram conta do todo da bola indígena e, nos últimos anos, aumentaram a sedução de controlo que querem exercer sobre as principais sedes de decisão, a residir como se sabe nas áreas da disciplina e da arbitragem. Neste trajecto, como se sabe, os ‘grandes’ habituaram-se mal, porque – mais nuns casos, quando se trata de avaliar níveis de força, poder e influência – foram gerando a ideia de que podiam controlar o sistema de funcionamento e organização do futebol português, sem muita contestação dos clubes pequenos e médios, sem esquecer o papel central que a Olivedesportos chegou a ter, a partir da distribuição (muito desigual) do produto das receitas televisivas. A Benfica TV apareceu – é bom não esquecer – também para amortecer, por via das dinâmicas que se foram estabelecendo a partir da Olivedesportos, o poder que o FC Porto havia acumulado.

Chegamos aos tempos de hoje: um futebol completamente dominado pelos ‘grandes’, em todas as suas vertentes, sendo que na actualidade o que se discute mais são os poderes e as influências externas. E nessa luta titânica que passou a envolver departamentos de comunicação sem nenhum tipo de contenção e respeito institucional uns pelos outros, nivelando por baixo a natureza da linguagem utilizada, atingiu-se um ponto insustentável de intolerância, de tal maneira que os clubes médios e pequenos sentiram a necessidade de dar um murro na mesa, demarcando-se desse posicionamento. Dando seguimento ao ‘alarme’ accionado pelo presidente da FPF, Fernando Gomes.

É uma luz que se acende ao fundo do túnel, fundamentalmente porque o G-15 (todos os clubes à excepção dos ‘grandes’) assume que "têm sido ultrapassados todos os limites", falando da necessidade de um "pacto de não agressão" e de "revisão de quadro de infracções a dirigentes e outros agentes desportivos". O G-15 faz eco da generalidade dos adeptos e observadores que não se revêem nesta ‘ditadura dos grandes’, que a todos condiciona e o presidente da SAD do Belenenses, Rui Soares, diz mesmo que "este movimento é imparável".

Sê-lo-á? António Salvador, presidente do SC Braga, também se tem revelado particularmente activo, há algumas manifestações aqui e ali mas ainda está por avaliar a consistência do Grupo (será mesmo G-15?!) e a solidez das suas posições. São muitos anos de subalternidade e de uma política de favores, muito enraizada através das cedências de jogadores por empréstimo. Esta emancipação dos clubes médios e pequenos pode ser um excelente sinal de libertação de um regime de escravatura que a todos tem toldado os movimentos.

Já houve uma primeira consequência (a reacção de Pinto da Costa às palavras de António Salvador relativamente aos empréstimos, a propósito da cedência de João Carlos Teixeira) e outras podem seguir-se, porque os ‘grandes’ acumularam muitos anos de controlo sobre os adversários. É preciso perceber efectivamente se os clubes médios e pequenos querem lutar pela sua ‘carta de alforria’, até às ultimas consequências. Quem será o primeiro a ceder? Ainda há muitos silêncios…

NOTA – Escrevia, ontem, aqui, no Record: "Há que prever muitos medos e pouco risco – face à importância do resultado – e, neste contexto, não se deve desprezar o cenário do empate". E assim foi.

* Texto escrito com a antiga ortografia


JARDIM DAS ESTRELAS - 1 estrela

'Vermelho' directo

Critiquei a fundo a atitude dos árbitros em se apresentarem na passada jornada sem os logótipos da Liga e do patrocinador (NOS), porque se eles reivindicam o cumprimento das regras e respectivas sanções (como por exemplo a lesão da sua imagem pública por diversos agentes desportivos), não podem ser os primeiros a passar por cima dos regulamentos e a politizar a luta FPF-Liga. O CD não tinha outra solução senão agir disciplinarmente; entretanto, ontem, os árbitros já apareceram com o ‘logo’ da Liga NOS…


O CACTO -- Ciclo negro

O ‘Expresso’ deu voz aos directores de comunicação, colocando questões pertinentes sobre o seu papel no futebol em Portugal. Antes, tínhamos, no Benfica, o precursor – João Gabriel – a ‘espetar as unhas’ e a carregar sobre os ‘infiéis’, o que despertou no Sporting (ainda e também com Luís Bernardo em Alvalade) uma intensa vontade de ripostar, então com Bruno de Carvalho (BdC) e, noutro plano, Octávio Machado, a tentar condicionar o efeito do ‘fogo inimigo’. Quando Gabriel se retirou (e Bernardo entrou), o Benfica estava já virado para o desanuviamento e para uma comunicação mais institucional e mais orientada no sentido da internacionalização da marca, mas o Sporting estava decidido a equipar-se para a ‘guerra’ que estava a perder (recrutando Saraiva) e ao FC Porto estavam a chegar sinais perturbantes da influência do Benfica nos bastidores do futebol português, proporcionando a FJ Marques, que entretanto havia sido chamado para remendar os efeitos de uma comunicação pouco eficaz a cargo de Rui Cerqueira, tomar a dianteira das ‘denúncias’. Estava aberto um novo ciclo no domínio das palavras e das acusações, que a todos compromete. Um ciclo negro que só pode acabar se os presidentes dos três ‘grandes’ perceberem que as direcções de comunicação devem ter um papel, mas não este, que destrói e… desmobiliza.

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