'Imbecilidades' do futebol pátrio
Os leitores habituais desta página e aqueles que me seguem há anos, quer através de artigos escritos, quer através dos comentários na SIC Notícias, sabem que tenho o princípio de evitar responder àqueles que, directa ou directamente, me pretendem atingir. A tolerância perante as alusões directas ou indirectas à minha pessoa teve de aumentar, num tempo em que as redes sociais e o espaço público que a internet liberalizou, dominado e condicionado, em certos momentos, por pessoas com responsabilidades em direcções de comunicação dos clubes de futebol, nem que seja pelo patrocínio oficioso que dão a certos blogs, páginas de Facebook, etc., porque, se a cada inverdade ou difamação correspondesse um processo em tribunal, o sistema entraria em colapso, tal a profusão e a dimensão quantitativa das aleivosias, das mentiras e das ‘encomendas’.
Por outro lado – com grandes responsabilidades por parte do sector da comunicação social –, está gerada uma grande confusão entre comentadores e ‘comentadores’. As televisões criaram a figura do ‘comentador’ e Portugal transformou-se no país dos ‘comentadores’. E, no caso do futebol, o fenómeno ainda é mais fulminante, em nome da proclamada ‘liberdade de expressão’ e do ‘pluralismo’. Todos ‘comentam’ futebol. A oferta (nomeadamente televisiva) aumentou imenso nos últimos dois anos e é preciso preencher horas de antena e, de repente, vemos na pantalha gente que não tem um mínimo historial para justificar um qualquer ‘estatuto’ que lhe é atribuído. Liberalizou-se a ideia de que ‘o futebol vende’ – e então fazem-se todo o tipo de concessões. É mau, e vamos ver que isso trará consequências, a prazo.
O ruído aumentou exponencialmente na última temporada, durante a qual valeu quase tudo, até a recuperação de uma entrevista que dei em 1992, para a qual afirmara que "sou de uma família maioritariamente sportinguista" e saiu "sou do Sporting". Como as direcções de comunicação não me dominam e sabem que tento cumprir a minha função de desalinhado, tentaram colar-me a essa declaração para justificar algumas das minhas críticas ao futebol do Benfica, que são iguais às que faço – quando entendo justificadas – ao futebol do Sporting ou ao futebol do FC Porto. É isto que alguns não admitem e têm muita dificuldade em encaixar, porque não concebem que, numa estrutura social em que cada cidadão tem um partido e um clube de futebol, e fazem disso uma espécie de ‘religião’, haja quem consiga manter-se fora do circuito das forças dominantes. Entendo esse ponto de vista, mas tenho de fazer alguma coisa para entenderem o meu, sobretudo porque investi tudo na minha carreira profissional, e fi-lo sem me deixar capturar por (ex) presidentes, figuras dominantes do futebol, etc., etc.
Um vice-presidente de um clube ‘grande’ de futebol, mesmo que seja ‘comentador’, tem de perceber que a função de um comentador profissional – cabem nesta categoria todos aqueles que se especializaram, profissionalmente, no comentário futebolístico e reúnem condições de isenção para o fazer – é comentar, não exactamente o que dizem outros ‘comentadores’, mas as declarações feitas por todos os agentes desportivos. Um vice-presidente de um clube é um agente desportivo, e daqueles que têm maiores responsabilidades, na hierarquia do futebol. O que não é normal é um vice-presidente de um clube ‘grande’ achar que pode dizer tudo, alienando as suas responsabilidades sociais, inclusive como ex-governante, "porque sou do Benfica". Ser do Benfica, do Sporting ou do FC Porto, isto é, a entrega da doação como se fosse uma oferenda (muito bem retribuída, nem que seja em notoriedade e outras benesses), não deveria pressupor, suponho, a incondicionalidade – e deveria impor, repito, uma maior responsabilidade.
Vem isto a propósito da resposta do presidente do FC Porto ao vice-presidente do Benfica, que afirmara num programa televisivo, a propósito da deslocação da equipa portista a Roma, o desejo de que o conjunto português fosse derrotado pela sua congénere italiana. Isto não é sinceridade, não é sequer um convite à hipocrisia; é um dos ‘cancros’ que mata a credibilidade do futebol português: a falta de classe dos dirigentes desportivos e a sua incapacidade de projectar valores como o fair play e a coexistência institucional acima de registos primários, cujos ecos vêm das bancadas. E este é um mal que não tem uma cor específica. Infelizmente, é disto que vemos mais no caleidoscópio futebolístico nacional.
Como comentador, na televisão, achei merecedora de crítica a postura do vice-presidente, porque entendo que é preciso moderar e elevar o discurso, entre adversários. O presidente do FC Porto, após a vitória, entendeu classificar de ‘imbecil’ o vice-presidente. Infelizmente, de ‘imbecilidades’ destas anda o futebol pátrio cheio. O que é ainda mais ‘imbecil’ e, pior ainda, veiculado por má-fé, é o vice-presidente tentar fazer crescer a bola de neve nas redes sociais, segundo a qual atribuí o título de melhor treinador do ano a um técnico que perdeu tudo. Mais uma mentira conveniente. O ‘ranking dos treinadores’ do ‘Tempo Extra’ é um prémio que tem um regulamento específico há muitos anos e que determina, através de uma fórmula pontual – e não por critério pessoal gerado em cada época – quem fica em primeiro lugar.
O presidente do Benfica tinha razão quando deu a escolher ou um lugar na SAD ou um lugar de ‘comentador’. O lugar de ‘vice’ foi para manter as aparências.
JARDIM DAS ESTRELAS: *****
Cristiano Ronaldo ‘regressa’ a Alvalade
22 de Novembro de 2016 é a data que o sorteio da UEFA ditou para o encontro entre o Sporting e o Real Madrid, correspondente à 5.ª jornada da fase de grupos da Champions. Daqui a pouco mais de 15 dias haverá o Real Madrid-Sporting, o jogo que abre o Grupo H. São datas de ‘reencontros’, mas o principal está guardado para o fim de Novembro, tempo suficiente para os responsáveis e adeptos do Sporting prepararem uma grande festa de recepção ao jogador formado nos leões com mais currículo e troféus na história do clube. Não é só uma questão de marketing. É uma questão de justiça. Fica a ideia. Fica a sugestão.
O CACTO
Não chega de gestão emocional?
O Benfica tem três centrais de boa qualidade. Jardel e Lindelöf cresceram e ganharam ‘estatuto’ na Luz; Lisandro López tem correspondido, sempre que lhe é dada uma oportunidade. Há 2-3 anos, o fim da ‘era Luisão’ podia ser observada como grande dor de cabeça. O capitão dos encarnados quer jogar mais duas épocas e isso é legítimo, como é legítimo o Benfica querer fazer uma gestão racional e não estar disposto a pagar mais duas temporadas de (alto) ordenado, quando desportivamente isso já não se justifica. Os clubes nacionais estão a pagar, hoje, exageros e muitas perspectivas emocionais de gestão. Luisão ‘merece tudo’, mas há outras formas de honrar a carreira do capitão na Luz, até porque as compensações foram dadas, época a época. Mas… e se não houver quem dê, no mínimo, 2,5 M€/época de ordenado por um jogador de 35 anos?! Aí…
