Jesus x Rui Vitória -- duelo à parte
Um Sporting-Benfica é sempre um jogo entusiasmante. O dérbi desta noite tem algumas particularidades, a acentuar o interesse e a expectativa. Desde logo, o facto de os velhos rivais se encontrarem separados por um ponto, a dez jornadas do fim do campeonato.
Seja qual for o desfecho, nada ficará decidido. Aliás, o dérbi desta noite não pode ser observado isoladamente. Concorre com um outro jogo grande da jornada: o Sp. Braga-FC Porto. Porque é bom não esquecer que, depois do ‘tropeção’ dos leões em Guimarães, o FC Porto apresenta-se, neste momento, a quatro e a três pontos do primeiro e segundo lugares, respectivamente, o que significa estar na luta pelo título, mesmo sabendo-se que se trata de uma tarefa complicada. É da conjugação dos resultados destes dois jogos, a transformar esta jornada 25 num momento muito especial do campeonato, que ficaremos a saber, amanhã à noite, quem (não) saiu em melhor posição.
O FC Porto, que cronologicamente ‘sai’ em último lugar nesta ronda, sonha com um empate em Alvalade e, se ele acontecer no contexto de uma vitória em Braga, corresponderá à diminuição da desvantagem para dois pontos em relação ao Sporting e apenas um relativamente ao Benfica. E, neste caso, temos ainda ‘mais campeonato’! Há ainda um segundo cenário que agrada ao FC Porto: uma vitória do Sporting, sempre no quadro de um triunfo do FC Porto em Braga. Com ela, e neste enquadramento duplo, os portistas alcançariam o Benfica e ficariam com os mesmos quatro pontos de desvantagem em relação ao Sporting. Cumpre dizer, todavia, que o Sp. Braga reúne condições para poder tirar pontos ao FC Porto. A equipa de Paulo Fonseca produz futebol suficiente para atingir esse objectivo. Aliás, o Sp. Braga vai ter uma palavra crucial na definição do campeão (amanhã, joga com o FC Porto; em Abril vai à Luz, e na última jornada recebe o Sporting).
O empate em Alvalade não deixará ninguém totalmente insatisfeito, mas é evidente que uma vitória do Sporting ou uma vitória do Benfica darão aos beneficiários desse triunfo um inestimável reforço psicológico, porventura determinante para o resto do campeonato. O empate em Guimarães coloca o Sporting debaixo de um maior ‘stress’ competitivo, mas, se esta noite ganhar, esse reforço psicológico revelar-se-á em duas dimensões: deixará de novo o Benfica a maior distância e os leões farão esta época o pleno de triunfos no confronto com o velho rival.
Ao perder dois pontos na Cidade Berço, o Sporting tem pouca margem para fazer ‘gestão de resultados’, porque em tese possui um calendário mais difícil: Estoril (f), Arouca (c), Belenenses (f), Marítimo (c), Moreirense (f), União (c), FC Porto (f), V. Setúbal (c) e Sp. Braga (f). Uma ponta final de campeonato muito exigente. Por isso, quem ganhar este dérbi ficará numa posição de grande privilégio. A primeira de dez ‘finais’. Se o Benfica for a Alvalade vencer, dará um passo gigantesco para revalidar o título de campeão nacional. Não apenas ultrapassaria o Sporting como tem pela frente um calendário, teoricamente, mais acessível: Tondela (c), Boavista (f), Sp. Braga (c), Académica (f), V. Setúbal (c), Rio Ave (f), V. Guimarães (c), Marítimo (f) e Nacional (c).
O dérbi desta noite encerra outra particularidade: o Sporting de Jorge Jesus venceu sempre, até agora, o Benfica de Rui Vitória. Três vezes. Este é um duelo muito particular que vai estar presente em Alvalade. Só no final se conhecerá a expressão real desse duelo particular. Se o Sporting for campeão, com três ou quatro vitórias sobre o rival na temporada, é evidente que Rui Vitória e o Benfica ficarão muito mal. Mas se for o Benfica a ser campeão, mesmo tendo perdido pelo menos três vezes com o Sporting, essas derrotas terão um significado residual.
Há contudo que colocar as coisas como elas são: Jorge Jesus deu uma nova dimensão ao futebol do Sporting, que – jogando melhor ou pior – cresceu em termos de abordagem competitiva; o Benfica não cresceu em termos de dimensão competitiva e, com Rui Vitória, não pratica um futebol distintivo. O Sporting é, neste momento, a sensação do campeonato, por dois motivos:
1 – Porque vai à frente;
2 – Porque (indo à frente) está ameaçar uma nova perspectiva de recuperação de hegemonia por parte do Benfica, o que significa contestar o domínio plantado nas últimas (longas) temporadas por Benfica e FC Porto.
Está muita coisa em jogo esta noite. Vamos ver que palavra vão ter mais logo Rui Patrício e Julio César; Adrien e Renato Sanches; Slimani, Jonas e e Mitroglou. E já agora Artur Soares Dias.
* Texto escrito com a antiga ortografia
Jardim das estrelas (4) -- Vídeo-árbitro, hoje dia D
Em Londres, a 7 de janeiro, a International Board (IB) recomendou fortemente a experimentação da assistência aos árbitros através do vídeo. Hoje, no País de Gales/Cardiff, em AG, a IB deve fazer aprovar os termos em que a introdução da figura do vídeo-árbitro se deve fazer, a partir de um estudo que reuniu federações de vários países, entre as quais a portuguesa, num trabalho que envolveu positivamente Fernando Gomes e Tiago Craveiro. Estamos na antecâmara de uma nova era e apenas lamento que se tenham perdido, com Blatter e Platini, cerca de dez anos a compreender o inevitável. O Sporting-Benfica de hoje já poderia ter ajuda tecnológica. Assim, Artur Soares Dias tem uma tarefa mais difícil.
O cacto -- 'Fenómeno Canelas'
Que país é este que deixa o ‘fenómeno Canelas’ sem uma resposta? Dizem-me (da AF Porto) que, no meio de tanto ruído, não há (afinal) um relatório, uma participação de um adversário, um auto de notícia policial. Que país é este que assiste, impávido e sereno, a um conjunto de notícias que colocam o futebol num plano de absoluta irracionalidade? Notícias que dão conta de intimidação e de ameaças de falta de comparência. Os árbitros não reportam? Os delegados não reportam? Os polícias não reportam? A FPF não faz nada? Cruza os braços e assobia para o ar, porquê? Cobardia? Medo? É difícil entender que, nestas circunstâncias, o Governo também não faça nada. A tutela do Desporto não tem uma palavra a dizer? De que está à espera o secretário de Estado do Desporto para intervir e dar um sinal de que não vale tudo no país do futebol?! A coacção, directa ou indirecta, expressa ou dissimulada, não pode andar a divertir-se no futebol português. Quando a autonomia do movimento associativo não funciona, é nesses momentos que o Estado tem de impor-se. Em Portugal, o Estado tem uma responsabilidade efectiva na desregulação do futebol. Pela demissão permanente.
