Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Maior estabilidade favorece... o Benfica

A época de 2016/17 não será muito diferente daquilo que o futebol português, na sua Liga principal, nos tem oferecido. É verdade que houve algumas alterações de comportamento competitivo entre os três grandes, e isso – mesmo numa lógica de constante macrocefalia – pode ser visto como uma mudança de paradigma. Com efeito, o FC Porto deixou de dominar totalmente a Liga portuguesa e isso deve-se, em primeiro lugar, à recuperação do Benfica, que foi resolvendo alguns dos seus dramas internos e passou a ter uma política externa mais consentânea com a realidade sistémica do futebol nacional. Tivemos durante muitos anos, na hierarquia do futebol profissional, FC Porto, Benfica e Sporting (por esta ordem), agora temos Benfica, FC Porto e Sporting, o que significa que, apesar das declarações processadas pelos responsáveis e das aproximações entretanto conseguidas, os leões pouco conseguiram alcançar, na prática, algo que pudesse contrariar um fenómeno de bipolarização bem expresso na contabilidade de títulos do futebol português.

Quer dizer: apesar dos avanços e das promessas do Sp. Braga, que se tem revelado como o quarto clube mais competitivo da bola indígena, a macrocefalia vai manter-se, é muito difícil que, no quadro actual, essa realidade se altere, e enquanto se andar a fazer arranjos de alargamentos e não se dotar o escalão principal do futebol português de um formato mais competitivo, que obrigue as principais equipas a jogar mais vezes com adversários capazes de lhes colocar também mais vezes maior número de problemas em cada jogo ou competição, o ‘regime’ será este e nenhum outro.

Temos, portanto, na primeira linha da escala de interesse que concita a época futebolística nacional agora a começar, a curiosidade de saber se o Benfica vai continuar a sua caminhada de consolidação do crescimento que sustentou nas últimas épocas; se o FC Porto, até como consequência disso, acentua a sensação de que pode estar a viver a sua maior crise dos últimos 30 anos; e se o Sporting consegue, ou não, sair do plano das intenções.

Ultrapassado o impacto da saída de Jorge Jesus da Luz para Alvalade – com muitas dificuldades e forte oposição – o Benfica é o clube que vive tempos de maior estabilidade e ganhou uma margem de confiança razoável para atacar esta temporada. A época transacta desconstruiu a ideia de que começar bem ou começar mal (não) é decisivo, mas os sinais emanados pelo Benfica nesta pré-época, mesmo num cenário de entradas e saídas, permitem um certo optimismo, que a conquista da Supertaça pode ajudar a alimentar e consolidar. A ‘base’ da equipa campeã nacional não parece estar colocada em causa e, se a saída de Gaitán, noutro contexto, poderia abalar o moral dos benfiquistas, a verdade é que a lei das compensações parece estar a funcionar bem no quartel-general dos encarnados. O papel de Vieira, neste particular, revela-se importante. Parece focado em querer racionalizar as contas e, se o conseguir, não apenas entrará para a história – onde muitos, apressadamente, já o colocaram -–, como ficará ligado à fase mais importante de toda a existência do Benfica: a recuperação da competitividade e o saneamento financeiro. O Benfica possui hoje uma capacidade negocial interessante, acima do FC Porto (a pagar a factura de operações excessivamente onerosas e com contornos muito discutíveis, do ponto de vista da eficácia dessas mesmo operações) e muito acima do Sporting e isso – até que surja alguma situação provada e mais delicada que ponha em causa o ‘império’ construído por Jorge Mendes, tem muito a ver, não apenas com o trabalho do scouting, mas também com o entendimento entre o presidente do Benfica e o denominado superagente do futebol mundial. É que não são apenas as operações viabilizadas na Luz; são também as operações que se inviabilizam no terreno dos principais adversários. E este pormenor da ‘inviabilização’ faz toda a diferença.

Que o diga o Sporting: há quem possa ver nele a geringonça que sobrecarrega os motores até ao limite no sentido de chegar à meta em primeiro lugar. A asserção talvez não seja simpática mas às vezes o futebol do Sporting, numa manifestação de grande determinação e vontade, aparenta ser um daqueles carros de pouca cilindrada em que o condutor vai na auto-estrada de prego a fundo mas sem conseguir imprimir mais velocidade. O Sporting sabe que corre esse risco: dar tudo o que tem para dar e não conseguir sair praticamente do mesmo sítio, com os ‘motores’ a fumegar. Nesta pré-época, o Sporting parece não ter sido capaz de resolver alguns dos seus problemas e a ideia de coesão ainda não foi achada, por força da chegada mais tardia dos novos campeões europeus...

Quanto ao FC Porto, o desafio é enorme e ainda não se percebeu muito bem qual pode ser a força do... Espírito Santo.

* Texto escrito com a antiga ortografia


Jardim das estrelas -- 5 estrelas

Moniz Pereira
para sempre!

Há três personalidades do desporto português que me marcaram muito, pessoal e profissionalmente, no contacto que fui tendo com eles. Dois grandes treinadores de futebol, José Maria Pedroto e Fernando Vaz, e o "Senhor Atletismo", Moniz Pereira. Entre outros, claro. Todos diferentes mas todos iguais na capacidade de fazer diferente e de nos surpreender com visões muito à frente do seu tempo. Homens marcantes, homens que deixaram um legado importante, nem sempre reconhecido. Moniz Pereira era a favor da desfutebolização do desporto português mas sabia muito de futebol. Um senhor de todos os tempos. Guardo dele as melhores memórias e despeço-me dele com o maior respeito. Paz à sua alma!


O cacto -- Já não há  feitos de betão?

Os titulares de lugares públicos têm do exercício do seu poder uma ideia demasiado elástica e permissiva. Acham sempre que não há incompatibilidades em relação a quase nada. A GALP está em litígio com o Fisco e paga a viagem ao Euro-2016 ao secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Este recusa "qualquer problema de independência" e até se propõe devolver a quantia paga. Tudo muito pobre e pífio, eticamente. Não é apenas a estória da emenda e do soneto, é também a história do ser e do parecer. Já não os há feitos de betão?!...






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