Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Máquinas de propaganda geram ódio e preocupação

Houve um momento na minha vida – há quase 14 anos – em que tive de interromper um projecto profissional para o qual achava ser possível doar-me até ao fim dos meus dias. Fi-lo por percepcionar que estava em curso uma mudança histórica para o qual os ‘históricos’ desse projecto iam deixar de valer e ser respeitados e apenas passariam a ser utilizados, em dia de aniversário, para serem veículos de ‘marketing’ e de autopropaganda para a afirmação de um suposto ‘jornalismo moderno’ e de vanguarda.

Dos ‘históricos’ não resta (quase) nada, a não ser as cínicas homenagens em dia de aniversário. Já se sabia que, a partir de um determinado momento – e isso ficou claríssimo no começo do novo milénio – não havia lugar para respeito e independência, valores que caracterizaram o projecto durante décadas. Esses valores iriam ser substituídos por subserviência, compadrio e muita selectividade na escolha das notícias, dos protagonistas e dos favoritos.

Vim-me embora por isso. Não consigo conceber que um projecto editorial, de dimensão nacional e internacional, com responsabilidades acrescidas no mundo da lusofonia, dimensões essas alcançadas pelo esforço de muita gente, se coloque ao serviço ou se mostre particularmente simpático com esta ou aquela facção clubística, seja ela qual for.

Muita coisa mudou nos últimos anos. E mudou para muito pior.

Os clubes de futebol exercem o seu poder, não apenas para estarem nas boas graças de sectores tão sensíveis como a Arbitragem e Disciplina, pelas decisões que tomam, mas também para tentarem estender a sua influência sobre a Comunicação Social. Esta sedução de controlo não é nova, mas agudizou-se nos últimos tempos. E está a tornar-se perigosa, num tempo em que as redes sociais, sem controlo nem regulação eficazes, servem para tudo: para pessoas e entidades se esconderem, cobardemente, atrás do anonimato ou de ‘nicknames’ forjados com um objectivo declarado, e manipularem, mentirem, insultarem. Vale tudo neste novo planeta das redes sociais, cuja habitabilidade, nas suas formas mais sofisticadas e enviesadas, é alimentada por quem mais responsabilidade deveria ter na gestão dos impulsos de matriz irracional. Às claques, nas suas manifestações e representatividade menos equilibradas, junta-se agora este exército de algozes de um certo tipo de justicialismo, que se esconde – nalguns casos – atrás dos teclados. Nasceu um novo tipo de impunidade.

O presidente do Sporting não é cobarde, não se esconde atrás do teclado, valha-nos isso, mas tem sido um dos maiores fautores de ‘guerrilha institucional’ de todos os tempos, depois do período em que o presidente do FC Porto, Pinto da Costa, fez tudo o que tinha a fazer, sob o signo da coacção, para fazer o que se propôs fazer para alcançar a hegemonia do futebol nacional.

O Sporting não tem uma estratégia de comunicação, porque Bruno de Carvalho ‘é’ a comunicação do Sporting: ele não é apenas o ideólogo – como os outros são – é também o altifalante e o próprio teclado. Não percebe que a mensagem essencial (de mudança) se perde no momento em que perde o controlo do seu desvario comunicacional. A quantidade e a profusão de intervenções e mensagens são inimigas da eficácia. Bruno de Carvalho e o Sporting não ganham nada com isso. E o futebol português também não.

Contudo, quando se quer fazer de Bruno de Carvalho um caso patológico e singular no futebol em Portugal está-se a apontar para a árvore – aquela árvore particularmente carnívora –, sem se olhar para a floresta. E a floresta está cheia de árvores envenenadas pelo mesmo tipo de sementes. Muda a forma (das copas) mas a raiz é a mesma: falta de ética, falta de respeito, falta de classe, falta de educação e de não se saber coexistir em democracia. Na dialéctica político-partidária ainda há algum decoro. Na dialéctica futebolística atingiu-se o nível mais baixo de sempre.

O FC Porto fechou-se no ‘ghetto’ que Pinto da Costa criou para si próprio e em torno de quem o rodeia. Os parceiros estão identificados e quem não faz a propaganda leva ou é excluído. Sempre foi assim e vai continuar assim.

No caso do Benfica é o presidente que se esconde. Esconde-se atrás da política de comunicação que ele próprio consente. No Sporting, Bruno de Carvalho dá a cara. Não quer dizer que esteja certo – está profundamente errado na sua deriva comunicacional – mas não se esconde. Luís Filipe Vieira esconde-se atrás da política de comunicação, isto é, atrás de João Gabriel, que faz, afinal, o que todos os outros fazem: põe em prática, com maior ou menor subtileza, a sua verve controladora.

Estão todos errados: Luís Filipe Vieira, Pinto da Costa e Bruno de Carvalho. O problema é que se sentem confortáveis nas suas aleivosias ou a quem as verbaliza, semeando ódio(s). E, neste registo, o futuro não nos reserva nada de bom. Lamentavelmente.
* Texto escrito com a antiga ortografia

Jardim das estrelas (3)

Sp. Braga passou mas... com ajuda

A arbitragem pode ter, como se sabe, uma grande influência no desfecho dos jogos. Aliás, tem vezes de mais. Como aconteceu em Braga. Perante uma exibição tão agradável e categórica da equipa de Paulo Fonseca, até parece redutor falar-se de arbitragem. A verdade desportiva é um valor que deve ser defendido em todas as circunstâncias, mesmo quando estão em causa uma equipa portuguesa e outra turca. Não é correcto defender-se uma verdade desportiva selectiva. Vítor Pereira tem razão. Ou há fora-de-jogo ou não há. Houve, no lance do primeiro golo. E, na jogada do segundo golo bracarense, que deu golo (de penálti) e expulsão, foi claro que Topal apenas quis proteger o corpo de uma bolada e não teve qualquer intenção em jogá-la com a mão ou o braço. Sublinha-se o desempenho do Sp. Braga, mas com uma arbitragem correcta poderia não ter chegado aos ‘quartos’. O futebol precisa de impedir que os árbitros sejam determinantes nos jogos.

O cacto

Rei vai nu

Só não vê quem não quer: o FC Porto debate-se com um problema de identidade e isso tem a ver com as ‘fórmulas’ de gestão utilizadas nas últimas épocas: muitas contratações, um corrupio de veste-e-despe camisolas, com recurso a operações financeiras engenhosas (fundos, etc.), e, com elas, perda de competitividade desportiva e ‘músculo’ nas contas. Por tudo o que fez, em termos de dar notoriedade e estatuto ao clube, ao líder é dado por ora, no meio da contestação, o benefício da dúvida. Ele quer provar que ainda é capaz. Se a agonia prossegue – e o quadro geral não é nada animador –, depois pode ser demasiado tarde. A ‘monarquia’ portista está em crise. O rei vai nu, mas ninguém tem a coragem de o declarar.

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