Neste momento não há condições para haver campeonato
Estamos a 47 dias do arranque do campeonato 2017-18 e não há qualquer sinal de que a FPF e/ou a Liga estejam a congeminar ou a preparar algum plano de contingência ou de emergência — como se queira chamar-lhe — para, como lhe compete, salvaguardar a integridade da competição, na sequência das denúncias que o FC Porto tem vindo a realizar sobre um alegado ‘modus operandi’ do Benfica, no sentido de gerar e potenciar supremacias (ilícitas, segundo a acusação) também fora das quatro linhas.
O ponto 16 dos compromissos desenhados pelo presidente da FPF, Fernando Gomes, e da sua Direcção, fala na "Defesa do bom nome das competições" e aponta para "reforçar a defesa dos valores essenciais (…): a imparcialidade e competência dos agentes de arbitragem e o bom nome e credibilidade das competições".
A credibilidade da competição foi e está posta em causa.
É fácil compreender que, face à gravidade daquilo que o FC Porto imputa ao Benfica, e sem se apurar a veracidade das acusações, não há condições para que a Liga 2017-18 se realize, com um mínimo de condições de salubridade.
Está tudo colocado em causa. As classificações, os observadores, os delegados, a Liga, a FPF. Todo o sistema de organização em que assenta o futebol nacional. O passado (e por isso perguntava, no artigo que escrevi há uma semana, há quantas épocas o campeonato português é uma farsa?!), o presente e, se não forem tomadas medidas urgentes e eficazes, o futuro.
O princípio da presunção da inocência é sagrado num Estado de Direito. Num caso como este, alicerçado em emails alegadamente trocados por pessoas directa ou indirectamente ligadas ao futebol, e que — a não haver truncagens ou descontextualizações — os compromete até ao tutano, não há, apesar das aparências, nenhuma razão para se ignorar ou relativizar esse princípio da presunção da inocência.
Esse princípio não pode, contudo, ser visto como uma parede de betão que inviabiliza a tomada de decisões. Não se pode ficar a olhar para todos estes indícios como se nada se estivesse a passar. As acusações são demasiadamente graves. Os acusados não podem passar entre os pingos da chuva se as imputações forem verdadeiras. Os acusadores também não, se se chegar à conclusão de que — como defende o Benfica — essas imputações correspondem a "informação falsa ou distorcida intencionalmente", negando qualquer tentativa de condicionamento "quer da arbitragem, quer dos órgãos da justiça desportiva".
O presidente da FPF, Fernando Gomes, que tem agora de gerir, nos próximos dias, as acusações de corrupção que se abateram sobre um dos seus vice-presidentes, Hermínio Loureiro, e que era o seu substituto em acções de representação institucional, tem responsabilidades acrescidas num processo que dinamita, interna e externamente, a credibilidade do futebol português, não podendo por isso deixar que se veja arrastado nesta enxurrada de suspeitas, acusações e lucubrações, mais ou menos sustentadas. Teve uma atitude positiva e consistente: contactar a Procuradoria Geral da República e a Direcção Nacional da PJ e disponibilizar-lhes todos os processos de nomeação, classificações e relatórios dos observadores dos árbitros, desde que entrou em funções (2011). É uma boa iniciativa no sentido de colaborar e poder acelerar a investigação.
Não há outra forma de olhar para este assunto sem confiar, minimamente, que a investigação se faça. E se faça, doa a quem doer, sem intenções previamente persecutórias ou previamente condenatórias, apenas com o objectivo de se apurar a verdade.
Contudo, coloca-se a seguinte questão: alguém acredita que, em mês e meio, haja conclusões sobre este processo? E, no verosímil cenário de não haver, como é que a Liga 2017-18 pode efectivamente arrancar, sem todos os anátemas que já se acham abatidos sobre ela, ainda por cima num quadro muito mais restritivo do ponto de vista do acesso directo à Champions?
Alguém acredita que os os ‘árbitros’ sinalizados nos emails revelados pelo FC Porto têm condições para dirigir algum jogo e, fundamentalmente, algum jogo em que participe o FC Porto e o Benfica?
Isto, o videoárbitro não resolve.
Esta questão dos árbitros (há pormenores da sua vida íntima?!!!) é particularmente relevante. Eles próprios não podem começar a época debaixo desta pressão/suspeição. E se for a classe a dizer "alto e pára o baile’, então é o Governo, a FPF e a Liga que ainda ficam piores na fotografia. Nas actuais condições, o campeonato não pode começar. Nunca os árbitros tiveram tantos motivos para impor uma limpeza (interna) e denunciar procedimentos, doa a quem doer. E tomar posição. Porque há certamente gente séria no sector e no futebol — e é essa gente que urge proteger.
JARDIM DAS ESTRELAS (1 estrela) - Papagaiada
Vivemos a fase em que os presidentes dos clubes perderam toda a sua autonomia, identidade e autenticidade e foram substituídos não apenas por direcções de comunicação mas também por marionetas de comunicação, produzidas por elas e colocadas na gaiola da papagaiada. Havia excessos, intervenções boas e más, mas eram eles que davam a cara, para o bem e para o mal. Agora é tudo parturejado, plastificado, artificializado, ainda por cima num tempo em que as redes sociais vieram aumentar a capacidade de mentir, desvirtuar, armadilhar. Há uma deriva única do futebol português no contexto europeu. O país campeão da Europa de futebol é o mesmo país que lutou tantos anos para ser campeão da Europa, sem o conseguir. O país que adora chafurdar na promiscuidade e no favor. Esta coisa muito tuga de, por exemplo, pedir bilhetes para a bola tem o seu preço. A APAF acha que não. Outros agentes acham que não. Mas tem. Ai tem, tem…
O CACTO - Porquê?!!!
Como é que se pode acreditar na solidez e na eficácia da ‘justiça desportiva’ quando o ‘caso do túnel’ (Sporting-Arouca), um caso que não tem nem nunca lhe foi reconhecido uma enorme complexidade, até pela existência de imagens que caíram na praça pública, não apresenta nenhuma decisão? Se o CD da FPF foi célere a despachar, qual a razão por que, passados quase 8 meses sobre o incidente, a Comissão de Instrutores ainda tem o processo ‘congelado’? Se um caso destes leva quase um ano a decidir, o que se pode esperar do desempenho da CI da Liga no "mailingate’? Não deveria ter notificado, imediatamente, sem perda de tempo, os principais protagonistas? Não deviam estar a ser ouvidos em sede de inquérito? Esta desfuncionalidade ajuda a matar o futebol português.
