Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Nomeação de Capela foi política e... falhada

O presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, deu uma entrevista ao canal do clube durante a qual voltou a falar do peso que o futebol tem fora das quatro linhas. Noutras ocasiões e a propósito das reformas a fazer para que o futebol português comece a ser observado, interna e externamente, como uma indústria credível, já me referi em percentagens ao peso excessivo que alguns factores assumem na construção das vitórias, à margem da verdade desportiva, e sempre achei que este é um tema a não desprezar. O presidente dos leões até me parece algo generoso quando atribui ao jogo propriamente dito, isto é, aquilo que se passa dentro do campo, 50%, em termos da ‘cotação’ global na atribuição de um título. Bruno de Carvalho acha que 25% se atribui ao treinador, outros 25% ao plantel, outros 25% à comunicação social e os restantes 25% a tudo o que envolve Arbitragem e Disciplina.

Sei da importância da comunicação social mas não creio que a sua influência seja tão grande, até porque ela já está, em muitos casos, demasiado contaminada por ‘grupos de pressão’ oriundos dos clubes. Há cada vez menos vozes independentes e gente colocada e sugerida por alguns barões assinalados. O ‘peso’ da Arbitragem e da Disciplina, das decisões que não se entendem, e sobre as quais é perfeitamente possível introduzir mecanismos de correcção, continua a ser enorme. Ainda na época passada a Disciplina deu uma péssima imagem de eficácia e transparência. E este é o grande investimento que tem de ser feito, agora e nos próximos anos.

O presidente da FPF, Fernando Gomes, inscreveu no seu programa eleitoral 100 compromissos e, se os cumprir, o futebol português dará um salto qualitativo decisivo. Esta época 2016-17 começa sob os auspícios da histórica campanha da Selecção Nacional no Europeu e, para que esse título seja o desenvolvimento de um crescimento sustentado (muita coisa mudou, de facto, nos últimos anos), não podemos afastar-nos de uma ideia primacial: o crescimento competitivo da nossa Liga. A nossa Liga não pode ser apenas um túnel ou um corredor de passagem de jogadores sul-americanos para Ligas europeias mais desenvolvidas. A Liga portuguesa não pode competir com as principais Ligas europeias, mas pode criar melhores condições de atractibilidade. Mas isso só será possível quando os jogos da Liga portuguesa forem competitivos, tenham qualidade e atraiam mais gente aos estádios – e quanto mais se adiar a resolução dos problemas da Arbitragem e da Disciplina mais difícil se tornará a missão de podermos contar com um campeonato que se resolva, acima de tudo, dentro das quatro linhas, debaixo de um clima saudável e de uma maior tolerância inter pares.

Com o desaparecimento da CII, é bom que Meirim tenha noção da responsabilidade que tem entre mãos, uma vez que a iniciativa disciplinar passa a ser uma competência exclusiva do Conselho de Disciplina. Há alguma expectativa sobre a agilização processual e o timing das decisões e espera-se que, com um novo quadro normativo, os protagonistas assumam também um novo comportamento.

O Conselho de Arbitragem, agora liderado por José Fontelas Gomes, fez a sua primeira nomeação: João Capela para o Benfica-Sp. Braga, da Supertaça. E começou mal.

Foi uma nomeação com uma claríssima conotação ‘política’ e não se lhe deu a importância e o significado que ela assumiu. João Capela é um dos rostos identificados com uma nova intelligentsia futebolística, agora cada vez mais longe das influências nortenhas e assente num novo domínio. Foi uma nomeação ‘política’, muito na linha daquilo que vinham sendo as lógicas defendidas por Vítor Pereira. E o trabalho desenvolvido por Capela na Supertaça, mais do que denunciar uma tendência — houve erros importantes a penalizar as duas equipas —provou que este Conselho de Arbitragem, provavelmente na ânsia de dar um voto de confiança a um dos seus ‘protegidos’, quis impor a ‘competência’ de um árbitro generoso e porventura com muita vontade de mostrar serviço, mas que revela, quase sempre quando apita jogos com maior carga de responsabilidade, algumas lacunas e debilidades que parecem insolúveis. Querer fazer dos árbitros, por corporativismo ou outra coisa qualquer, aquilo que eles não são, representa um mau serviço não apenas à arbitragem mas fundamentalmente ao futebol. Para a jornada 1, o critério pelo menos é perceptível: cuidado de nomear árbitros ‘internacionais’ para os jogos dos ‘grandes’. Todavia, creio que é tempo de repensar os critérios de promoção dos árbitros a internacionais. O joio é maior que o trigo…

O que se pede a Fontelas Gomes é que coloque sempre o interesse do futebol e da verdade desportiva à frente de interesses clubísticos. Terá força e personalidade para isso?

A FPF parece estar activa no sentido de criar as condições para que haja maior protecção à integridade do futebol e dos seus agentes. A bola já começou a saltar. Dentro de momentos, veremos como vão actuar as direcções de comunicação e como será o ‘jogo falado’. As pressões, as tentativas de condicionamento, a coacção directa e indirecta e veremos também como (re)agirão os conselheiros federativos, na Arbitragem e na Disciplina.

A mudança não se faz apenas com diplomacia. Algumas decisões vão ter de ser corajosas; caso contrário, não sairemos do adro das intenções. Como sempre.

* Texto escrito com a antiga ortografia


Jardim das estrelas (5 estrelas)

Olímpica Telma, Rafa e Herrera

Em tempo de Jogos Olímpicos, não posso deixar passar a ocasião para fazer uma referência à proeza de Telma Monteiro, medalha de bronze no judo. Um exemplo de coragem, determinação e persistência. Os grandes campeões são aqueles que não desistem na adversidade. Na Supertaça, Rafa ‘disse’ por que razão Benfica e FC Porto disputam a sua contratação. Que jogão! Bom jogo também de Pizzi e André Horta… Este ‘menino’ merece ser seguido…
Em Vila do Conde, o FC Porto fez uma boa entrada no campeonato… Com Nuno Espírito Santo, um futebol de base mais acutilante… Mais agressividade, mais velocidade… e grande golo de Herrera. O grande objectivo é, agora, passar a Roma…

O cacto

Brahimi -- que pena!

O FC Porto começa bem a Liga, com um futebol prometedor e um onze que faz sentido, equilibrado em todos os sectores e forte, mas há coisas por explicar… O FC Porto contrata o gigante Depoitre quase ‘in extremis’, sem saber ou com a convicção de que o pode utilizar frente à Roma… Difícil de entender… Há jogadores que parecem condenados a sair, como são os casos de Aboubakar e Brahimi. O argelino é um caso de talento desperdiçado. Tem tudo para ser um jogador de top, mas falta-lhe consistência mental… Falta-lhe mentalidade de campeão… E, quando assim é… A defesa parece incompleta…



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