O engenho (eleitoral) e as… circunstâncias

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O Sporting vai a votos no próximo dia 4 e os respectivos associados têm duas hipóteses de escolha: manter a confiança em Bruno de Carvalho (Lista B), na sequência de um primeiro mandato bastante agitado, fruto da personalidade do actual presidente ou apostar num novo ciclo, através de Pedro Madeira Rodrigues (Lista A), uma figura até agora pouco conhecida do universo leonino, que propõe uma nova liderança para o clube de Alvalade.

Bruno de Carvalho (BdC) tem a seu favor a coragem de ter interrompido um longo ciclo de gestão, iniciado com o advento das SAD em Portugal, ciclo esse que afastou o clube da regularidade de conquista de títulos, no futebol, e o aproximou de uma situação financeira muito complicada, mas tem contra si próprio – depois de muitas promessas de conquistas e um discurso superambicioso -- um registo de resultados, esta época, muito negativo, na sequência do forte investimento feito pelo presidente do Sporting, nomeadamente com a contratação de Jorge Jesus, depois da saída deste do Benfica.

Pedro Madeira Rodrigues (PMR), depois de dar a conhecer a sua vontade de avançar para a candidatura à presidência dos leões, teve um começo frouxo, com algumas aparições pouco conseguidas e mal ponderadas em espaços televisivos, e tem tentado ultimamente reposicionar-se, desmultiplicando-se – como lhe compete – em inúmeros contactos com a sociedade sportinguista, tentando covencê-la de que, depois de uma entrada de leão, BdC acumulou tantos e tão graves erros que não merece nem mais uma oportunidade na liderança do Sporting.

Parece claro, pelo frenesim dos últimos dias, que o avanço de PMR careceu de uma melhor preparação. Apesar de perceber que as circunstâncias muitas vezes aceleram processos e decisões, não acredito nem entendo que uma candidatura à presidência de um clube se prepare num par de meses. PMR teve esse handicap e está, agora, a tentar reencontrar os melhores timings de revelação das suas apostas mais emblemáticas, como o fez agora – antes do debate – com o anúncio de Laszlo Boloni para o cargo de director desportivo, com competências e funções alargadas, e do ex-jogador Delfim para as tarefas de ‘team manager’.

São escolhas que dizem alguma coisa aos sportinguistas mas que se perdem, creio, numa certa memória histórica. Boloni fez parte de uma conjuntura irrepetível. Não me parece que represente mais do que uma mera mudança de estilo, na qual se encaixa também o correctíssimo Delfim. PMR é isso que quer mudar no Sporting, independentemente das questões técnico-desportivas; quer mudar a postura, o estilo, o discurso, e esse pode ser, eventualmente, o seu maior trunfo. Há muita gente no Sporting que não se revê na beligerância, na procura incessante do conflito, na cultura do ‘eu’ e do desprezo por uma certa tolerância democrática, das quais o presidente dos leões, por uma questão de feitio, tem sido protagonista.

De repente, o Sporting vê-se mergulhado numa contradição: um basista-populista, Bruno de Carvalho, crítico em relação a todos aqueles que alimentaram a linha de gestão anterior, apoiado por um dos mais ferozes representantes do elitismo sportinguista, José Maria Ricciardi; e um quase desconhecido representante da classe média leonina, Pedro Madeira Rodrigues, a ser apoiado por um conjunto alargado de ex-apoiantes desse basismo-populista personificado por Bruno de Carvalho. As circunstâncias aguçam o engenho e o engenho aguça as circunstâncias…

O debate desta quinta-feira, na Sporting TV, era importante igualmente para se perceber a estratégia de cada um dos candidatos. E nesse detalhe tivemos a expressão de uma meia-surpresa ou, se se quiser, de mais uma contradição: o ‘não institucionalista’, BdC, a tentar resistir à tentação demoníaca do seu próprio ADN e a ser mais institucional; o institucionalista PMR, percebendo que tinha se endurecer o discurso para conseguir mais alguns votos, a enveredar por uma postura mais acutilante, aqui e ali, mais agressiva e, nalguns casos, muito próximo daquilo que estamos habituados a ver em BdC. As circunstâncias a aguçarem o engenho.

Vou desenvolver, naturalmente, este tema e detalhar algumas questões específicas do debate que me pareceram particularmente interessantes, mas para já fica a convicção de que o frente-a-frente não vai dar mais votos a BdC e que PMR pode ter capitalizado a simpatia de alguns indecisos entre aqueles que não se revêem no estilo de liderança (mais do que os resultados globais) de BdC. Aliás, o maior inimigo de BdC ainda não é PMR – apesar dos avanços deste; é o próprio… BdC. O que pode concorrer – sim ou não – para a aproximação de PMR, inicialmente candidato a uma goleada, e, talvez, para uma maior abstenção.

JARDIM DAS ESTRELAS (4 estrelas) - "Mitrogoolo" ... decisivo!

Bom jogo, ontem, na Luz, muito valorizado pela resposta do Chaves. Um jogador em especial evidência: Mitroglou. O ponta-de-lança grego, que havia sido decisivo em Braga, "inventando" um golo muito importante, voltou a facturar, agora duas vezes, a abrir e a fechar o marcador. A influência do avançado do Benfica não se resume 'apenas' aos momentos de finalização; as suas movimentações no ataque são fundamentais para a desestabilização das defesas contrárias.

Destaque ainda para Nélson Semedo e Ederson, cujas saídas estão a ser preparadas pelo presidente do Benfica no sentido de um grande encaixe no final da época. Sinal +, também, para o critério do Chaves nas saídas em ataque organizado ou em contra-ataque e para o golo de Bressan. Um ambiente magnífico na Luz, na noite de 'Mitrogoolo'.

O CACTO -'Grosseria' de Telles

A forma como o FC Porto se auto-anulou perante a Juventus não pode deixar de merecer cuidada reflexão dos responsáveis portistas. Alex Telles é um jogador de qualidade e vinha tendo um papel de grande relevância no onze azul-e-branco. Contudo, a forma como concorreu para a sua própria expulsão, num jogo de tamanha responsabilidade, comprometendo o esforço colectivo e os objectivos do clube, que precisa muito de 'encaixes' suplementares, não deve ser desvalorizada. Fala-se tanto dos erros grosseiros dos árbitros e perante eles há tolerância zero, mas perante um erro tão grosseiro de um jogador a tolerância é enorme. Dá que pensar.

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