O legado de Cruyff no contexto português

Adicione como fonte preferencial no Google

Johan Cruyff era adepto da simplicidade no futebol mas dizia que jogar simples (com eficácia) era uma coisa muito difícil de alcançar.

Simples é a compreensão de que, para se ganhar um jogo, é preciso marcar mais um golo do que o adversário. Não é preciso ser um génio para se pensar assim, mas a verdade é que, sendo um jogo de futebol um conjunto infinito de soluções para se chegar ao golo, são muito diversas as 'fórmulas' (técnico-tácticas) para se tentar chegar à vitória.

Há quem jogue deliberadamente ao ataque e não ganhe. Há quem jogue deliberadamente a defender e ganhe. Há quem jogue com maior ou menor propensão atacante e obtenha resultados diferenciados.

Não há, pois, uma 'fórmula universal' para se alcançar o êxito. No entanto, o êxito - independentemente do modo como é alcançado - passou a ser o mais importante no futebol de (alta) competição. Nessa procura, um jogo de futebol pode ser um momento verdadeiramente espectacular e entusiasmante como pode ser, no seu adinamismo e no seu hermetismo táctico, algo profundamente entediante e aborrecido.

É por isso que não posso deixar de valorizar, no futebol, os contributos de figuras como Johan Cruyff e os antecessores, Jack Reynolds e Rinus Michels, grandes patrocinadores da ideia de 'futebol total'.

Percebo que há, também, inúmeras formas de observar o jogo e é por isso que vejo muitas vezes fazer-se a exaltação do jogo jogado em Portugal quando, na verdade, não consigo ver nessa exaltação o conjunto de virtudes que lhe atribuem.

Colocar uma equipa a defender bem é uma 'arte', como pode ser encarado como uma 'arte' colocar uma equipa a atacar bem. Contudo, a 'arte suprema' - aquilo que distingue verdadeiramente os treinadores - consiste na capacidade de colocar uma equipa a defender e a atacar bem, simultaneamente. Por isso, sou adepto do 'futebol total', a sua implementação depende do enraizamento de alguns princípios e, por isso, corresponde à difícil capacidade de se construírem 'escolas' (como as do Ajax e do Barcelona) em torno de um conceito.

A conceptualização do 'futebol total' não tem, no terreno, mais seguidores porque se trata de um processo muito difícil de pôr em prática. Corresponde à exigência máxima e obriga a um compromisso entre treinadores e jogadores e as respectivas 'estruturas' de apoio, numa 'rede' que é muito fácil de fazer falhar, sobretudo num futebol em que o 'mercado' e os empresários estão cegamente focados no dinheiro e pouco ou nada virados para a salvaguarda dos conceitos.

Por isso, valorizo imenso o papel do Barcelona no futebol moderno. E nele Johan Cruyff teve uma acção decisiva - sem esquecer a derivação que Pep Guardiola introduziu, com a aposta ainda mais radical naquilo que significa a posse de bola, a perda e a recuperação da dita cuja - não apenas como treinador, mas também como um dos mais completos jogadores da história do futebol mundial.

Johan Cruyff jogava com a compreensão do 'futebol total'. Ele era um 'jogador total'. E um 'jogador total' fica mais próximo do 'futebol total' e do que representa um 'treinador total'.

Hoje, a maioria dos treinadores, confrontados com orçamentos e recursos tão díspares, joga para o ponto e para o euro. O emprego acima de tudo. Costuma-se dizer que sem ovos não se fazem omeletas, mas nem essa asserção é universal e definitiva, porque são sobejamente conhecidos os exemplos de cucos a fazer o ninho atrás das orelhas de anafados hipopótamos ou de outros animais de grande porte.

Em Portugal, sem deixar de atender à questão dos recursos, há muitos treinadores a jogar com os chamados 'blocos baixos', na convicção de que, com eles, é mais fácil chegar ao ponto. Entendo. Pensar pequeno é uma via, pode dar ponto(s), mas os grandes treinadores serão sempre os que ganham, naturalmente, mas aqueles que são capazes de aliar a qualidade do jogo - nas suas diversas dimensões - ao resultado. São aqueles que são capazes de inovar e de ousar. E de extrair tudo o que o futebol pode. E o máximo que o futebol pode dar são as diversas representações do 'futebol total'.

É o caminho mais difícil, mas não há outro se quisermos manter o futebol no topo das modalidades desportivas mais atractivas: os treinadores serem exigentes e os jogadores perceberem que podem ser melhores. É o legado que Cruyff deixa e é com ele que devemos projectar o futuro.

NOTA - Meu caro Quinito: aproveita esse dom que Deus te deu (de seres diferente) e aproveita-o em vida para o partilhares com quem te quer bem. O futebol quer-te bem. Não o culpes nem te culpes a ti próprio. Precisamos (todos) de gente que faça a diferença. E tu sempre foste um campeão a fazer a diferença.


Texto escrito com a antiga ortografia

O CACTO

Preocupante Seleção Nacional

Quem tem a ambição de conquistar o Europeu, como declaradamente Portugal diz, não pode voltar a desperdiçar as oportunidades que criou ontem frente à Bulgária.

Este Europeu, em França, pode ser uma grande oportunidade para a Selecção Nacional. A última oportunidade para muitos dos jogadores conseguirem algo de verdadeiramente histórico nas suas carreiras, no espaço das Selecções. O sorteio ajudou, como se sabe, mas doses de desperdício iguais às que se verificaram ontem, à noite, em Leiria, levarão Portugal ao fracasso.

Preocupante.

Preocupante Pepe (muito mal!), preocupante meio-campo (não se viram especiais rotinas em William-Adrien-João Mário), preocupante ataque (Nani fora de posição) e preocupante Cristiano Ronaldo, que fez um dos jogos menos assertivos por Portugal.

Mais preocupante ainda - mesmo havendo tempo para correcções até à fase final do Europeu - é não haver a certeza qual o sistema táctico que melhor se adapta às características dos nossos jogadores. O 4-4-2 de ontem, com Nani e Ronaldo 'assistidos' por João Mário e Rafa, não funcionou. Viram-se alguns movimentos interessantes, mas pouco espírito de corpo e fundamentalmente pouca consistência.

A Bulgária não sabe como é que ganhou o jogo, mas a verdade é que ganhou. E ganhou sem nunca dar a ideia de ser uma (boa) equipa. Também por isso Fernando Santos não pode deixar de estar preocupado. E precisa de agir já na terça-feira.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade