Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

O 'mau perder' de Rui Vitória

Quando um dia Rui Vitória sair do Benfica, não sei se alguma vez se ficará a conhecer a verdadeira estória das autonomias, da independência técnico-desportiva do treinador dos ‘encarnados’ e da relação com o ‘núcleo duro’ da estrutura com capacidade de decisão sobre o futebol do clube da Luz.

A percepção da opinião pública oscila entre o reconhecimento de um treinador que, genericamente, ‘sabe estar’ no futebol, fazendo um esforço para ladear as questões mais sensíveis e não se tornar polémico e a convicção de que Rui Vitória tem um fraquíssimo poder de encaixe, sempre que as coisas não lhe correm bem ou não correm bem ao Benfica.

Não se sabe muito bem qual é o verdadeiro Rui Vitória, porque o Benfica, com ele, só perdeu 8 vezes na competição principal e o empate em Chaves foi o 16.º no campeonato, desde que assumiu as funções de treinador dos ‘encarnados’. Significa portanto que, na prova mais importante do calendário nacional, Rui Vitória e o Benfica ganharam 77% das vezes, pelo que se torna mais fácil — como dizer? — manter a postura…

A verdade, porém, é que Rui Vitória abandona quase sempre essa postura de treinador equilibrado, pacífico, ‘bem formado’, colaborante e inocuamente explicativo, para se tornar numa (quase) fera, quando as coisas não lhe correm bem.

… E as coisas não lhe correram bem em Chaves, e a responsabilidade não foi de João Capela, cuja mensagem Rui Vitória não perdeu tempo em passar. A responsabilidade foi, primeiro, do treinador e da equipa e, se houve alguma responsabilidade de João Capela como chefe da equipa de arbitragem, ela não teve o impacto que o treinador do Benfica quis fazer passar.

Vejamos, em relação aos lances mais polémicos:
1) A entrada de Conti sobre João Teixeira, registada 7 minutos antes do golo do empate, foi perigosa e com força excessiva — e o cartão vermelho foi exibido de acordo com as ‘leis do jogo’.
2) O lance ocorrido muito perto do intervalo, de uma falta cometida por Ghazaryan sobre Gabriel, em que ficaram dúvidas se a infracção foi praticada fora ou sobre a linha da grande área (portanto, dentro), gerou da parte da comunicação do Benfica o seguinte comentário: "…mas alguém tem dúvidas que o árbitro e o VAR viram esta grande penalidade que ficou por marcar?" Quer dizer: uma questão de escassos centímetros serviu para a ‘Benfica Press’ afirmar que o árbitro e o VAR viram o suposto penálti e, deduz-se facilmente, não o quiseram assinalar.

Se se tratassem de lances em que, objectivamente, o Benfica saíra sem dúvida prejudicado, ainda se poderiam aceitar determinadas formas de protesto, mas nunca da forma como esses protestos têm vindo a ser protagonizados na praça pública. É fácil atirar as culpas para os árbitros, e esse infelizmente — com razões ou sem elas — tem sido um comportamento recorrente no futebol em Portugal. Um comportamento errado e danoso para a imagem da bola indígena.

O Benfica não ganhou em Chaves acima de tudo por erros próprios:
1) Esteve duas vezes em vantagem e não conseguiu geri-la.
2) Sofre um primeiro golo na sequência de um livre directo — que ‘barreira’ era aquela?
3) Sofre um segundo golo em pleno tempo extra, a escassos instantes do final da partida, sem pressão sobre os diversos portadores da bola do Chaves, depois de ter chegado à vantagem a poucos minutos do fim do jogo.
4) Sofre esse golo depois de Conti se ter dado à expulsão.
5) Sofre esse segundo golo, num jogo em que, na verdade, o Chaves fez tudo para pontuar, com uma exibição de grande qualidade.
6) Ter 4 avançados (potencialmente titulares) para 1 lugar não aconselharia a jogar com 2, regularmente?

Custa muito perder pontos nos instantes finais de qualquer partida, sobretudo quando se revela enorme dificuldade para se conseguir chegar à vantagem, como foi o caso. Todavia, é preciso perguntar a Rui Vitória a razão pela qual o Benfica foi perdendo o controlo do meio-campo (Pizzi, Gabriel e, depois, Gedson foram sempre engolidos pela intensidade do ‘miolo’ do Chaves) e como é que Gedson passa, repentinamente, de determinante na melhoria de produção do Benfica a irrelevante no rendimento dos ‘encarnados’.

Foram os desequilíbrios da equipa do Benfica, a incapacidade de segurar o jogo e o resultado, a capacidade de resposta do Chaves e do treinador Daniel Ramos que desequilibraram a partida, acima da veia não protectora da equipa de arbitragem chefiada por João Capela. É isso que falta assumir, não apenas em relação a este jogo, mas em tudo o que se relaciona com os tempos conturbados que estamos a viver (e não apenas no futebol): assumir culpas próprias em vez de, pela comunicação, tentar arranjar bodes expiatórios e não respeitar as autonomias de ninguém, seja no Ministério Público, seja na organização do futebol, seja na comunicação social.

É neste plano que Rui Vitória se enquadra e os sinais são evidentes de um alinhamento com uma dinâmica de comunicação pré-concebida: é preciso criticar e colocar o foco em tudo o que desresponsabilize o Benfica das sua próprias culpas e dos seus excessos.

Por isso, é muito difícil de perceber ‘quem é’ efectivamente Rui Vitória e, nesta sua duplicidade, um dia ele será vítima do seu próprio algoz — evidentemente muito mais rico do que quando chegou ao Estádio da Luz.


JARDIM DAS ESTRELAS** - À porta fechada? Só a gargalhada!

O mau comportamento dos adeptos nos jogos de futebol é uma matéria sensível, que promete continuar a fazer correr muita tinta.
O Conselho de Disciplina da FPF já havia sublinhado, no seu último relatório, que "esse comportamento, (…) quando assenta na deflagrac¸a~o e arremesso de objetos perigosos, representa uma das manifestac¸o~es de viole^ncia no desporto e, entre outras tantas conseque^ncias negativas, assume-se como um factor de inseguranc¸a e perigo para os espectadores e todos os agentes desportivos que participam num espeta´culo desportivo". Chegou, pois, o momento em que era impossível não haver castigos de jogos à porta fechada, sob pena de a justiça desportiva aceitar ser uma figura pouco mais do que decorativa, incapaz de tomar decisões que afrontem os poderes instituídos.
O futebol português não se corrige, os principais clubes não querem aceitar que não podem mandar em tudo e que os métodos utilizados para condicionar as decisões são absolutamente intoleráveis. Tudo é susceptível de recurso (os advogados e os seus escritórios agradecem e rejubilam com tanto ‘caso’), com custos impensáveis, e até saltaram muitas figuras a patrocinar a ideia de que a ‘porta fechada’ é um mecanismo anti-futebol. Controlem melhor os adeptos, naquilo que podem fazer, e verão que a ‘porta fechada’ não acontecerá. De resto, um Benfica-FC Porto, à porta fechada, significaria uma decisão do TAD em 8 dias. À porta fechada? Só se for uma sonora gargalhada.



O CACTO -Braçadeiras
Braçadeiras de capitão não devem servir para se tentar dar responsabilidade a quem não a sabe usar. Nem em Manchester nem em Lisboa, nem em lado nenhum. Nunca dá certo.

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