O que Rui Vitória não pode ver
Já disse aqui e defendi várias vezes que, no pós-Jorge Jesus — seis anos não são seis dias e corresponderam a uma fase muito marcante do futebol do Benfica —, a escolha do seu substituto tinha de obedecer a um conjunto de pressupostos, o mais importante dos quais relacionado com o perfil do novo treinador. Esse novo treinador não se podia colocar em bicos de pés em cima do escadote da sua autonomia técnico-desportiva; tinha de condicionar essa teórica autonomia aos cumprimento da estratégia da SAD do Benfica e do seu presidente.
Rui Vitória tinha de funcionar como uma extensão da SAD e de Luís Filipe Vieira e, para isso, era preciso mostrar dotes de ventriloquismo.
Vejo Rui Vitória como ventríloquo — em todas as questões relacionadas com a osmose que era preciso fazer emergir entre os pressupostos do projecto desportivo e financeiro e a área estritamente técnico-táctica — e nisso ele tem sido de uma fidelidade e competência assinaláveis. Quando a exigência sobe e Rui Vitória precisa de fazer valer, nesse momentos, a sua condição e estatuto de treinador bacteriologicamente puro (não-ventríloquo), e isso acontece em poucos jogos das competições nacionais e fundamentalmente em ambiente-Champions, o seu contributo e a sua eficácia não são tão assertivos.
Não tenho dúvida de que, considerando os antecedentes e os desafios que se apresentam pela frente, este ventriloquismo era necessário na fase de afirmação do futebol do Benfica, quando o clube ‘encarnado’ queria, acima de tudo, reunir as condições para fazer destacar o seu projecto global e não tanto, como vinha acontecendo, a figura (central) do treinador, mas também não me restam muitas dúvidas de que, se tiver sucesso na combinação do êxito desportivo com o objectivo de um certo saneamento financeiro, chegará o dia em que o Benfica fará o seu ‘upgrade’ no sentido de dar corpo à exteriorização de um futebol mais competitivo, sobretudo quando as exigências crescem, como foi agora manifestamente o caso da eliminatória com o B. Dortmund, na Champions.
Quer dizer: há coisas que Rui Vitória não pode ver, nem lhe interessa ver, porque sabe muito bem que só é treinador do Benfica nestas condições de pressão e temperatura, e de resto isso nem parece constituir problema, porque antes de rumar à Luz nunca se vira Rui Vitória num registo muito diferente, e mesmo na Luz quando endurece o discurso já se percebeu que é no momento da militância ventriloquista.
Por exemplo, quando se desenvolveu o ‘caso Luisão’ — vende, não vende, operação abortada - Rui Vitória fez aquilo que achou ter de fazer, isto é, gerir a situação com os jogadores que tinha. E geriu bem, porque o ‘caso’ tinha tudo para correr mal, em termos de recuperação do ‘capitão’, e acabou com uma reconciliação praticamente perfeita.
Quando Gonçalo Guedes foi colocado na rampa de transferência para o PSG, o assentimento foi total, porque o projecto global também pressupõe vender jogadores sempre que surgir oportunidade — os fixados em 15M€ e fundamentalmente os outros — e é preciso contar com a compreensão e a colaboração do treinador. Porque há sempre a hipótese do treinador se opor ou criar alguma resistência às saídas.
Há coisas, portanto, que Rui Vitória não quer ver, ou seja, é melhor que não veja. E há outras coisas visíveis que não são da sua responsabilidade, mesmo que as veja: a Liga portuguesa está longe de exigir às grandes equipas nacionais que joguem em regime de alta e às vezes máxima intensidade e isso paga-se em ambiente de Champions, como se viu agora nesta eliminatória com o B. Dortmund: os alemães foram mais fortes. Não é que o Benfica não tenha argumentos técnicos e jogadores de nível. É uma questão de ritmo competitivo e, nesse aspecto, as equipas portuguesas têm muitas dificuldades…
Há situações que Rui Vitória vê, mas contra as quais nada ou pouco pode fazer: o nível elevado de lesões que tem perseguido a equipa desde que chegou à Luz - e, nesta fase, por exemplo, precisava muito do (melhor) Jonas que não tem tido à disposição e o obrigam a testar a terceira melhor ‘fórmula’ depois da transferência de G.Guedes, a sair entre Pizzi, Zivkovic, Rafa, Jiménez e de jogadores que podem aparecer em terrenos mais interiores como Salvio, Cervi e Carrillo.
E é neste âmbito que Rui Vitória enquanto — como dizer? — treinador-treinador tinha obrigação de ver (à dimensão de um treinador para o Benfica) que o plantel não tem grandes soluções quando Fejsa e Pizzi não estão em condições e que, no jogo em Dortmund, faltou mais Jiménez e faltou Rafa, para além de começar a ser demasiado óbvio que, quando há mexidas no modelo táctico (de origem), a equipa ressente-se e Nélson Semedo não pode estar tão desprotegido. Isso Rui Vitória tem de ver.
JARDIM DAS ESTRELAS - Soares muda FC Porto
Manuel Machado, treinador do Arouca, adversário do FC Porto ontem no arranque da jornada 25, sentiu-se injustiçado por alegadamente Soares, que foi seu pupilo no Nacional, não lhe ter reconhecido qualquer mérito numa carreira a conhecer agora o seu ponto mais alto. Estava enganado. Soares, numa recente entrevista, elogiara-o, sem quais quer reticências. Há momentos assim. Infelizes. E Soares volta a marcar, e é um dos grandes responsáveis do crescimento do FC Porto como equipa. Outro é Brahimi: a meter o individual no colectivo. Parece outro. E Óliver e André André, com Danilo, entre ambos, são o cimento da consistência do FC Porto. Que se reflecte na qualidade do jogo ofensivo e… defensivo, com Felipe e Marcano ‘em grande’. E Soares ainda ofereceu a camisola do jogo a… Manuel Machado. Ingratidão?!…
O CACTO - 'Barça' ao colo
Olhamos para o resultado de 6-1 do Barcelona sobre o PSG e para a proeza da ‘remontada’ (de 0-4) em Camp Nou e há naturalmente a tentação de sublinhar os méritos da equipa orientada por Luiz Enrique, que foram muitos mas não tantos como aqueles que, em condições normais, lhe deveriam ser creditados. É que o jogo acabou numa inundação de lágrimas e emoções mas ficou marcado por uma arbitragem muito negativa de Deniz Aytekin, que empurrou claramente o ‘Barça’ para um momento histórico, ao assinalar dois penáltis do arco-da-velha. E é assim que as equipas, às vezes, fazem a diferença. Ao colo.
