O rei vai nu e... árbitros na Ásia?

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A nomeação do árbitro lisboeta Tiago Martins para o grande jogo da jornada 22 que se realiza amanhã em Braga provocou nos últimos dias as mais diversas reacções.

Está ainda fresca na memória das pessoas a expulsão de Rui Vitória do Moreirense-Benfica, cujo desfecho — há menos de um mês — colocou os ‘encarnados’, surpreendentemente, fora da Taça da Liga. Um jogo em que a equipa da arbitragem foi chefiada precisamente por Tiago Martins, a partir do qual Rui Vitória teve de cumprir 15 dias de castigo.

E a pergunta é legítima: nestas condições, faz sentido esta nomeação do Conselho de Arbitragem? Há quem a veja como um acto de coragem; há quem a veja como uma provocação.

Eu vejo como um sinal de ‘porreirismo’ mal calculado… a dispensa de Artur Soares Dias e Jorge Sousa para dirigirem jogos no Qatar e na Arábia Saudita!

Olhe-se, primeiro, para as nomeações do actual Conselho de Arbitragem (CA) considerando os jogos que já colocaram ou colocam frente-a-frente os 4 primeiros classificados da época passada (Benfica, Sporting, FC Porto e Sp. Braga):

Sporting-FC Porto: TIAGO MARTINS

Benfica-Braga: Jorge Sousa

FC Porto-Benfica: Artur Soares Dias

FC Porto-Braga: Carlos Xistra

Benfica-Sporting: Jorge Sousa

Sporting-Sp. Braga: Hugo Miguel

FC Porto-Sporting: Hugo Miguel

Sp. Braga-Benfica (amanhã): TIAGO MARTINS

Conclusão inelutável: Tiago Martins, de Lisboa, é — entre os mais recentes ‘internacionais’ da arbitragem portuguesa — o que vem merecendo maior confiança de José Fontelas Gomes e seus pares. Teve sinal dessa confiança no primeiro grande clássico da época e volta a ser nomeado para um jogo muito importante deste campeonato: amanhã, na visita do campeão nacional a Braga.

Nem Fábio Veríssimo (Leiria), nem João Pinheiro (Braga), nem Luís Godinho (Évora) têm tido a mesma atenção e deferência por parte do CA e isso mostra uma preferência.

Segunda conclusão, na sequência da primeira: para este CA, Tiago Martins parece estar cotado imediatamente a seguir a Artur Soares Dias e Jorge Sousa, mais ou menos no mesmo plano de Hugo Miguel. Significativo.

Veremos, amanhã, como Tiago Martins reagirá a uma nomeação arriscada. Um árbitro, seja ele quem for, deve ser preparado — sempre num imenso caudal de dificuldades, adensadas em Portugal pelo facto de ninguém confiar em ninguém, por causa dos antecedentes do mundo da arbitragem no futebol português — para entrar em campo com o propósito de cumprir o que está determinado nas leis do jogo, independentemente das pressões que se fazem sentir, principalmente antes e durante os jogos.

Há muito que advogo um total isolamento do universo da arbitragem em relação aos clubes e às instituições que tutelam o futebol.

Defendo há muitos anos que o sector da arbitragem devia funcionar autonomamente, com organização e financiamento próprios. Seria mais fácil o exercício da independência; seria mais fácil ainda não ter de prestar contas aos clubes, que protestam sempre quando não ganham. Este mecanismo de receber os clubes, dar explicações por tudo e por nada, aceitar reuniões privadas (como já acontecia com Vitor Pereira) é meio caminho andado para se ficar refém dos poderes mais fortes. A gestão fica difícil, eu diria quase impossível.

Acresce que vivemos num país em que o futebol tem uma apetência especial para dar protecção à… protecção que as seguranças privadas e as claques dão aos dirigentes e chegamos ao cúmulo da impunidade que é não reagir e não tomar medidas severas contra ‘invasões’ — aparentemente bem identificadas — ao centro de treinos dos árbitros.

Esta impunidade é mais do que uma ameaça à Verdade Desportiva e é a vitória da coacção sobre os mecanismos de regulação do futebol. Nem a Disciplina, nem a Arbitragem estão a conseguir lidar com este fenómeno que tem muitos anos em Portugal e, por isso, vemos actuações erráticas, consoante as ‘vagas de pressão’ o permitem.

Já tivemos esta época uma pré-nomeação desmarcada, já assistimos ao recuo na aposta dos mais jovens árbitros internacionais e depois à sua retoma, vemos uma tentativa de não aceitar vetos, vemos ainda e agora Artur Soares Dias e Jorge Sousa serem dispensados dos jogos este fim de semana para dirigirem jogos no Qatar e na Arábia Saudita, isto é, tudo super errático e inconsistente, numa gestão à vista muito… movediça.

Acresce que o título este ano, entre Benfica e FC Porto, promete ser discutido palmo a palmo e, também por causa disso, as pressões prometem aumentar — e já suficientes e preocupantes sinais disso. Queremos estar em bicos de pés para exportar mas não somos capazes de reconhecer que, cá dentro, o rei vai nu. Não esperem pela demora.

NOTA - Ontem, no Dragão, percebeu-se a importância da natureza das arbitragens no futebol em Portugal.

JARDIM DAS ESTRELAS (4 estrelas) - Ederson voa alto

Foi a semana do Benfica, que venceu o B. Dortmund, por 1-0, num jogo que os alemães dominaram de forma pouco usual para quem costuma jogar na Luz, mas sem sucesso e durante o qual Ederson fez a sua melhor exibição com a camisola da águia, na senda dos excelentes desempenhos que já vinha protagonizando. O jogo 500 de Luisão também teve nota alta, numa jornada europeia que volta a colocar os treinadores portugueses (Mourinho, Paulo Sousa e Paulo Fonseca) em muito bom plano. Em Braga, Júlio César regressa à baliza, mas Ederson tem muito mérito na forma como conquistou a titularidade. E o Benfica esfrega as mãos de contente, porque com ele vai lucrar uns bons milhões…

O CACTO - Falta de classe…

Era bom que o clima de beligerância no futebol português abrandasse, mas isso só poderia acontecer se tivéssemos no dirigismo desportivo gente com classe. Aliás, creio que esse é um dos maiores problemas do futebol nacional: a falta de classe. Essa falta de classe e a insistência na acéfala rivalidade, como se todos vivêssemos no tempo das cavernas, a ver quem consegue arremessar mais longe o maior pedregulho, não permite ver o essencial. E o essencial é que os clubes portugueses precisam da Champions e da Europa para atenuar os efeitos dos seus vícios sistémicos, ultra despesistas, e, se Benfica e/ou FC Porto não tiverem agora um desempenho (ainda mais) positivo na Liga dos Campeões, Portugal corre o risco de só apurar uma equipa directamente, na época de 2018-19. E isso é mau, em tempo de vacas magras.

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