O vídeo-árbitro não cura a loucura

Adicione como fonte preferencial no Google

Não tenho dúvidas de que o futebol em Portugal precisaria de um ‘pacto de regime’. Urgente. Que deveria ser promovido ab initio pela FPF no âmbito dos seus máximos poderes. Para isso seria necessário que as relações entre ela e a Liga estivessem normalizadas e estabilizadas. Não estão. A FPF e a Liga estão a desaproveitar uma vantagem e um privilégio enormes conferidos por lei, que é o princípio da auto-regulação. Mais: a Liga ao dar sinais de que não consegue chamar para o mesmo espaço de debate, em reuniões institucionais, os três ‘grandes’ do futebol português, que têm aliás assento na respectiva Direcção, limitando uma hipotética vontade de intervenção da FPF, sem que esta fosse acusada de lhe ‘tirar o tapete’, considerando até o que está consignado nos estatutos da próprio LPFP, no seu artigo 8, ponto 2, alínea g), no que concerne às suas atribuições ("Fixar regras de sa~ convivência entre os associados e tentar dirimir conflitos entres eles que perturbem ou ponham em causa os princípios da ética desportiva ou o normal funcionamento das competições ou da própria Liga") mete um golo na própria baliza.

A pergunta que se coloca é esta: partindo do princípio de que o futebol português está muito, errada e historicamente, centralizado nos ‘grandes’, ao ponto de se colher quase sempre a sensação de que há Benfica, Sporting e FC Porto e que ‘o resto é paisagem’ (nada mais injusto para todo o movimento associativo, mas esta situação tem a montante a forma como foram distribuídas durante muitos anos as receitas resultados dos direitos televisivos, entre outros factores), por que motivo o presidente da Liga, Pedro Proença, antes de desafiar "todas as instituições do futebol português", — através de um artigo publicado num jornal desportivo — a debater numa "cimeira ao mais alto nível" todos os temas "que nos têm dividido", não promoveu esse encontro no espaço da própria Liga? Para que servem, de resto, as Assembleias Gerais?!

Não duvido nem quero duvidar das boas intenções de Pedro Proença, que sabe aliás a minha posição sobre este assunto: acho-o um dirigente com saberes e competências para valorizar o dirigismo desportivo, mas está no lugar errado. Nunca um ex-árbitro, ainda por cima com uma visibilidade tão grande como a que teve Pedro Proença, pode ser o tutor (chamemos-lhe assim) do futebol profissional. Ainda por cima num país em que os árbitros e as arbitragens preenchem mais de 75% do tempo do debate sobre as questões do futebol em Portugal, a partir do mau exemplo dados pelos dirigentes e presidentes dos clubes, ou por quem o protagoniza no seu lugar. Resultado: Pedro Proença é visto pelos clubes como alguém que pode influenciar os árbitros e há muitas tentativas de o instrumentalizar nesse sentido, como arma de poder condicionar as nomeações, que é uma forma de menorizar o papel de José Fontelas Gomes, o actual presidente do CA da FPF.

Não é bom, não é saudável e, por isso, temos aqui uma relação difícil entre a Liga e a FPF, a provocar ainda mais desunião e menos agregação, porque de um lado ajuntam-se os defensores do esvaziamento (total) da Liga e outros defendem uma intervenção mais musculada da FPF. Conclusão: há muita água a passar por debaixo das pontes e, para além disso, os principais clubes portugueses têm de fazer alguma coisa no sentido de refrear a natureza da sua comunicação.

O futebol português precisa de vídeo-árbitro, mas precisa também de remédio para a loucura. Porque o vídeo-árbitro não cura a demência, a propensão para o golpe baixo, esta deriva comunicacional que está a transformar o futebol português num manicómio.

O futebol nacional está montado em cima de um imenso arquipélago. Há cada vez menos ‘continente’ e mais ilhas, e nesta procura incessante de ‘mais poder’, perde-se o essencial: condições para agregar e colocar o foco nas reformas realmente estruturantes (como esta do vídeo-árbitro).

Vamos ter ‘mais verdade’ no futebol. Vai acabar a homologação dos resultados da mentira descarada. Nasce um novo paradigma. É um encontro com a modernidade. Esqueçam, no entanto – e quanto o lamento! – o acto de regime. Quando é mais fácil sentar à mesma mesa os líderes da Coreia do Norte e dos Estados Unidos, Kim Jong-un e Donald Trump, comparativamente aos presidentes do Benfica e Sporting, Luís Filipe Vieira e Bruno de Carvalho, algo está profundamente errado. O vídeo-árbitro é um grande avanço, mas os dirigentes e os chamados clubes ‘grandes’ têm de rever as suas práticas para que o ar, no futebol português, se torne respirável. Isso o vídeo-árbitro não resolve.

* Texto escrito com a antiga ortografia

JARDIM DAS ESTRELAS (5 estrelas)

Fernando Gomes

usou o poder

O presidente da FPF teve vários motivos para promover esta jogada de antecipação com a implementação da figura do vídeo-árbitro no próximo campeonato (2017-18), que serão dissecados no tempo certo, mas um desses motivos relaciona-se com o clima irrespirável que se vive no futebol português e com as lógicas de beligerância dirimidas pelos principais clubes portugueses, agora sobredimensionadas com a ‘solução’ de as direcções de comunicação se quererem substituir a todos. Querem fazer de governantes, de jornalistas, de árbitros, de nomeadores de árbitros, de juízes e justiceiros (na justiça desportiva) e, para isso, estão a deixar que pessoas com poucos escrúpulos dominem esta ‘selva’ em que se transformou o futebol português. O futebol precisa de gente independente em cargos que exijam independência (como são os casos dos Conselhos de Arbitragem e de Disciplina) e precisa de gente que não tenha medo de usar o poder que tem. Fernando Gomes leu a situação, percebeu os perigos em que se viu rodeado, e agiu. Com rapidez. O futebol é atirado para outra dimensão, mas é preciso fazer notar que os dirigentes têm de mudar de comportamento.

O CACTO

Alguém vai 

ficar mal...

Na sequência dos (7) processos disciplinares instaurados pelo CD da FPF, com base na participação feita pelo Sporting relativamente a alegados incidentes que terão ocorrido ao intervalo do jogo do dérbi, alguém vai ficar muito mal na fotografia. Ou o Sporting (se as imagens não confirmarem os fundamentos da queixa), ou o Benfica (se as imagens confirmarem comportamentos menos aceitáveis) ou os delegados e árbitros (no caso de terem omitido incidências graves). Mais um episódio que vai ajudar a esclarecer ‘quem é quem’.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade