Os tentáculos dos empresários
Quem conhece, minimamente, Jorge Mendes sabe que se trata de uma figura extremamente cativante. Simpático, simples no trato, amigo do seu amigo e capaz de estabelecer, com muita facilidade, pontes de relacionamento que o levam, rapidamente, à porta do(s) negócio(s).
A facilidade de relacionamento e de comunicação levou a que Jorge Mendes, nunca desprezando a importância do controlo sobre as potencialidades do mercado português, acabasse por traduzir a sua influência e capacidade de intervir em países tão diferentes e tão pouco ou muito permissivos como Inglaterra, Espanha, Turquia, França e outros, virando-se para a Ásia logo que percebeu a vitalidade da economia chinesa e do apetite de alguns magnatas (como Peter Lim, agora dono do Valencia, muito por influência do português).
O êxito de Jorge Mendes/Gestifute – que curiosamente tem muito a ver com o sucesso de José Mourinho no FC Porto e as operações de transferência (para o Chelsea) que se lhe seguiram, logo após o momento em que Cristiano Ronaldo assinou pelo Manchester United – é inegável e vem sendo reconhecido em muitos lugares do Globo terráqueo. Estes homens (Mourinho, CR e Mendes) são a face da mesma moeda e a imagem do futebol português está muito associada ao que eles têm feito de verdadeiramente excepcional, nas suas áreas profissionais.
Todavia, a polarização do ‘efeito Mendes’ à escala europeia e mundial tem diversas contra-indicações. Ele faz mover a indústria; é ele que multiplica o valor da inflação no futebol, e muitos têm ganho com isso. No entanto, tem acentuado um fenómeno perigoso e perante o qual os clubes não acham resposta. Apesar das vendas aparentemente generosas, com o contributo na esmagadora maioria dos casos de intermediações também generosas, os clubes e as SAD acusam passivos igualmente generosos e situações financeiras desequilibradas. Coloca-se então a pergunta: são os dirigentes/presidentes dos clubes que não sabem gerir ou são os empresários que contaminam os clubes, nalguns casos tomando conta deles e das suas orientações? Quem manda mais nos clubes/SAD: os presidentes e as respectivas direcções/administrações ou os empresários?
Os empresários têm uma função, não deve ser escamoteado o papel positivo na gestão de carreira dos jogadores, mas a sua actividade está francamente desregulada e isso pode ter consequências perniciosas na vida corrente dos clubes, de afectação da sua própria gestão, para além de entorses que distorcem a Verdade Desportiva.
No ‘Tempo Extra’, da Sic Notícias, iniciámos uma campanha a favor do ‘fim dos empresários’, não no sentido da extinção da sua espécime, obviamente, mas no sentido de impor algumas restrições à sua actividade, uma das quais passa por não dever ser possível, em cada época, estabelecer um número ilimitado de transações, com a chancela do mesmo empresário ou da mesma empresa de intermediação. É que, assim, os clubes estão a colocar-se – como ora acontece – numa posição de plataformas de negócios desses mesmos empresários, com a sua cumplicidade e com duvidosas vantagens para os clubes/SAD.
Já chamei a Jorge Mendes o ‘ministro dos Negócios Estrangeiros’ do Benfica. Luís Filipe Vieira já reconheceu, aliás, publicamente, que Mendes e a Gestifute são mais do que empresários; são parceiros de negócio. É evidente que, no plano nacional, fica difícil ao FC Porto ser parceiro de negócio da mesma Gestifute/JM, quando sabe que dificilmente conseguirá ‘tirar a cadeira’ de Mendes no ‘governo’ do Benfica, apesar de Mendes estar outra vez a marcar território, no Dragão… Mendes tem hoje mais poder do que a Olivedesportos teve no passado…
Quer dizer: haveria todo o interesse, por parte dos clubes, em criar estruturas próprias no sentido de limitar a intervenção dos empresários (nas negociações inter-clubes), que ficariam apenas focados na representação dos atletas, no momento da discussão dos respectivos contratos. Poupar-se-ia muito dinheiro, reduzia-se o peso da economia paralela do futebol, ficaria tudo muito mais transparente, cortavam-se os tentáculos e os clubes voltariam a mandar em si próprios…
Jardim das estrelas - Cristiano Ronaldo chegou ao topo
Tenho infinita admiração pelo trabalho realizado por Cristiano Ronaldo no futebol. Lutou contra si próprio (no início) e lutou "contra tudo e contra todos" os que contrariaram o reconhecimento de que estava ali, de facto, um futebolista de excelência (máxima). É assim que o vejo: mais do que um extraordinário futebolista, um superatleta. Que teve de trabalhar muito para atingir um nível de quase constante superação. Feito, parece fácil. Mas o exercício de persistência é uma tarefa que exige muito sacrifício e trabalho. CR tem a vantagem de fazer de espelho de si mesmo. Mira as imperfeições, o nível da evolução e faz do culto da imagem uma motivação extra para alcançar o patamar seguinte. Cristiano Ronaldo chega, agora, ao topo, com a renovação de contrato com o Real Madrid até 2021. Fá-lo depois de ter sido campeão da Europa por Portugal e de ter alcançado vários títulos individuais e colectivos no clube ‘merengue’. Atingiu a estabilidade pessoal e profissional, também porque soube vencer, em Madrid, alguns preconceitos internos. Um português ser o símbolo maior do ‘madridismo’ custa a engolir. Cristiano Ronaldo conseguiu-o. Basta ouvir Florentino Pérez.
O cacto - Herrera e os disparates
Para a nação portista, o disparate de Herrera no ‘clássico’ é difícil de engolir. Quando se está a ganhar um jogo pela diferença mínima, a escassos instantes do fim da partida, são os jogadores mais experientes que têm de se impor. Herrera fez o contrário. Foi displicente e infantil. Mas, por isso, não merece ser crucificado. O disparate maior foi o FCP não ter tido a percepção de que já o deveria ter vendido…
