Os 'vouchers' - a ponta do icebergue
Às vezes apetece-me falar ‘de bola’, do regresso do Pizzi à posição ‘8’ no meio-campo do Benfica (onde fica tão bem, como se viu em Kiev) ou do excesso de contratações ‘vazias’ da parte do Sporting ou da afirmação de Layún no FC Porto. Tenho para mim, no entanto, que o tempo de se falar ‘de bola’, em 80% dos casos, ainda vem longe, infelizmente, porque o futebol português e os seus principais protagonistas ainda não amadureceram o suficiente (fora das quatro linhas) para que esse propósito — de se falar principalmente ‘de bola’ — seja alcançado.
Quer dizer: fazer de conta que está tudo bem e falar apenas ‘de bola’ seria a mesma coisa que, num concurso de dança e com a pista torta — e mais torta em determinadas zonas e em especiais circunstâncias — olhar apenas para os bailarinos.
Mais: o futebol português não terá sucesso e não será devolvido ao espaço correspondente às quatro linhas enquanto não fizer, fora delas, a ‘limpeza’ e a correspondente ‘revolução cultural’. Tudo começa no dirigismo desportivo, a única classe no futebol que não tem qualquer tipo de formação e para a qual não se conhecem acções específicas e eficazes. E, nesse domínio, muita coisa poderia ser evitada se houvesse da parte dos presidentes uma maior consciência do seu papel social. Essa demissão é perigosa e inaceitável.
O ‘caso dos vouchers’, independentemente dos seus contornos
mais emocionais, projecta muito daquilo que é o futebol em Portugal. E vamos tentar ser claros, muito claros mesmo, colocando os nomes às coisas e às pessoas.
Comecemos por BRUNO DE CARVALHO, do lado do Sporting. Haverá sempre a tentação de discutir quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha. É uma discussão que não leva a lado nenhum e não vale a pena centrar a questão sobre quem começou a ‘guerra’ entre Sporting e Benfica, porque cada um dos lados aduzirá sempre um facto temporalmente mais relevante para fazer prevalecer a tese da ‘não culpa’. Contudo, há um facto incontornável que não ajuda nada: o presidente dos leões não consegue separar a sua condição de adepto ‘anti-Benfica’ (e aqui estabelece logo uma diferença para outros adeptos mais moderados) da sua função presidencial, que o obrigaria a outra postura institucional. Não está em causa lutar pelos interesses do Sporting e denunciar as situações, se algumas entorses - na leitura dos leões - começam no Benfica. O problema são as constantes declarações de desrespeito institucional perante o Benfica, e isso não é razoável. Se Bruno de Carvalho não mudar este aspecto, nada muda à sua volta.
O presidente do Benfica, LUÍS FILIPE VIEIRA, também não está isento de culpas, porque tudo o que acontece ou dentro do Benfica ou na periferia não deixa de ser da sua responsabilidade. Não se pode controlar tudo no momento, mas há directivas e correcções que se devem fazer. Uma dessas correcções tem a ver com a "comunicação do Benfica". A extrema agressividade do ano passado (através de um exército mobilizado para o efeito), através da qual, gabrielicamente, quem não alinhasse na propaganda levava por tabela, e isso não pode deixar de remeter a situação para os Pavlovs, as sinetas e os cachorros desta vida. Houve mudanças na comunicação do Benfica, a Direcção perde um dos seus elementos menos moderados, também com discurso de adepto (Gomes da Silva), mas o Sporting continua desconfiado porque acha que o ex-director de comunicação (João Gabriel) ainda se movimenta por trás e tem um grande poder de influência sobre o presidente. Há ou não há efectivamente uma mudança na natureza da comunicação do Benfica, promovida pelo presidente? O ‘faz de conta’ não serve para o apaziguamento necessário nas relações Benfica-Sporting e, neste aspecto, importa que LFV seja claro. Claro e firme.
O futebol português não pode continuar a achar que coacção sobre os árbitros, pressões e condicionamentos sobre as nomeações (como aconteceu durante anos a fio) ou, no plano oposto, ‘simpatias’ excessivas, que ultrapassam o ‘espírito da lei’ e as prendas simbólicas (simbólicas mesmo!) são comportamentos normais e defensáveis. Não são. Como não é normal entender-se como prática comum oferecerem-se receitas de jogos a adversários, em compita directa ou mesmo indirecta. E, aqui, voltamos ao início: como é que se pode falar apenas ‘de bola’ se não há no futebol português a compreensão do essencial? Ética, meus senhores. É assim tão difícil?! O ‘caso dos vouchers’ é mesmo a ponta do icebergue. O icebergue da ‘falta da basezinha’, como dizia o Eça.
* Texto escrito com a antiga ortografia
Jardim das estrelas (4 estrelas)
Luisão agarra-se
Notável a persistência de Luisão. Não se conforma com a ideia de que havia chegado ao fim, pelo menos daquela forma majestática a que nos habituou, durante anos a fio, no comando da defesa benfiquista. Outros ‘centrais’ mais jovens se revelaram (principalmente, Lindelöf) e outros confirmaram as suas qualidades, como foram os casos de Jardel e Lisandro. Quer dizer: para esse lugar, já houve fases de escassez no Benfica; agora, a fase é de abundância. E, nessa abundância, Luisão chegou a partir em terceiro ou mesmo em quarto lugar e, hoje, está de volta ao seu posto de liderança, como se viu nos jogos da Taça e da Liga dos Campeões. De tal modo, que já se fala em renovação contratual para além de 2017. Aí, bom, aí… outra águia pode e, se calhar, deve cantar…
O cacto
Flop leonino nas aquisições?
Começa a ser óbvio que o Sporting, apesar de ter contratado muitos jogadores, para obviar as saídas de Slimani e João Mário e manter um plantel competitivo, ainda não conseguiu provar a justeza das aquisições. São muitos jogadores a nada mostrar (André, Petrovic, Meli e Castaignos), outros que emitem sinais pouco convincentes de retoma (Campbell, Markovic e Elias) e, em relação à época passada, os laterais baixaram o rendimento (Schelotto, Jefferson e Zeegelaar a jogar pouco), ressentindo-se todo o colectivo. A situação piorou com a lesão de Adrien, porque — ‘sem’ laterais e com um ‘miolo’ pouco activo — a equipa perde ligação e não consegue jogar com a intensidade a que nos habituara. A pergunta faz todo o sentido: há um flop leonino nas aquisições?!…
