Pacto de silêncio?!... E o perigo de sufocar?
Bruno de Carvalho desvalorizou o contributo que os dirigentes possam ter no incremento da violência no futebol português, sublinhando que, genericamente, o discurso dos presidentes ‘não gera ódio’ e "serve para tirar a pressão da panela", alertando para o muito trabalho invisível que é feito — nomeadamente neste caso pelo clube de Alvalade — para bloquear os adeptos problemáticos e perigosos.
Não duvido das dinâmicas, praticamente imperceptíveis em termos públicos, que possam ser feitas no sentido de bloquear alguns desses adeptos, quase todos ligados às claques. Mas duvido da eficácia. Quero dizer: o grau de eficácia é ainda muito reduzido e, para se chegar a essa conclusão, basta perceber e alcançar o raio de acção que é conferido aos líderes dessas claques. Não tenho dúvidas de que esse é o caminho, não apenas no caso do Sporting, mas no caso de TODOS os clubes, tenham eles claques legalizadas ou não, mas duvido que haja uma percepção global que têm de ser os clubes — em acção concertada com o Estado e com as autoridades policiais — a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para separar o trigo do jogo e ‘limpar’ o futebol de presenças indesejáveis, que se sirvam dele para semear a violência.
Já que o Estado não dá o pontapé de saída — como aconteceu em Inglaterra para acabar com o problema sério do hooliganismo — têm de ser os clubes a fazer, voluntariamente, esse trabalho. E se, como parece, a acção não puder ser concertada, porque está cada vez mais distante a ideia de dialogo institucional entre os chamados três ‘grandes’ do futebol português, então que seja cada qual a fazê-lo, sem se preocupar com o que, a este nível, possa acontecer na casa do vizinho.
A realidade actual, com diferentes graus de descontrolo ou perigosidade, de deixar os adeptos/claques à solta, ao sabor dos seus ímpetos, ainda por cima num grau de grande proximidade dos principais dirigentes com os chefes das claques, não pode continuar. Não tenho dúvidas de que a morte ocorrida na madrugada do recente Sporting-Benfica foi uma consequência do crescente clima de intolerância que se instalou no futebol em Portugal nos últimos anos, amplificado com a mudança de Jorge Jesus da Luz para Alvalade e com o reforço das estratégias e dos métodos utilizados pelas direcções de comunicação, com o FC Porto a ter de fazer, mais recentemente, alguns ajustamentos nesse domínio, apercebendo-se de que estava a ficar para trás, considerando a agressividade colocada em campo quer por Sporting quer por Benfica, até se chegar ao ponto actual de um ruído ensurdecedor. Não é uma questão de os meter todos (os socos) no mesmo saco… Os sacos até podem ser diferentes, mas todos (os presidentes) têm responsabilidades… e muitas! As claques e as cartilhas não são exemplo para ninguém.
Naquilo em que não estou de acordo com Bruno de Carvalho é na ideia de que a ‘troca de galhardetes’ entre presidentes dos clubes mais representativos seja uma coisa mais ou menos folclórica, que faz parte risível e ludicamente do espectáculo que é o futebol. Das duas, uma: ou Bruno de Carvalho não tem a noção do que diz e do que já disse dos seus homólogos ou está a fazer pouco de todos nós. Assim como é preciso ter a noção das respostas e da agressividade colocada no âmbito dessas respostas pelos seus adversários, como aconteceu recentemente, na sua própria casa, quando Luís Filipe Vieira o apelidou de ‘mentiroso compulsivo’, chegando mesmo a afirmar que "não se podem mandar pedras e depois esconder as mãos".
Posso não estar totalmente informado à escala mundial, do Burkina Faso à Patagónia, mas — mesmo percebendo que vivemos no mundo da comunicação desde que a internet tomou conta de nós — não conheço mais nenhum presidente no Mundo que utilize tantas vezes o Facebook e outras ferramentas similares para fazer passar a mensagem. Ou será que, entre ironias e
palavras mais agressivas, somos nós que deturpamos as palavras e o sentido delas? Bruno de Carvalho não quer perceber que o essencial das suas propostas (algumas das quais verdadeiramente boas e construtivas) se dilui no meio de tanta intervenção, de tanto volume, de tanta vontade de marcar posição, mesmo… quando está castigado?!
De resto, o presidente do Sporting faz a apologia de que o discurso dos presidentes não está na razão directa do aumento de manifestações de violência, mas depois propõe um pacto de silêncio (entre eles) por seis meses. Em que ficamos? Há ou não consciência de que existe dano para todos? O repto é interessante. Até para ver quem iria ‘rebentar’ primeiro… E, entretanto, lanço daqui outro repto: ponham os atletas a falar e deixem de tratá-los como ‘escravos’. Enquanto for assim, não me venham falar de insconstitucionalidades!
JARDIM DAS ESTRELAS - Brahimi e a celeridade
Já havia acontecido com Rui Vitória, e aconteceu agora com Brahimi — casos de justiça desportiva exercida celeremente. Porquê? Porque se trataram de processos sumários — todos sob a alçada do CD da FPF, sem necessidade de intervenção da Comissão de Instrutores —, com base nos relatórios dos árbitros e delegados. O jogador foi expulso no dia 15, em Braga, foi castigado na reunião de 18, o FC Porto recorreu para o Pleno do CD no dia 21 e, ontem, 28, já depois de ouvidas as testemunhas arroladas pelos Dragões, a decisão foi tornada pública: confirmação do castigo de 2 jogos. É um exemplo de justiça célere: decisão com recurso tomada em 13 dias. Não podemos ter jogadores que cresçam para os (quarto) árbitros nem podemos ter (quartos) árbitros a reportar e a não reportar estas incidências, para que haja coerência e respeito pelo princípio da Verdade Desportiva e da integridade das competições.
O CACTO - A aspirina e o cancro
As picardias entre claques, amplificadas através do crescente clima de provocação, respostas e contra-respostas, promovidas por dirigentes e respectivas direcções de comunicação, culminaram com mais uma morte associada ao futebol, em Portugal. Desta vez, o suspeito aparece associado a uma claque não legalizada do Benfica. É bom que o Benfica aproveite o momento para uma clarificação total sobre o (não) apoio às claques e continuamos à espera que o Governo passe da fase das palavras, depois de tudo o que é público, envolvendo, inclusive, a FPF e a Selecção Nacional. O secretário de Estado, João Paulo Rebelo, não pode achar que ter a iniciativa de mandar fazer filmes a promover o fair-play e o desportivismo é suficiente para atacar o problema. É a mesma coisa que um médio receitar uma aspirina para tentar matar um cancro.
