Papar ou não papar – eis a questão

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Ficámos a saber, através da entrevista concedida por José Eduardo Moniz (JEM) à BTV, na sequência da ‘inauguração’ do Gabinete de Crise constituído pelo Benfica, que é apenas dar nome a algo que já existia (departamento de comunicação e escritórios de advogados agora porventura mais ligados), uma forma de se tornar audível o mediático e útil (?) ‘murro na mesa’, que Paulo Gonçalves (PG) se dirigiu a Luís Filipe Vieira para lhe colocar, "de imediato", o lugar à disposição e que, analisados "os prós e os contras", "decidimos que [PG] deveria manter-se em funções, executando as tarefas que lhe são confiadas ao longo dos anos".

Trata-se, portanto, de uma decisão colegial, que responsabiliza direcção e administração da SAD e que se baseia, segundo JEM, na natureza da decisão da juíza de instrução: não ficar em prisão preventiva; poder frequentar o Estádio da Luz; poder lá trabalhar e ter-se verificado ser mentira (segundo JEM) o Benfica ter contratado para os seus quadros um sobrinho do especialista informático detido, restando confirmar, neste caso, se a promessa foi feita e se, nessa hipótese, ela não terá sido concretizada.

Apesar de JEM ter garantido, na citada entrevista, que nem ele, nem nenhum dos seus colegas, cometeu algum acto ou teve conhecimento de algum acto "no sentido de o Benfica agir de forma menos correcta perante a Justiça ou qualquer outra situação", os indícios, em sinal contrário, são fortíssimos. Pode haver aqui muito ‘Tom & Jerry’ neste jogo de palavras, mas quer relativamente àquilo que foi tornado público sobre o ‘caso e-toupeira’ e, também, no ‘caso dos emails’ ou o Benfica escolheu para sua defesa uma espécie de ‘linha socrática’ ou estamos perante perante a maior inventona desenvolvida neste século — a par daquela que envolve José Sócrates — que, nesse caso, comprometeria, pela falência das instituições, os principais pilares do Estado democrático.

Do discurso de JAM resulta algo que já se percepcionava nos últimos meses, fundamentalmente desde que eclodiu o ‘caso dos emails’: Paulo Gonçalves não é observado (por dentro) como uma figura angular da estrutura de apoio à presidência de Vieira; a partir da entrevista de JEM, todos são achados como ‘braços direitos’ de Luís Filipe Vieira, desde Domingos Soares Oliveira, o próprio JEM, Nuno Gaioso, João Varandas Fernandes, João Quinta, Fernando Tavares (arguido na ‘Operação Lex’), Alcino António, Sílvio Cervan a Rui Costa. O que significa que, não obstante haver figuras que ainda não se pronunciaram na praça pública sobre a profusão de casos que se abateu, directa ou indirectamente, sobre o Benfica, todos parecem confortáveis com o apoio a Paulo Gonçalves, apesar de Nuno Gaioso ter saído, recentemente, a terreiro para deixar claro que "nenhum dos temas na ordem do dia foi objecto de análise, deliberação ou decisão", no âmbito da direcção do clube ou da SAD do Benfica. Por outras palavras: não me metam nisto; eu não sei de nada. O que leva a outra interpretação: o que possa, eventualmente, existir não resulta de nenhuma estratégia formal e oficial. Isso, então, seria a falência absoluta do projecto benfiquista, com a chancela de Vieira.

Se, nos antípodas da lógica discursiva que sustenta neste momento a nomenclatura da comunicação do Benfica , a investigação concluir que Paulo Gonçalves usou José Silva (em prisão preventiva) para ter acesso aos processos em curso, em que posição ficam Luís Filipe Vieira, a direcção e a SAD do Benfica?

Defende o clube da Luz e a sua SAD, agora mais recentemente através de JEM, que tudo não passa de uma "intenção deliberada de atingir o Benfica". Todos se queixam do mesmo. Nos seus discursos comunicacionais, Benfica, Sporting e FC Porto utilizam, recorrentemente, a expressão "contra tudo e contra todos". Todos se consideram vítimas. Do parlamento, dos tribunais, dos jornais e das televisões. Nas suas obsessões ditirâmbicas nem se dão conta de que estão a destruir-se uns aos outros e ninguém sairá verdadeiramente a ganhar. Não pode valer tudo. E esta incursão sobre a clubitização da Justiça e dos seus operadores é um sinal perigoso de insegurança e até de um certo descontrolo. Quando não há mais argumentos, só resta a cabala. Sempre foi assim. No futebol e fora dele. O que é grave é que ninguém se parece propor a acabar com a paródia.

NOTA – Na citada entrevista, Moniz afirmou que não sou "propriamente um Papa destas coisas". Eu acho que ele queria dizer que, na verdade, não papo facilmente estas coisas. Nem estas coisas, nem bilhetes ou camisolas. O que pode ser chato.

NOTA – O problema de Mourinho (no Manchester United) resume-se a uma coisa muito simples: dinheiro a mais.

* Texto escrito com a antiga ortografia

JARDIM DAS ESTRELAS -- 3 estrelas

O Sporting elimina o Viktoria Plzen, com um golo de Battaglia, e qualifica-se para os quartos-de-final da Liga Europa, em cuja eliminatória vai defrontar o At. Madrid, talvez o mais forte candidato a conquistar a prova. No futebol, tudo parece bem quando acaba em bem. O Sporting passa, sem evitar a derrota, mas uma vez mais através de um futebol chato, preguiçoso, com muito pouco rasgo e quase sempre muito denunciado. Um futebol pobre, lento, previsível, quase sempre entediante e aborrecido. A primeira parte, em particular, foi um interminável bocejo, muito longe dos registos que fizeram de Jorge Jesus um treinador capaz de colocar as suas equipas a… empolgar. É verdade que o Sporting tem Bruno Fernandes, Gelson, Rui Patrício e Bas Dost acima de todos os outros, e só apenas Gelson a conseguir dar ‘sapatadas’ no jogo, e depois um segundo nível de futebolistas com muita experiência mas incapazes de acordar a equipa. Jogadores muito iguais no (baixo) ritmo e na incapacidade de tirar um coelho da cartola. Um plantel que resolveu fragilidades do passado mas que revela ainda muitas insuficiências.

O CACTO

Conversa de chacha 

O futebol português vive o seu tempo de esgoto-a-céu-aberto, com acusações, suspeições, denúncias, processos, arguidos e um alegado "esquema de espionagem" que embaraça o aparelho de Justiça, em que tudo e todos são postos em causa, já não se fazendo qualquer destrinça entre o fortuito e o fabricado, muito por força (mas não só…) do buraco sem fundo que é a internet, na qual se pode ir sempre um metro mais abaixo daquilo que se deveria considerar o limite inferior da indecência, e o Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, com a tutela do Desporto, vem utilizar a ‘cassete’ (de sempre) dos governantes, em tudo o que se relacione com o futebol. Vai desculpar-me, senhor ministro, mas já ninguém aguenta a ‘conversa de chacha’, do apelo à moderação e à responsabilidade.

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