Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Para onde vai o futebol português?

Benfica, FC Porto e Sporting venceram os seus compromissos europeus desta semana - somando pontos sempre importantes para o 'ranking' da UEFA - e isso poderia ser observado como um sinal de pujança do futebol português.

Não é, como adiante se verá. Em que circunstância for, ganhar é sempre bom, mas é importante reter que esta semana tivemos, na Champions, o 21.º do ranking da UEFA (Benfica) a jogar em 'casa' do 81.º (AEK); o 9.º (FC Porto) a receber o 64.º (Galatasaray) e, na Liga Europa, o 33.º (Sporting) a deslocar-se ao reduto do Vorskla Poltava (141.º).

… E o que se viu? As equipas portuguesas, todas elas, a revelarem imensas dificuldades para vencerem os seus menos cotados adversários. Nos casos de Benfica e Sporting, com adversários realmente inferiores, a imagem deixada foi muito pobre. Um Benfica descontrolado e incapaz de fazer valer a qualidade dos jogadores que tinha disponíveis para a partida de Atenas; um Sporting muito mexido em relação aos habituais titulares e a evidenciar pouco mais de 'zero'… em classe futebolística. Mesmo o campeão nacional FC Porto, não obstante ter actuado perante melhor equipa entre os três adversários das equipas portuguesas nesta semana europeia, foi ameaçado em demasia por um Galatasaray que desperdiçou muitas oportunidades de golo, fazendo brilhar Casillas.

A imagem de produção futebolística foi, portanto, genericamente pobre. Poder-se-ia tratar de uma situação pontual, mais ou menos ocasional. A verdade, porém, é que essa imagem é mais ou menos a mesma daquela que as três equipas têm revelado nas competições domésticas, e talvez não seja por acaso que o líder do campeonato seja o Sp. Braga, que curiosamente deixou demasiado cedo os palcos europeus.

Recorde-se: antes de entrarem em campo nas competições europeias, o Benfica tinha deixado uma imagem igualmente pobre em Chaves; o FC Porto, com melhor desempenho, viu-se e desejou-se para ultrapassar o Tondela e o Sporting também não foi eloquente frente ao Marítimo.

Há razões diferenciadas que podem explicar o arranque e o desempenho das principais equipas portuguesas, mas a convicção de que os adeptos não andam satisfeitos com o rendimento dos jogadores, individual e colectivamente, com assobios ouvidos em diversos momentos, já levou por exemplo Sérgio Conceição a dizer que, "se querem espectáculo vão ao Coliseu"; Rui Vitória a tentar desculpar-se com as arbitragens e José Peseiro - noutro contexto, é preciso sublinhá-lo - a relativizar as exibições menos conseguidas.

Parece-me claro que se está a jogar menos no campeonato português. Uma coisa é a (boa) organização táctica das equipas, quase sempre muito arrumadinhas no contexto nacional; outra coisa é a capacidade de meter pressão e velocidade no jogo, imagem de marca do FC Porto na época passada e também do Benfica, aqui e ali, mas com assinaláveis intermitências, face à superior qualidade do plantel.

O futebol português vive, então, uma fase preocupante: está com um problema dentro do campo (escassez de qualidade futebolística) e tem um outro ainda maior fora das quatro linhas, com os processos judiciais que se acumularam nos últimos meses - a revelarem, para além das imputações específicas de enorme gravidade, escasso ou nenhum entendimento institucional, agora mitigado com a mudança de presidência no Sporting.

Nenhuma Federação e nenhuma Liga, seja onde for, gostariam de estar confrontadas com estes tipos de problemas (o pior dos cenários), mas a verdade é que eles existem e não se vê forma de o futebol português poder evoluir, rapidamente, para outro estádio de desenvolvimento e comportamento, porque o desenlace dos diversos processos judiciais não será conhecido tão cedo, há que contar com as consequências desses desenlaces (em caso de pronúncias e condenações) e questões relacionadas com a falta de qualidade futebolística da nossa Liga não se resolvem com uma varinha mágica, uma vez que estão dependentes de imensos factores, difíceis de potenciar ao mesmo tempo.

A realidade portuguesa também não se pode dissociar da realidade europeia e mundial, porque a FIFA e a UEFA têm estado empenhadas em não travar esta escalada de aumento de número de jogos, tudo no sentido da obtenção do lucro, não se preocupando com o tempo de gestão da recuperação dos jogadores - e parece-me que até nas principais ligas europeias começa a assistir-se à implantação do 'primado da gestão', de uma forma mais clara, em detrimento do futebol-espectáculo. E isso é mau, porque o futebol sem espectáculo, resumido à rivalidade no momento da vitória, passa a ser uma coisa exclusivamente tribal.

É neste contexto que se realiza amanhã o Benfica-FC Porto e, sinceramente, desejo muito (sem grande fé) que o espectáculo não se resuma às coreografias dos adeptos…

* Texto escrito com a antiga ortografia

JARDIM DAS ESTRELAS
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Nunca é tarde

Aplauso: Pinto da Costa diz que "o futebol tem de servir para unir o país". Totalmente de acordo. Esperemos que seja um primeiro passo e uma manifestação de vontade do FC Porto, que outros possam seguir. Há sempre tempo para se iniciar um novo ciclo nos antípodas daquilo que se andou a fazer durante anos, com o futebol a servir para… desunir o país.

O CACTO
Violações

O caso da alegada violação sexual de que é acusado Cristiano Ronaldo está a ser falado em todo o Mundo e há duas perguntas que, julgo, devem ser feitas:
1 - Por que razão CR e os seus advogados acederam fazer um acordo para pagar 375.000 dólares à alegada vítima (Kathryn Mayorga) se o craque português se diz inocente, argumentando ter havido "sexo consentido"?
2 - Por que razão KM só agora, volvidos 9 anos e quase 4 meses sobre a alegada violação, vem denunciar o caso, contando todos os pormenores que terão acontecido na suite do hotel, em Las Vegas?
A resposta a estas duas perguntas será crucial para se apurar se estão em causa crimes de natureza sexual e/ou extorsão, além de outros, eventualmente.
Seja como for, e independentemente das conclusões a que se possa chegar, o 'caso' já começa a ter consequências: para o próprio CR, em termos da sua imagem e reputação, e, no plano desportivo, para a Selecção Nacional. Já tinha sido muito discutível a dispensa de CR para o jogo de estreia de Portugal na Liga das Nações e, agora, enquanto CR continua a fazer a sua carreira na Juventus, para os jogos que se seguem, até ao final do ano. Parece ficar claro que, para a FPF, e antes de este caso se ter tornado público com contornos mais completos, era legítimo fazer a gestão da condição física e psicológica do 'capitão' da Selecção.
Se o jogador está apto para jogar pela Juventus, tem de estar apto para jogar pela Selecção. Nenhum jogador deve ser dono da Selecção. Nenhum jogador deve ser dono da Federação.

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