Póneis e painéis no carrossel de Bruno
Não se pode dizer que Bruno de Carvalho tenha quebrado o silêncio, porque o presidente do Sporting nunca está em silêncio — e ficámos a saber, não porque tivéssemos algumas dúvidas sobre isso, mas porque foi finalmente assumido pelo próprio na mais recente entrevista televisiva concedida pelo líder leonino, que esta constante virulência dialéctica decorre do facto de o Sporting (falido quando da sua chegada a Alvalade) não ter outro caminho senão… "virar a mesa" (sic).
"O Sporting não tinha dinheiro, mas a sua voz tinha de ser ouvida" – explicou o presidente dos ‘leões’. Fica agora mais claro, para quem ainda não tinha percebido, que – ajudado por uma voz tonitruante, porventura a mais adequada a este momento de estratégica amplificação — Bruno de Carvalho verbaliza e teatraliza muita da sua intervenção pública, porque (segundo ele) só assim, em razão dos erros do passado, o Sporting conseguirá diminuir a distância que o separa dos rivais Benfica e FC Porto.
Quer dizer: Bruno de Carvalho tem a convicção de que não basta ter uma boa equipa e um bom treinador. É preciso mais alguma coisa. É preciso ter voz. E nisso é capaz de ter razão. O Sporting passou a ser ouvido. O problema está na quantidade e no volume, que afectam a qualidade e, em muitos casos, anulam a mensagem e as propostas.
Uma coisa é certa: com eleições à vista, e ainda sem objectivos alcançados (resultados desportivos transformados em troféus, no futebol), o presidente do Sporting, não apenas volta a ignorar os reparos de todos aqueles que acham excessiva aquela virulência dialéctica, como aproveita o momento para sublinhar junto da opinião pública que vai continuar a… jogar ao ataque. Sem medo das palavras. Vá lá: reconheceu o exagero da metáfora das nádegas. É um pequeníssimo avanço.
Nem sempre é justo — para o bem e para o mal — mas os resultados desportivos, no futebol, são o barómetro que tudo (re)posiciona. Bruno de Carvalho quis o título com Leonardo Jardim (2.º), quis o título com Marco Silva (3.º) e quer agora, ainda com mais força, o título com Jorge Jesus. Na época passada, com o ex-treinador do Benfica, foi por um triz (2.º, a 2 pontos do campeão), o que aumentou as expectativas para a temporada em curso, com um acto eleitoral pelo meio.
Houve vendas importantes (Slimani e João Mário), entrada de muitos jogadores e a participação europeia acabou, prematuramente. Há sinais de vitalidade, mas o Sporting, neste momento, é ‘apenas’ o primeiro dos últimos. Ou seja: para Benfica, FC Porto e Sporting, a ‘arrumação mínima’ é sempre entre os três primeiros, mas é bom não esquecer que Bruno de Carvalho chegou ao Sporting depois de este ter sido, cronologicamente, 4.º, 3.º, 4.º e 7º classificado, o que diz bem do plano inclinado em que o clube ‘leonino’ se encontrava.
Parece-me claro que Bruno de Carvalho voltou a aumentar o tom (e o som), porque o Sporting se colocou e ainda está na ‘red line’: depois do ‘colapso’ pós-europeu em Vila do Conde e Guimarães, com perda de 5 pontos de uma forma pouco académica em menos de 15 dias, mais recentemente a turma leonina deixou a Europa e perdeu com o Benfica, perdendo também a oportunidade de se colocar numa posição de grande protagonismo. O impacto negativo só não é maior porque o Benfica deixou, inesperadamente, 3 pontos no Funchal. O jogo para a Taça, no Bonfim, valia muito, à partida, para Bruno de Carvalho e para Jorge Jesus: um novo desaire (numa prova que o Sporting quer ganhar) e seria um problema (de gestão) verdadeiramente… leonino. Não foi por acaso que o Sporting se apresentou, em Setúbal, na máxima força, três dias depois de ter jogado na Luz…
Preto no branco: a partida com o Sp. Braga ainda faz parte do conjunto de jogos em que o Sporting se apresenta na ‘red line’, até porque se trata do confronto entre o 3.º e o 4.º e, depois deste e até às eleições, os ‘leões’ têm um calendário ‘razoável’ (vão a Chaves e a casa do Marítimo em Janeiro e visitam o FC Porto no começo de Fevereiro), mas o êxito no Bonfim foi mesmo um… grande alívio. Caso contrário… o caldo estaria entornado - e bem entornado…
A mais recente entrevista de Bruno de Carvalho foi gravada entre os jogos na Luz e em Setúbal e daí, porventura, a necessidade de aumentar, outra vez, o volume. Um carrossel dialéctico vertiginoso, com uma inabalável fixação nos póneis e nos ‘painéis’ do costume. Um presidente da dimensão de um clube como o Sporting colocar-se ao nível de ‘paineleiros’ que fomentam guerra(s) sem ventura(s) ou é um problema de perspectiva ou é um assumido mecanismo de autosobrevivência. Será que Bruno de Carvalho precisa deste carrossel para se manter vivo?…
* Texto escrito com a antiga ortografia
O exemplo de Toni
Discutiu-se o dérbi e, sobre a arbitragem, houve opiniões para todos os gostos e paladares. Já se percebeu que, mesmo a posteriori, ex-árbitros têm opiniões diferentes sobre os chamados ‘casos’ e isso tem muito a ver com a natureza das leis do jogo, que conferem às equipas de arbitragem o poder da interpretação. Há lances em que a regularidade fica quase no mesmo plano da irregularidade e é nessa subjectividade que assenta o império da dúvida e da discussão. É nessa fronteira que os dirigentes e alguns treinadores investem. Com muita (im)pressão.
É raro ver-se alguém do Benfica a reconhecer erros de arbitragem em desfavor do Sporting e vice-versa. Não é que surpreenda, uma vez que, em toda a sua vida, Toni foi sempre de uma grande honestidade intelectual. Talvez por isso nunca lhe tenha sido reconhecido o mérito devido, porque a sociedade desportiva prefere os enganos, as mentiras, o clubismo cego, a hipocrisia, a subserviência. Em troco de benfeitorias ou mesmo migalhas.
Querem ‘matar’ o vídeo-árbitro?…
Haverá mesmo vontade da FIFA e da UEFA em implementar o vídeo-árbitro? A arbitragem, nas suas manobras, pressões e subjectividades, tira e dá pontos e títulos a muita gente. É um império complexo, liderado por homens. Com preferências, afectos, sonhos e… vontade de influenciar. De uma coisa fácil querem fazer um monstro de sete cabeças. O vídeo-árbitro deve ter o objectivo de eliminar os erros grosseiros. Mais do que isso é querer alimentar uma discussão estéril que satisfaz a tese daqueles que querem tudo na mesma… nebulosa.
